#Todos os trabalhos são dignos

segunda-feira, abril 06, 2015

Continuo a acreditar que os maiores obstáculos que as pessoas encontram ao longo da sua vida não são provocados única e exclusivamente por acontecimentos externos [aos quais são alheias]. São maioritariamente os preconceitos que criamos sobre nós próprios, e com os quais nos obrigamos a viver, que se tornam responsáveis por não sermos capazes de seguir [e de olhar] em frente.

A semana passada conheci alguém que durante uma conversa banal me contou a sua estória... A estória de quem precisa de se perdoar, mas [ainda] não consegue. A estória de alguém que emigrou em 2000 para Inglaterra com o objectivo de esconder de quem a conhecia os danos colaterais que a crise lhe imputou. A mulher dessa estória trabalhava numa empresa privada como tradutora, mas quando a empresa fechou viu-se obrigada "a fazer o que fosse preciso para sobreviver". A tirania da idade num país envelhecido não lhe deixou muitas opções... "Se é para limpar casas ao menos limpo-as lá fora e assim ninguém me vê nem ninguém me (re)conhece. Aqui tenho vergonha de o fazer. De o admitir. Foram mais de 20 anos com um cargo numa empresa, estável, reconhecido, nunca me habituei." [é mais do que justo que nunca se tenha habituado, mas não terá chegado já o momento de olhar para quem é e não para quem era?]

Se me perguntarem se algum dia da minha vida eu me imaginei a trabalhar numa loja, eu respondo-vos logo que não, apesar disso ter sido uma decisão consciente. Aos 18 anos, quando se entra para a faculdade, é-se um bocadinho mais ambicioso [pelo menos, na minha altura, ainda não se desenhavam desfechos contemporâneos dramáticos como os de hoje]. Se eu tinha preconceitos em relação ao meu trabalho? Muitos. Considerava-no um trabalho menor. Se alguma vez senti vergonha? Sim, senti. Principalmente nos dias em que apareciam clientes da minha ilha cujos filhos e filhas eram "senhores doutores" bem na vida. Nunca seremos totalmente indiferentes ao [olhar de] julgamento dos outros. Se eu me arrependo? Claro que não. Se eu acho que mereço mais e que posso mais? Claro que sim. Não sou hipócrita.

Confesso-vos que fiquei com pena da senhora com quem me cruzei... Fiquei com pena dela não saber [como] orgulhar-se de si própria. Fiquei com pena que ela fosse mais um número para engordar as estatísticas daqueles que saem de Portugal para fazerem lá fora o que têm vergonha de fazer [e assumir] cá dentro. A emigração é uma fuga camuflada [em vários sentidos].

Muito honestamente, eu não tenho receio se o passo a seguir for limpar casas. Os meus pais começaram dessa maneira e nessa altura tinham muito menos do que aquilo que eu tenho hoje. E hoje, ainda bem, por sinal, têm muito mais do que eu. Então eu também hei-de lá chegar... O mais importante e o que eles nunca deixaram de me incutir foi tão somente isto: "faças o que fizeres sê [sempre] fiel a ti mesma". E acreditem em mim, há uma altura na vida em que a única coisa que vão querer será exactamente isso: ser fiel a vocês mesmos. 

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4 comments

  1. Estou completamente de acordo contigo! Conheço pessoas assim, mas que quando vêm cá, se vangloriam do dinheiro que ganham, esquecendo-se de referir o que fazem ou o tempo mínimo de lazer que têm lá. Se estivessem cá a fazer o mesmo, acredito que seriam mais felizes, caso decidissem aceitar-se a eles próprios.
    Nós somos os nossos piores inimigos muitas vezes...

    (P.S.: Comecei a seguir este espaço há pouco tempo, mas já gosto imenso de cá vir espreitar as tuas publicações! Continua com o bom espaço que tens aqui durante muuuuuito tempo! Adoro!)

    Beijinho*

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    1. Bem-vinda D.! Obrigada pelas tuas palavras! Não imaginas como é bom ouvir alguém aí desse lado dizer que nos gosta de ler... Enche-me o coração. Beijinho*

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  2. Sem dúvida, CC.

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  3. CC, deixo aqui um link de aluguer de casas (por vezes fica mais barato que hostel ou aparthotéis) e tem-se mais privacidade.

    https://www.airbnb.pt/s/Porto?page=2

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