#O que faz uma produtora?

segunda-feira, junho 15, 2015


A resposta é simples: faz [todo] o trabalho sujo que é preciso, incluindo sacar alguns 'furos' e outras revelações; chateia muitas, mas mesmo muitas pessoas, principalmente os amigos com quem já não fala há muito tempo e reúne os ingredientes necessários às boas estórias para que os outros as possam contar. Se eu gosto? Sim. Posso até afirmar que g-o-s-t-o m-u-i-t-o! Se me incomoda estar atrás da máquina? Da câmara? Das luzes? Da acção? Não. Estar nesse lugar é um privilégio. Sou metade espectador, metade interveniente. É uma sorte. E é sem dúvida, uma paixão.

Já trabalho há 9 anos como produtora e tenho aprendido muito com cada pessoa que me vou cruzando. É o lugar certo para se estar quando se quer muito contar estórias. O Markus, é um amigo alemão com quem trabalho desde sempre e graças a ele tive a oportunidade de conhecer melhor o país donde vivo. Um dia com o Markus é a loucura. Passamos horas sem comer [a parte que me chateia mais, confesso], andamos sempre sujos e desgrenhados, subimos montes se for preciso para ter a melhor imagem e a melhor foto, e acabamos o dia às tantas, estafados, mas com um sorriso nos lábios. A mim compete-me segui-lo [sou uma espécie de sombra], sempre com o telemóvel na mão. Vou falando com este, vou falando com aquele, e cada pessoa que convenço a contar-nos algo é uma vitória celebrada por nós os dois. Formamos uma boa equipa. Disfuncional, claro. Mas, modéstia à parte, bastante complementar.



O trabalho começa sempre a ser desenvolvido com longos emails e com muito brainstorming. Contactos, contactos e mais contactos. Andar na rua, gravar, entrevistar, sempre a contra relógio. A adrenalina sobe. E o sangue bate mais forte. É tão, mas tão bom que podia fazer disto a minha ocupação principal... É cansativo. Sai-nos do corpo. Imaginem trabalhar debaixo deste calor com uma mochila às costas bem pesadinha... é de loucos, ou melhor, é de quem corre por gosto, e não sente o cansaço. É de quem quer, mais do que contar uma estória, fazer as pessoas falarem com o coração. Ichhh, dá trabalho. Dá mesmo muito trabalho. Mas consola. Consola sempre que se olha alguém nos olhos e essa pessoa se despe para a câmara. Consola sempre que o silêncio revela mais do que as palavras. Consola sempre que o jornalismo vira realidade [e vice-versa].


Não concordo nada que tenhamos de ser imparciais. Nunca ninguém o é, ainda mais em Portugal. Não concordo nada que tenhamos de nos esquecer de quem somos quando contamos estórias. Não concordo nada que tenhamos de fechar o interruptor dos sentimentos quando escutamos o que os outros nos dizem. Existem pessoas que na maioria das vezes não têm com quem falar, como por exemplo, um grupo de sem-abrigos que seguimos num dos nossos últimos trabalhos em conjunto. Quando não conseguimos interromper o discurso dessas pessoas, percebemos que somos talvez os únicos amigos que elas têm nesse momento. Normalmente não querem que entremos nos seus mundos, mas depois de o fazermos, passam a não querer que saiamos. Despedem-se com abraços. Com apertos de mão. Fortes. Olhos nos olhos. As pessoas dão-nos verdade. Dão-nos estórias. E neste trabalho, nós damos-lhes voz. E de cada vez que o fazemos não nos tornamos melhores profissionais. Tornamo-nos melhores seres humanos.

[imagens: ccstylebook | serviços: storytelling studio]

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