#Taxi Driver

quarta-feira, janeiro 07, 2015


Ontem tive uma manhã complicada: no espaço de uma hora percorri Lisboa em 4 táxis, todos diferentes [mais valia ter contratado um tuk tuk para me conduzir... ao menos passeava-me em slow motion de cabelos ao vento (e nariz ao frio)]. Reza a estória que o levantamento do meu cartão do cidadão [aquela coisa quadradinha em que ficamos tão bem que parecemos uns ex-presidiários] estava agendado para as 10:00 da manhã. Para me poupar a ansiedades desnecessárias, levantei-me cedinho, bem antes da hora, e decidi enfiar-me num táxi para ir até à conservatória. 

Com o 1º taxista, um velhote um pouco surdo, não houve grande enredo. "Isso está mau!" lancei eu p'ró ar quando se lhe deu um ataque de tosse de 3º grau. Pensei que o senhor fosse expelir metade de um pulmão em plena marcha, mas consegui chegar ao destino sem precisar chamar o INEM. Entro na conservatória, abro a mala e... raios me partam! Tinha deixado a carta com os códigos do novo cartão em casa. Pedi ao segurança que mantivesse o meu agendamento e disse-lhe que voltava em 15 minutos.

No 2º round, de regresso a casa, calhou-me um condutor mais novo com alguma dislexia associada. "Isto dos cartões dos cidadões é uma forma do governo nos roubar, de 5 em 5 anos, pimba, lá vai 15 euritos". O governo não sei se lucrou comigo, mas que eu contribuí para as remunerações da classe taxista de Lisboa lá isso contribuí. Cheguei a casa, e desalmada, lancei-me escada acima. Eu moro naqueles prédios antigos, com entradas muito esguias e super inclinadas, estão a ver? Não havia muito espaço por onde cair porque toda eu ocupava a escada, mas mesmo assim, senti-me resvalar degrau a degrau, no sentido contrário à porta da petite maison. Resgatar a porcaria de carta parecia uma missão impossível! Depois do inédito chegou o 3º táxi.

O moço era estrangeiro. Não falava muito bem português. Estava tão cansada [dorida e irritada] que não me apeteceu contar-lhe grandes estórias. Cheguei à conservatória, levantei o cartão do cidadão e saí porta fora para concluir dentro de tempo o último troço do triatlo que estava a decorrer. Quando entrei no 4º táxi disse "bom dia, vamos lá trabalhar que se faz tarde, é para o Rossio sff." e o senhor respondeu-me: "vamos lá trabalhar, que óptima notícia!" Para ele acredito que fosse uma boa notícia, mas para mim, depois de alguns dias de férias, e a começar com uma manhã assim, o cenário não me parecia muito auspicioso. "Eu por mim já me reformava..."

"Olhe que não minha querida... Trabalhar faz muito bem, principalmente à cabeça, não deixa que ela pare. Enquanto se está ocupado, está-se bem..." Já que a 4ª tentativa do dia pareceu revelar algum talento em potência, perguntei-lhe: "e quando se trabalha naquilo que não se gosta, o trabalho também faz bem?" E quase a chegar ao fim do trajecto o taxista respondeu-me: "sabe, são muito poucas as pessoas que trabalham naquilo que gostam, isso é uma ilusão na qual acreditamos, às vezes uma vida inteira... o trabalho faz sempre bem, pode não ser naquilo que gosta, mas ao menos escolha um em que possa divertir-se". E já fora do carro, mas ainda com a cabeça enfiada lá dentro, voltei a perguntar-lhe como se ele me devesse a resposta "e quando não nos conseguimos divertir? quando nos é difícil divertir de verdade, o que é que fazemos?" "Isso é outra coisa com a qual as pessoas se enganam... não precisamos de nos divertirmos a 100%... Se se divertir 1%, está a divertir-se na mesma, não é verdade?" 

Tanta expectativa para isto... Será que nos conseguimos divertir de verdade se nos divertirmos apenas 1%? Eu tenho as minhas sérias dúvidas... 1% nem dá para aquecer os maxilares, mas se me lembrar da minha figurinha, entalada nas escadas, tipo um salsichão no meio de uma sanduíche, já consegui rir um bocado valente [e espero que vocês também!]. Au revoir!

[photo credits: ionline]

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4 comments

  1. Ó CC, eu fico mesmo encantada com o que escreve.
    Faz das suas estórias do dia-a-dia "textos literários" com humor e prazer.
    Pois olhe, esse 1% já dá para alegrar um bocadinho do dia. Acho que o taxista tem alguma razão (eheheheheh) e é tão verdade que " mas se me lembrar da minha figurinha, entalada nas escadas, tipo um salsichão no meio de uma sanduíche, já consegui rir um bocado valente [e espero que vocês também!]. Au revoir!".
    Beijinho

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    1. Obrigada Cantinho! De facto se somarmos 1+1 acabamos por ter uma conta redonda, cheia de bons momentos. Beijinho

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  2. Concordo quando se diz que trabalhar faz bem, apesar de nem sempre nos apetecer sair do aconchego da cama, de não nos apetecer lidar com colegas difíceis, de nem sempre tudo correr às mil maravilhas. Esses pontos negativos fazem com que apreciemos o lado positivo, o 1% à de estar lá algures... no agradecimento que é reconhecido, na comida que temos no prato graças ao trabalho, nas pessoas flexíveis que nos tornamos ao enfrentar o lado menos bom de se trabalhar naquilo que não se gosta. O simples facto de não nos tornarmos inúteis em casa, sem nada fazer já é compensador.

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    1. É verdade, o 1% às vezes representa uma pequena vitória sob todas essas coisas que enumera. Ficar em casa, sem fazer nada, não seria de todo uma opção, mas confesso que me apetece mudar "mudar o chip". Beijinhos

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