#Mon petit chou

sábado, maio 02, 2015


A forma como eu conheci a Sara foi muito engraçada. Estávamos em 2002 e tínhamos chegado ambas atrasadas à primeira aula de Ciências da Comunicação... Eu, saloiinha açoriana, porque não percebia nada dos horários, nem das salas, nem das disciplinas, ela porque [muito] provavelmente tinha saído à noite no dia anterior. Enquanto esperávamos pelo intervalo para podermos entrar à socapa sem dar cana logo no primeiro dia, fomos trocando algumas palavras. 

Notei-lhe um brilhozinho nos olhos quando lhe disse que vinha dos Açores... Uma das grandes paixões da Sara é viajar e eu confesso que sempre lhe tive muita inveja por causa disso... por causa da sua falta de medo em relação ao desconhecido. À primeira vista, eu e ela não tínhamos nada em comum. A Sara era um bocado "rastafari", e eu era uma "menina de bem" [aparentemente]... Mas naqueles tempos eu andava tão desesperada [e tão perdida] na grande cidade que acabou por ser o meu próprio instinto de sobrevivência o responsável por me fazer alargar um pouco os horizontes.



Nessa primeira conversa descobri que ela, apesar de ter nascido em Lisboa, vivia em Luxemburgo, e esse sentimento partilhado de estarmos ambas sozinhas na grande alface acabou por criar um elo de ligação improvável entre nós as duas. Posso chamar-lhe entre várias coisas, "madrinha"... Foi ela quem me levou pela primeira vez ao Bairro Alto! Lembro-me tão bem, fomos comer tostas a um bar qualquer... E também foi ela que me iniciou na tradição dos Santos Populares... Trazia na cabeça uma boina militar ao estilo do Che e na mão, uma garrafa de água de litro e meio cheia de gin tónico! O "eu sei, eu sei és a linda portuguesa com eu quero casar, já corri mundo, não encontro outra igual com quem eu queira ficar" tornou-se o nosso hino durante semanas a fio. Uma vez apresentei-a a um amigo da Terceira muito queque, e ele disse-me: "credo, não imaginava que andavas metida com esses comunas!" Rimo-nos tanto. 



Levei-a aos Açores ainda durante a faculdade. E apesar de eu não querer ir percorrer outras ilhas, deixei-a no cais de Angra e vi-a sozinha embarcar para São Jorge. Sempre gostei dela por isso. Pela tamanha curiosidade. Despedi-me dela no final do curso, no aeroporto de Lisboa, quando decidiu ir viver para Barcelona. E fui lá visitá-la quando estive a viver em Valencia. Acabou comigo nas urgências do hospital por causa duma puta de uma gastrite que me ia matando... 

Eu voltei de Espanha, ela não. Passados uns anos, mandou-me uma mensagem pelo facebook a avisar-me que se casava dali a duas semanas. Era para eu aparecer na conservatória x, no dia y. Na festa de casamento, ela olhou para mim e disse-me: "já sabemos onde isto vai acabar. a minha avó divorciou-se, a minha mãe divorciou-se, a minha tia divorciou-se, é provável que eu me divorcie também". Voltámos a rir que nem umas perdidas e chocámos os copos de champanhe um contra o outro, tchin-tchin!



Perdi-lhe o rasto durante os tempos. Mas de vez em quando havia uma mensagem na inbox para dizer qualquer coisa uma à outra, nem que fosse um simples, "tenho saudades tuas". Sempre soube da enorme vontade que ela tinha em partir à aventura pela Índia, e no dia em que fiz 31, lá estava a mensagem dela na inbox do meu pc. "Parabéns couvinha!". Couvinha porque sempre foi assim que nos tratámos... "mon petit chou"

Está em viagem por onde sempre quis estar. Está divorciada. Despediu-se do emprego. Fez as malas. Está a viver uma espécie de "eat, pray and love" [e bem que eu precisava de um retiro assim também!]. E eu disse-lhe: "olha que engraçado, Sara, também atirei tudo ao ar! despedi-me". E mesmo que fosse online, voltámos a rir. A rir muito. Disse-me que agora tinha aprendido a viver de uma forma diferente, "no expectations", e que achava que existiam determinadas pessoas para determinados momentos, mas que era muito difícil encontrar alguém que fosse tão linear quanto as nossas expectativas... Caramba, que saudades que eu tenho dela!



Despedimo-nos com a promessa dos nos encontrarmos em breve. Não sabemos onde. Não sabemos quando. Não sabemos de que forma. Parece uma estória de amor, e não deixa de o ser... A vida é de facto um puzzle estranho. Há peças que surgem naturalmente e que se encaixam na perfeição e há outras que levamos uma vida inteira a procurar... "No expectations". Mais vale assim, né?



[imagens: SS]

Deixe um comentário

4 comments

  1. Não pude deixar de esboçar um grande sorriso com o teu post, nem todas as histórias de amor têm de ser entre um homem e uma mulher, o amor que temos pelos nossos amigos também é de valorizar... Gostei muito!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É verdade Inezzitah, o amor revela-se de várias formas...
      Eu sei que também tens uma "Sara" na tua vida!
      Somos umas sortudas :P
      Beijinho grande*

      Eliminar
  2. Linda estória a vossa, fantásticas fotografias, e oxalá seja um dia destes o vosso (re)encontro.
    As grandes amizades são tão mais belas com "no expectation".
    Beijinho

    ResponderEliminar