#E a louca sou eu?

sexta-feira, janeiro 16, 2015



Pois é... quase, quase nos 31... [mas ainda falta o "quase, quase"]. Uma das coisas que se vai aprendendo à medida que crescemos é a desconstruir os preconceitos que criamos sobre nós próprios. Esse é se calhar o maior desafio que se ganha com a idade. O resto é bastante relativo. É por isso que aquilo que pensamos, sobre o mundo e sobre nós quando temos 20, não bate sincronizadamente com aquilo que pensamos sobre o mesmo quando temos 30 ou 40. O "ficar-se mais velho" tem mesmo uma correlação bastante forte com o "ser-se mais maduro". Ainda bem. Para bem da humanidade [e do nosso equilíbrio pessoal também].

Nos últimos meses tenho travado uma batalha gigante contra as minhas cólicas teimosas. A síndrome do intestino irritável tem origem a vários níveis, uns físicos, outros psíquicos. Depois do meu médico de família ter tratado dos "distúrbios orgânicos", eu resolvi tratar de igual forma os "distúrbios mentais"... e aconselhei-me sobre a natureza das minhas reacções psicossomáticas junto de um psiquiatra. Ir ao psiquiatra pela 1ª vez causou-me alguns calafrios, ou melhor, causou-me algumas cólicas adicionais. Esta decisão momentânea, mas reflectida, fez-me recuar no tempo até à minha 1ª  vez no psicólogo.

Durante as primeiras quatro ou cinco consultas eu nunca abri o pio. Nunca lhe disse nada, a não ser que era uma pessoa muito céptica em relação à psicoterapia e que estava ali porque tinha sido "obrigada" porque se tivesse sido uma decisão minha, seria completamente desnecessária a ajuda de alguém exterior ao caso. O homem teve uma paciência de santo daquelas... Todas as vezes que eu aparecia na consulta ele perguntava-me o mesmo: "quer falar de alguma coisa em particular? quer abordar algum tema específico? começamos por onde?". E eu respondia-lhe sempre o mesmo: "não quero falar de nada e não preciso falar sobre nada".

Aos 20 e poucos eu acreditava que as pessoas que iam a psicólogos eram pessoas fracas. Eu acreditava que ir ao psicólogo me ia baptizar de fraca também. Eu neguei até às últimas forças a psicoterapia, até que um dia, cansada de estar estagnada no mesmo ponto, abri as comportas. Bastou que ele me perguntasse: "como é que lida com esse sofrimento todo?" Nesse dia eu comecei a falar e nunca mais me calei [quer dizer, calei-me, em alguns momentos, por outros motivos]. Ter feito psicoterapia naquela altura ajudou-me muito. Ajudou-me a reestruturar-me enquanto pessoa. Ajudou-me a reencontrar-me. Ajudou-me a focar no essencial para sair do buraco em que tinha entrado e seguir em frente. O homem não fez milagres. Ele foi apenas o agente de uma mudança que começou em mim. 

Outro dia, quando cheguei à recepção da clínica e a recepcionista me perguntou que consulta eu tinha, eu respondi-lhe "psiquiatria". Senti sobre mim o olhar perturbado da maioria dos recepcionistas que estavam atrás do balcão. Afinal de contas, o que eu pensava aos 20 sobre quem ia aos psicólogos ainda é possível que seja válido, hoje em dia, para quem vai aos psiquiatras. Aguardei a minha vez, tive a consulta e quando terminou dirigi-me novamente à recepção para pagar. Pedi à moça que me atendeu para me passar uma declaração de presença e ela, com uma cara de interrogação indagou: "quer que eu omita a especialidade em que foi consultada?" E eu perguntei-lhe: "porquê?" Ela comentou: "a maioria das pessoas pede sempre para omitirmos que vieram a uma consulta de natureza psiquiátrica". A sério que as pessoas ainda pensam assim? Eu ia jurar que já tínhamos evoluído o suficiente para não continuarmos a alimentar preconceitos deste tipo. Eu ia jurar que vivemos num país o suficientemente livre para não termos medo de juízos de valor infundados e levianos. Respondi-lhe: "acha? deixe estar aí psiquiatria escrito, eu faço questão de saberem o quão louca eu estou." E sorri-lhe, como sempre sorrio nestas situações.

A moça recolheu-se para dentro da sua carapaça e não disse mais nada embora eu tenha percebido pela cara dela que ela deve ter mesmo pensado que eu não batia bem da bola. A culpa não é dela. A culpa é de quem ainda não amadureceu a idade que tem em si. Ir a um ou ir a outro não tem nada de mal. O que tem de mal é insistirmos em vivermos acorrentados ao nossos fantasmas. Ao menos eu conheço a minha loucura, pobres daqueles que nunca chegam a conhecer a deles.

[photo credits: ccstylebook]

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