#As cólicas da minha vida

terça-feira, janeiro 06, 2015


[nota prévia: eu espero que depois deste post o CC receba propostas de patrocínio generosas, oriundas da indústria farmacêutica portuguesa... nunca ninguém expôs a coisa como eu a pretendo expor! atenção caros leitores, irei deleitar-vos com um post visceral, mas bem humorado]

Ontem foi dia de ir ao médico. Andamos a tratar uma crise aguda da Síndrome do Intestino Irritável, [tudo aquilo que eu não consigo expurgar verbalmente, acumula-se-me no baixo ventre], que teima em não acalmar. Quando descobri que fazia parte dos 20% da população que sofre deste mal moderno ainda vivia em Espanha. Andei semanas no centro de saúde a fazer exames e passei noites a rebolar-me de dores, sem conseguir "pregar olho" [em bom açoriano]. Ao fim de várias consultas a médica disse-me: "usted tiene el sindrome del intestino irritable, eso es todo psicológico". Usted o caraças! Andámos p'raqui não sei quantas semanas a fazer exames a isto e àquilo, tenho dores que parecem que os órgãos estão todos a desintegrarem-se e isso é tudo psicológico?! Ah que se me van a poner los pelos de punta minha senhora!

É claro que não fui de meias medidas. Saí do centro de saúde e fui directa ao Quirón [uma rede de hospitais em Espanha para lá de cara]. Disse na recepção que queria fazer uma ecografia porque pretendia confirmar, ou não, o diagnóstico da médica do centro de saúde [percebe-se bem que eu não tenho uma boa relação com os médicos do sistema nacional de saúde... seja lá em que país for!]. O técnico que estava a realizar a ecografia tratou do assunto em 5 minutos: "usted no tiene nada, sólo gases". Eu estava como o outro, não sabia se havia de rir ou se havia de chorar... Ria-me porque pensava que eles eram todos maluquinhos e nenhum deles sabia o que é que eu tinha, ria-me porque tinha gasto uma nota preta e afinal eram "sólo gases", ria-me porque a minha hipocondria tinha ido longe demais, e chorava, chorava muito, porque apesar de serem só gases continuavam a doer-me c'mó raio, mal conseguia andar direita.

Foram meses a fio a beber única e exclusivamente infusões e a comer única e exclusivamente tostas integrais com compota. Fiquei esquelética e amarela, bom estou a ser querida demais, fiquei v-e-r-d-e, verde como a Fiona do Shrek, mas mais chupadita. Só consegui recuperar plenamente quando me enfiei em casa, nos Açores, 9 meses de cama [continuei a parecer a Fiona, mas já andava mais coradita]. Agora a parte mais difícil da estória: uma vez detectado a síndrome, ela nunca mais nos abandona [é uma espécie de companheirismo desleal, digamos]. E sempre que o alarme do stress e da ansiedade disparar, ela volta a atacar, primeiro com ameaças que parecem cócegas e a seguir com cãibras do arco da velha que vos deixam feitos num oito.  

Por exemplo, eu tenho fobia a andar de avião [caiu-me tudo em cima que nem ginjas...] e até me enfiarem lá dentro e me amarrarem ao assento, só Deus sabe as voltas que eu dou e as manobras de diversão que eu invento para me abstrair do que está para acontecer. Começo a controlar a meteorologia dois dias antes, escolho os lugares mais espaçosos, sou das últimas a entrar e por aí fora, há todo um ritual para minimizar os espasmos interiores. Nesses dias o meu intestino trabalha a 200% [não sei aonde é que ele vai buscar tanta matéria-prima, se ainda fosse à gordura eu até lhe agradecia, juro que agradecia]. Já saí a meio de entrevistas de trabalho para ir à casa de banho, já interrompi reuniões para conseguir escapar-me, já tive primeiros encontros dopada de ultra levur, enfim, já fiz trinta por uma linha para dissimular este pormenor orgânico... mas é mais forte do que eu, o danado.

