#Apresento-vos a Canada da Bezerra

quinta-feira, março 19, 2015


Eu sempre fui uma menina da cidade, mas nunca senti o meu coração bater por Lisboa [apesar dos 12 anos de estórias que lá nasceram (e que prometem continuar até ordens em contrário)]. Quem nasce nos Açores, só sente o sangue correr nas veias quando põe o pé fora do avião e leva com o vento, [e com o cheiro a terra molhada], nas ventas. Sempre vivi em cidades. Diferentes, claro. Os meus pais quando casaram foram morar para casa da minha avó paterna. Mais tarde, mudaram-se para casa da minha avó materna, [eram um bocado hippies, portanto], e em 1980 ficaram sem tecto quando um sismo dos grandes arrasou a Terceira

A primeira casa em que me lembro de viver era pouco maior do que a minha actual petite maison. Dividia o quarto com a minha irmã, embora os 5 anos que nos separam tenham transformado a nossa adolescência numa verdadeira batalha campal, ainda assim compensava morar na cidade... Sentia-me livre porque estava perto de tudo e porque não dependia de ninguém: ia a pé para todo o lado, para a escola, para a praia, para o cinema e para as noitadas também. 

Quando tinha 18, o meu pai enfiou-nos às 3 no carro, estilo missão militar, e levou-nos num passeio surpresa, [oh oh oh], até uma casa sinistra, semi-abandonada, no meio do nada. As ervas daninhas do jardim escondiam a fachada da casa, azul fluorescente. Abriu a porta empoeirada, mostrou-nos as divisões uma a uma e aguardou em silêncio os nossos pareceres. A minha mãe encolheu os ombros [acho que ela se assustou com o tamanho das divisões, iam dar muito mais trabalho a limpar]; a minha irmã franziu o sobrolho e o primeiro pensamento que me ocorreu foi: "a minha vida social acabou se eu vier viver para aqui"... [preocupações muito próprias da idade].



Todas achámos que o meu pai, aos 40 e muitos quase 50 estava louco, senil e quiçá um bocadinho fora de si, mas como ele é mais teimoso do que uma mula, decidiu, em poucos segundos, e com muita convicção: "óptimo, ainda bem que vocês não gostam, é esta mesmo que eu vou comprar!"[vêem como se vive bem numa democracia?]. Não me custou muito abandonar as memórias da casa da cidade, nessa altura estava na faculdade (em Lisboa) e não pude participar na mudança, mas as primeiras idas a casa não souberam de facto a idas a casa. Para não falar no desespero que era abrir um armário à procura de um prato e dar com o das panelas... Sentia-me uma completa estranha. Sentia-me uma turista dentro da minha própria casa. Sentia que eu não pertencia a este lugar e que este lugar nunca me pertenceria. 

As noites também se tornaram complicadas. Pela primeira vez na vida, aos 18 anos, tinha um quarto só meu... e agora quê? Nos primeiros meses não consegui lá dormir, dormia no da minha irmã, até que me fui habituando à ideia e me fui adaptando às evidências [se bem que ter quartos separados não nos impediu de ter alguns arrufos diários]. Admito que no inicio a luz do corredor tinha de ficar acesa... 







Hoje em dia, passados quase 13 anos, nas tardes de Verão, quando nos sentamos no alpendre da casa, depois de uma ida à praia, a comer um bom peixe grelhado e a beber um bom copo de vinho, acompanhado pelo som dos grilos, admitimos em silêncio que sair da cidade para vir morar no campo foi uma das melhores decisões que o meu pai alguma vez tomou.

É desse "deserto" tão cheio de tudo do qual eu muitas vezes tenho saudades e ao qual eu preciso vir de tempos a tempos para ganhar forças e recarregar energias...my precious! Acho que nunca ninguém vai perceber um açoriano sem passar uns bons meses nos Açores. A vida aqui ganha outro significado, mesmo que estejamos encerrados numa ilha, cercados pelo mar. Nunca me senti tão livre na vida... sinto-me como um passarinho fugido da gaiola. Sabe tão bem...



I'm such a lucky lucky lady! O meu pequeno paraíso é isto. Autêntico. Avassalador. Simples. E ainda bem que a teimosia do meu pai, muito bem herdada por mim, se sobrepôs a qualquer receio maior. Hoje vou poder agradecer-lhe, porque estou junto a ele, na casa que ele decidiu comprar, contra todas as opiniões femininas da família [um homem com muitas mulheres em casa sofre p'ra déu-déu]. Que todos os dias do pai fossem comemorados assim. Seria óptimo.

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[imagens: ccstylebook]

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1 comments

  1. Que belo post!
    Uma linguagem terra a terra e com muita ternura.

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