#Há gente que fica na estória da gente

quinta-feira, abril 23, 2015

Se me ligam antes do relógio despertar não é bom sinal. Há uma espécie de código de conduta na minha família: ninguém liga a ninguém de manhã. É por isso que quando o telemóvel toca, em horas que não devia tocar, toda eu tremo. O coração de um açoriano que vive fora dos seus é um coração frágil... Grande demais para aguentar a distância, mas demasiado pequeno para adormecer a dor.

Já me tinha acontecido duas vezes. Das duas vezes foi o meu pai que me ligou. Foi sempre a ele a quem tocou dar as más notícias. E de ambas as vezes não se lhe reconhecia a voz. Depois do telefonema há um ritual que custa muito seguir... Fazer as malas, ir para o aeroporto, percorrer no tempo duas horas e meia, e por fim, juntar-me aos que mais amo para me despedir dos que mais amo. 

A família do meu pai tinha um negócio: uma pequena agência funerária. Sempre convivemos lado a lado com a morte e isso nunca nos fez impressão. Eu gosto de estar perto dos meus mortos, de beijá-los na face, nas mãos... de atrasar o momento em que a urna se fecha e se encerra para sempre a presença dessa pessoa neste mundo.

Hoje o telefone tocou fora de horas. Quando a minha avó paterna morreu, uma parte muito grande do meu pai morreu com ela. E hoje, tenho a certeza de que a outra parte que lhe restava também partiu. Morreu-me um tio. O irmão mais velho dele. A única pessoa da família dele que não tinha vergonha em ser da família dele. E a única pessoa que ainda representava família para ele. 

Tenho o coração partido em mil pedaços. Pelo meu tio. Pelo meu pai. Pelos meus primos. Por quem nesta vida não consegue pedir perdão. Por quem não consegue dar a outra face. Por quem não consegue amar. E por quem não se deixa amar. Quero acreditar que o meu tio foi para um lugar muito melhor do que aquele em que todos nós estamos. Quero acreditar que voltou aos braços da sua mãe, e do seu pai. E quero acreditar que aquilo que ele deixou dele entre nós será o suficiente para vivermos com a única coisa que se tem na vida: amor. Amor que nunca acaba. Que nunca acabará.

A última conversa que tive com ele foi quando estive nos Açores recentemente. Disse-me que este ano a coisa estava complicada para viajar por causa do joelho da minha tia. Tinha pena, mas tinha de se ficar pela ilha, embora no próximo ano as coisas já estivessem preparadas para eles darem uma voltinha, um passeio jeitoso.

Sinto-me horrível por não poder estar lá. Sinto-me desfeita. Sinto-me impotente. Sinto que estou em falta. É uma sensação terrível não poder amparar as lágrimas do meu pai, nem poder abraçá-lo e dizer que está tudo bem. Escrever ajuda-me como podem ver. Ainda bem que chegaste tarde à nossa vida, mas chegaste. E espero que um dia a gente se encontre para dar um passeio jeitoso. Até lá, descansa em paz.

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2 comments

  1. Lamento, CC.
    Infelizmente, todos passamos por esta dor.
    E como também passei por dores de mãe, cunhado, irmão, irmã e pai, sei quanto custa, especialmente por que foram pessoas boas.
    Ficam as saudades e as recordações.
    Um grande abraço.
    Maria

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    1. Eu também lamento Maria que tenha passado por tanto.
      Beijinho grande.

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