#Iam Charlie

sexta-feira, janeiro 09, 2015



A estória de hoje era para ser outra, mas mudei de ideias... mudei de ideias porque se não aproveitasse o mote dos últimos dias estaria a ser pouco coerente com aquilo que sempre defendi e escrevi. Começo com uma introdução que à primeira vista pode parecer não ter nada haver com o tema, mas há uns anos atrás, lembro-me de estar a ver um filme que me ficou gravado na memória para sempre. Havia uma cena em que uma professora universitária pedia aos alunos que pensassem no seguinte exercício: que palavra ou frase seria a mais indicada para o epitáfio de cada um [os epitáfios, para quem não conhece o termo, são frases escritas sobre túmulos que servem para homenagear as pessoas que aí sepultadas]. Durante vários dias, na flor da minha adolescência, fiquei a pensar nisso... na frase que eu escolheria para mim.

Não precisei de muito tempo e recordo-me que até cheguei a propor o desafio à minha irmã. Trocámos impressões, falámos muito sobre o sentido da vida e sobre o valor da morte e no meio da conversa eu disse-lhe a frase que eu achava que melhor me homenagearia, ou que eu gostava que fizesse jus à minha vida terrena: "viveu como sempre quis". O valor da liberdade foi-me incutido muito cedo por 4 pessoas que são os pilares da minha fundação: a minha avó materna que lutou sempre para viver da forma como quis, o meu pai, que nunca deixou de defender aquilo que sempre pensou mesmo que aquilo que sempre tenha pensado nem sempre tenha sido o melhor, a minha mãe, que sempre se esforçou por ser livre dentro das suas próprias prisões, e a minha irmã que nunca aceitou resignar-se a viver dentro de uma gaiola social insular.

Eu nasci livre. Cresci livre. Educaram-me para ser livre. Eu não sei ser eu se não for livre. É por isso que todos os crimes contra a liberdade são para mim os piores crimes que se podem praticar. Quem me conhece sabe que digo sempre o que penso, mesmo que isso despolete guerras (des)necessárias. Sempre preferi uma verdade dura, fria, inquestionável, a uma mentira pouco útil. Foi assim que me educaram e é a este tipo de educação que eu não consigo fugir nem dizer não.

Há dois anos atrás aconteceu-me uma das estórias mais tristes da minha vida profissional. Não é uma manobra de diversão literária puxar dos meus galões, mas eu já trabalhei em rádio, eu já trabalhei em televisão, já privei com figuras públicas, já trabalhei com políticos e nunca em momento algum senti pressão para não dizer aquilo que eu pretendia dizer. Nesse dia, que me custa muito esquecer, não me encostaram uma metralhadora ao coração, mas sentaram-me a uma mesa redonda com um único objectivo: calarem-me. E quem tenta calar os outros, acaba de uma forma ou de outra por sufocar o único órgão do qual todas as pessoas dependem. Acho que não preciso contar-vos mais sobre o assunto porque quem me acompanhou ao longo do tempo, subentende porque é que a minha escrita mudou de trajectória.

Custou-me muito a crer que em pleno século XXI me tenham dito o que me disseram, nesse dia em que me ameaçaram e me coagiram com o objectivo de me calarem. Foi o pior golpe de todos. O que mais me custou a engolir até hoje. Aquele que me tirou uma parte de mim e que jamais a devolveu. Ainda assim a minha fé é maior do que qualquer crença que me tentem impor, e com a minha fé, ténue, frágil, quebradiça, eu hei-de encontrar a parte que me falta. Os mais perigosos inimigos da liberdade de expressão são pessoas inteligentes. É de facto uma pena.

[photo credits: via]

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