#Mea culpa

quarta-feira, maio 13, 2015

Durante muito tempo, e até à bem pouco tempo, eu sentia necessidade de ser boa em TUDO. Eu pensava, muito honestamente, que tinha vindo a este mundo para ser irrepreensível. Eu carregava nos ombros o peso e a responsabilidade de ser uma boa profissional, uma boa filha, uma boa irmã, uma boa namorada, uma boa amiga... Não me permitia perder o controlo de todas as coisas que eu de facto nunca controlei... Não me permitia "quitar la toalla" como dizem os espanhóis. Não me permitia desistir. Nem me permitia falhar, mas tão pouco me permitia ser FELIZ.

Continuar a resistir quando já não existem recursos, nem fontes de alimentação é um erro. É um erro hediondo. E continuar a querer ser um equilibrista sem equilíbrio só pode acabar na pior das tragédias. Acho que foi por isso que entrei em "loop" quando fiz os 30... Parecia um cachorro a correr atrás da própria cauda, sistematicamente, dia atrás dia.

Com tanto desperdício de energia, os danos colaterais foram-se espalhando por diferentes áreas da minha vida... Tudo me sabia a imperfeito, incompleto... Todas as coisas pareciam que não tinham o seu devido valor e eu tal como essas coisas, continuava a pressionar-me, continuava a culpar-me por elas não serem como eu queria que fossem: PERFEITAS. E durante muito tempo, alimentei a ideia de que era eu que andava ao contrário do mundo... Que era eu a culpada, e a maior responsável, por não conseguir aceitar as evidências. 

Chegou o dia em que me apercebi que tinha de quebrar este movimento desconstrutivo, e na maioria das vezes, evasivo, e alinhar a "musculatura" da minha consciência. Procurei ajuda e pus mãos, cabeça e coração à obra. E depois de tanto tempo a funcionar ao contrário, percebi uma coisa realmente importante... Eu não tenho de ser boa em tudo, eu só preciso de ser boa para mim, de ser boa comigo. E quando eu cuidar de mim como deve de ser eu vou conseguir cuidar de todo o resto como todo o resto precisa de ser cuidado, mas enquanto eu não o fizer primeiro comigo, o mundo não vai ser o lugar que eu imaginei só porque sim.

Amar não é um exercício egocêntrico, mas se nós não depositarmos o valor que acreditamos ter nas coisas e nos outros, e deixarmos ser deles essa responsabilidade, vamos viver para sempre incompletos e insatisfeitos. É por isso que a relação mais duradoura e mais fiel de toda a nossa vida deve ser uma só: a que mantemos connosco mesmos. É um caso de amor, é. Complicado, sem dúvida. Mas experimentem deixar as culpas de parte e façam as pazes convosco mesmos. Nós devemo-nos conquistar a nós próprios. Dia após dia. Aniversário após aniversário. Trabalho após trabalho. Vitória após vitória. Perda após perda.


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3 comments

  1. CC, não imaginas como me identifiquei com este texto! Hoje em dia parece que somos bombardeados com pessoas com "vidas perfeitas e tão bem sucedidas" que sentimos que temos de ser tudo de bom, comparamo-nos, perdemos o rumo... e depois isso estende-se a tudo o resto, a nós, e aos nossos diferentes papéis. Por isso, foi quando descobri exactamente aquilo que descreves que me tornei melhor para mim própria. E com isso, melhor pessoa, melhor irmã, melhor namorada, melhor profissional. Porque aceito as minhas limitações e as minhas falhas, mas sem ao mesmo tempo me aceitar como medíocre. É difícil, mas é libertador :)

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    1. É sim Catarina! E para além disso, também é necessário, principalmente à nossa geração que sabe tão bem aquilo que representa o peso da desvalorização. Obrigada pela partilha! Beijinho :)

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  2. É isso, conquistar nós próprias e percebermos que não podemos abarcar tudo, somos guerreiras que têm grandes batalhas pela frente, com ferimentos, com imensas lutas, com perdas, por que dia após dia, ano após ano os gritos da vitória serão imensos.
    Beijinho

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