Não é de estranhar que as primeiras palavras que eu decoro quando vou viajar sejam a tradução de casa de banho em vários idiomas... Se bem que quando estou relaxada, é bastante raro que o intestino contra-ataque [esse malvado, mais obstinado do que a sua proprietária!]. Ainda perguntei ao médico se valia a pena fazer aquele teste das intolerâncias alimentares, mas ele disse-me que "isso eram tretas!". Segundo ele, uma pessoa tem de aprender a viver com o corpo que tem... Mas na verdade, na verdade, eu gostava de viver com um que tivesse um cólon menos activo... Às vezes, nas minhas divagações mais bem-humoradas, chego a pensar que se algum dia me casar provavelmente não irei conseguir chegar ao altar com tanta cólica pelo meio... Assinamos só um papelinho e já está.

E pronto, enquanto os blogs que andam p'raí passaram os últimos dias a mostrar as pechinchas encontradas nos saldos, ou as prendas de Natal recebidas, eu resolvi mostrar onde é que investi parte do dinheiro que estava destinado para as compras. Mas...e atentem nisto, mesmo torta e com dores de burro de cortar a respiração, eu subo e desço a Calçada do Combro como se fosse uma diva. Once a diva always a diva... O meu cólon é irritável, mas eu sou mais irritante ainda. 

P.s - amanhã vamos tentar correr de manhã se o cólon deixar; se não deixar, vamos cambalear tentando reproduzir a marcha que os atletas de alta competição praticam... é tudo uma questão de  se adaptar o estilo.

[photo credits: ccstylebook]

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5 comments

  1. CC, o que eu me ri com este post ;) é certo que não deve ser nada agradável ter o síndrome do intestino irritável, e por isso espero que os momentos de stress sejam cada vez menos, para o intestino não fazer das suas. Mas a sério, ainda não consegui parar de rir :p beijinho e um bom ano*

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    1. Ah como fico feliz Catarina!!! A ideia era essa: não parar de rir!!!
      Com o resto eu lá vou lidando... Beijinho enorme e bom ano para ti também ;)

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  2. Ahahhahahahah! Sem papas na língua!
    Ó CC, quando tenho vergonha de falar em gases, uso a flatulência, é mais soft, mas olhe que com a idade, a coisa piora.
    Na verdade, já sofri muito, atmbém, acredite.
    Quando tinha uma reunião, uma aula assistida, tomar da palavra, ui, dava-me cada cólica que tinha de ir a correr para a casa de banho, às vezes, duas três vezes. E o meu normal é a prisão de ventre.
    Ansiedade, stress, preocupações, timidez, tudo mexia com o meu intestino...E ainda mexe, mas como agora estou a viver a reforma, as coisas estão mais tranquilas, excepto essa estória dos gases, digo, flatulência.
    E mais não conto sobre este assunto, porque iria gozar-me, ahahahahah!
    Por isso, CC, a jovem que é inteligente, dominadora da palavra, tem de aprender a controlar esse stress, essa ansiedade e , diva que é diva, sabe como fazer, como mostrou aqui:
    "amanhã vamos tentar correr de manhã se o cólon deixar; se não deixar, vamos cambalear tentando reproduzir a marcha que os atletas de alta competição praticam... é tudo uma questão de se adaptar o estilo."


    P.S.: Tenho uma sobrinha com 31 anos, que é demais, acredite.
    E já foi pior, até que numa das situações, e depois de reprovar no código, tudo fruto da ansiedade, convenceu-se que era capaz de conseguir a carta de condução.
    Passados 6 anos, está muito mais relaxada, mas ainda tem estes estados ansiosos que perturbam o funcionamento do intestino.
    Já aconteceu estarmos na rua e dar-lhe uma dessas terríveis cólicas e ter de vir a correr a minha casa, no centro da cidade, para descarregar o intestino.
    A "psique" é tramada.
    Espero que melhores, CC.
    Um beijinho

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    1. Ai Maria não me diga que isso piora com a idade... mais vale eu pedir a reforma já, não acha? Os espanhóis por acaso são muito directos, chamam os bois pelos nomes e eu gosto de lhes seguir o exemplo... De facto, quando a cabeça não tem "juízo", o corpo é que paga! :P Beijinho

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  3. Ahahahahaha!
    Pedir a reforma? Uma jovem linda e cheia de vida!
    Quando escrevi que com a idade piora, é somente os gases, valha-me Deus!
    Beijinho

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