descida de divisão

sexta-feira, julho 24, 2015


Por vezes tenho receio de estar sempre a repetir-me, mas a verdade dos dias que correm é esta: estou cansada. 'Cansada do espírito' como se diz aqui na ilha. Depois de 12 anos a viver em Lisboa sinto que preciso novamente da serenidade dos Açores. Tenho saudades de uma vida despretensiosa. Aliás, tenho saudades de ter uma vida. E não, nunca me passou pela cabeça que isto pudesse vir a acontecer... Que eu pudesse vir a querer estar em casa como nunca quis. 

Aos 20 e poucos tem-se manias, (muitas manias), e tem-se também muito sangue na guelra para continuar a insistir nelas. Eu sempre tentei disfarçar os meus caprichos subtilmente, mas não posso negá-lo: no auge dos meus 20 eu tinha a mania que era um carapau de corrida... Vivia na capital, no centro de tudo o que era top. E a estupidez própria da idade também me fez acreditar que se vivia melhor em Lisboa do que nos Açores. Mas enganei-me. Redondamente. Aos 30 e poucos, e depois de partir a cara muitas vezes, a vida mostrou-me que um dia a gente acaba por repensar tudo o que disse, ou tudo o que secretamente escondia por debaixo da capa.

E já que estamos em modo confissão, tenho de admitir que voltar a casa sempre representou para mim uma descida de divisão. Representou porque aos dias de hoje não representa mais. Depois do que eu sofri a fazer contas à vida para manter a minha independência em Lisboa, a aguentar-me para não me afundar na depressão que me engoliu e a lidar com uns patrões do c@r$lh# só me arrependo de uma coisa: de não ter mandado tudo ao ar (muito) mais cedo!

Lisboa é uma selva. Tem muito boa gente, tem. Tem gente que tem um lugar cativo no meu coração, mas já não tem o encanto que tinha quando eu só tinha 20 e poucos. Nos últimos anos dei-me conta de que vivia profundamente infeliz com o tipo de vida que levava, e aos poucos e poucos encontrei-me desapaixonada pelo mundo e pelas pessoas. E é no súbito momento em que perdemos a capacidade de nos apaixonar, que começamos a questionar tudo. A crise destruiu o que os portugueses tinham de melhor: a vontade instantânea de ajudar o(s) outro(s). E apesar de me ter deixado de algumas manias, ainda conservo alguns caprichos, um deles é este: a vida é demasiado breve para a vivermos em más condições.

Voltando a casa... Um regresso aos Açores sempre significou um tiro no pé. Era andar para trás. Era ficar isolado no meio do mar. Era viver preso atrás de umas grades. Era. Não é mais. Apesar de não saber quanto tempo fico, o único lugar no mundo onde eu realmente me sinto livre é em casa... Ninguém me pode tirar este lugar que eu tenho, onde a maior liberdade de todas é ir, sabendo que há sempre p'ra onde regressar. Até já.

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3 comments

  1. Olá.
    Depois de ter comentado no FB se não voltava a Portugal (continental) foi porque não tinha lido este post.
    Achei estranho estar há algum tempo aí, nessa terra linda que um dia hei de visitar, pois quase sempre vai de férias por alguns dias, mas retornava a Lisboa.
    Pois bem, CC, estou inteiramente de acordo que, entre os 20 e os 30, todos acreditamos que a vida é bonita, que vamos ser felizes, que vamos concretizar os nossos sonhos, mas é uma verdade, também, que é essa a idade em que tudo nos seduz, apaixonámo-nos por tudo, portanto, é natural, não tivesse eu vivido tudo isso. Só que no meu tempo, os empregos e muitos outros sonhos eram "facilmente" realizáveis e a independência era quase certa, ara algumas jovens, poderia ser mais uma dependência...com o casamento, os filhos, a vida.
    Tudo mudou.
    Destacando o que muito bem escreveu, está tudo dito: " A crise destruiu o que os portugueses tinham de melhor: a vontade instantânea de ajudar o(s) outro(s). E apesar de me ter deixado de algumas manias, ainda conservo alguns caprichos, um deles é este: a vida é demasiado breve para a vivermos em más condições."
    Os caprichos preenchem uma parte da nossa vida, não é de todo, egoísmo, acho que devemos alimentá-los quando fazem bem ao nosso ego.
    Se a CC desceu de divisão, qual é o problema?
    Os grande jogadores de futebol e não só, depois do apogeu , não passam para outros clubes de menor dimensão e glória e não deixam de ser felizes à mesma?
    Se está com quem gosta e é feliz nessa terra linda cheia de magia e encanto, significa que desceu de divisão? Pelo que sei, os Açores estão a subir de divisão e quem sabe não é aí que vai encontrar a sua realização profissional (pode não ser no jornalismo)?
    Lutadora que é, acredito na sua capacidade de seguir em frente.
    Um grande abraço, CC, e acredite que fico feliz por si.

    P.S.:
    (não vai há muito tempo que pensei vender este apartamento e alugar um na praia e ficar a viver lá para sempre. Mas tenho aqui a família e amigos(as) e a minha cidade é muito calma,deixo para mais tarde e fico por cá).


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    1. Obrigada Maria pelo seu apoio incondicional. Esta decisão não significa que um dia eu não possa voltar a Lisboa, mas para já isso não faz parte dos meus planos a curto prazo. Quando alguém toma decisões como aquelas que eu tomei, despedir-me, tem de aguentar as consequências. Faço-o de consciência tranquila. Estou muito feliz. Estou a recuperar a paz que não tive durante tanto tempo e que pensei que teria ao tornar-me independente. Beijinho grande e apareça quando quiser! :)

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