#É preciso sabermos perder-nos

quarta-feira, fevereiro 04, 2015


Ontem passei um dia animado na companhia de (boas) amigas [sou (muito) dada às clausuras e aos retiros espirituais, mas desta vez nem a cara feia do tempo cinzento me prendeu em casa]. Uma delas não estava muita católica, e em modo "terapia de grupo"  lá nos fomos ajudando umas às outras enquanto despejávamos parte do lixo emocional que nos ocupava a alma. Essa foi a primeira parte do meu dia, a segunda foi com a psicóloga.

Sim, para além da psiquiatra também tenho sido acompanhada por uma psicóloga [eu não sou de meias medidas, quando é para meter ordem na casa mais vale ir com tudo! e a minha "casa", apesar dos seus pequenos 30m2 há muito tempo que anda pr'a lá de desarrumada]. Tenho a plena consciência de que chegar até mim não é uma tarefa fácil. Nem para a psicóloga nem para quem se tenta aproximar. É por isso que a psicoterapia tem sido um processo agridoce, mas (reconhecidamente) necessário. Era tão mais fácil se existissem soluções instantâneas... preferiria isso a ter que (re)mexer nas entranhas. 

A dada altura das nossas vidas todos nós enfrentamos a perda. A perda de alguma coisa que pensávamos ser-nos própria ou a perda de nós próprios. E torna-se (muito) complicado existir e resistir nessas condições. São os nossos "amores de perdição" que nos tiram o tapete [e não me estou a referir aos amores carnais]. Estou a referir-me ao que nos faz correr o sangue nas veias. Ao que nos faz ter orgulho em nós. Ao que nos faz amarmo-nos por aquilo que somos. A perda, essa malvada, é capaz de despoletar guerras interiores que duram anos, mas é incapaz de nos tornar mais fortes. Os amores de perdição levam-nos todos ao mesmo caminho: à tão somente perdição.

E descobrir, num dia banal como todos os outros onde é que eu me tinha perdido deixou-me feliz. Orgulhosamente feliz. Pelo menos já sei onde fiquei. É ali, naquele exacto momento da minha vida onde eu estou. É ali que está a mulher que eu queria ser. É ali que está a mulher que me fez feliz, que me fez ter orgulho de mim própria, que me fez de carne e osso, e não um bloco de gelo maciço. Foram anos de perda para num dia, cinzento e sombrio, descobrir-me. Foram anos de sobrevivência até voltar a sorrir-me com a lágrima no canto do olho. Avistar-me de novo foi das sensações mais poderosas (e mais felizes) dos últimos anos. Era isto que eu queria. Era por isto que eu ansiava. Era isto que me faltava, que se me perdia.

O meu coração voltou a expandir-se mais um bocadinho depois de meses constrangido. Dilatou, como em tempos costumava dilatar. Encheu-se de ar como é normal encher-se. E deixou sentir-se, ao de leve, bater. Pela primeira vez em muito tempo sinto a esperança ganhar ao desespero. Era isto. Era tão isto. Era mesmo isto... finalmente.

Ps.- Em breve conto-vos a estória dos postais e das cartas que estão na fotografia... 
Até lá, façam o favor de serem felizes!
[imagens: ccstylebook]

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