A minha última entrevista em Lisboa

sexta-feira, agosto 14, 2015

Desde que me licenciei que nunca deixei de ir a entrevistas de emprego, mesmo quando me encontrava empregada, de bem com a vida e feliz com o meu trabalho. A possibilidade de poder vir a fazer coisas novas e diferentes tornou-se num vício... Nos dias em que tinha uma ou duas entrevistas agendadas sentia a adrenalina correr-me nas veias. O vício era tão grande que me obrigava a fazer uma das coisas que eu mais detesto: mentir. Não nas entrevistas, claro, mas sim nas empresas onde eu trabalhava. Tinha de mentir para poder fugir. E fazia-o, mesmo que o preço a pagar por isso fosse arriscado. A liberdade acima de tudo, sempre.

Mas aquilo que no inicio da minha vida profissional era um hobby bastante regenerador começou aos poucos e poucos a tornar-se numa actividade deprimente. Comecei a hesitar de cada vez que tinha uma entrevista agendada. E comecei a inventar desculpas para não ir às mesmas. Fiquei cansada dessa vida. À medida que envelhecemos vamos ficando menos tolerantes em relação à frustração. As mesmas perguntas, as mesmas respostas, os mesmos procedimentos. Mas eu admito, eu nunca fui uma candidata fácil... sobretudo porque nunca fui às entrevistas à procura de emprego, sempre fui à procura de desafios e quando eles não me diziam nada, eu não tinha por hábito perder o meu tempo. E apesar de estar desempregada actualmente continuo a pensar da mesma forma.

É por isso que a minha última entrevista em Lisboa não foi uma entrevista, foi um momento de súplica, triste e medonho. Pode não ter sido a última, evidentemente, mas não me deixou vontade de repetir a dose. Se calhar é por isso que estou bem sossegadinha no meu canteirozinho no meio do Atlântico... Continuando, quando reuni os dados suficientes para perceber que a proposta não me interessava comecei a portar-me mal, isto é, comecei a dar indícios de que eu não seria a candidata ideal, tipo "está na hora de estragar isto". Mas não foi fácil... O homem que estava a fazer a entrevista massacrou-me de tal forma que me fez lembrar a inquisição espanhola. "Você é a pessoa que nós precisamos. Tem imagem, tem perfil, tem competências, você vende, você é marketing, você é comunicação. Porque é que você não consegue ver esta oportunidade como o inicio de uma grande carreira?" Desculpem o elevado nível de exigência da pessoa que vos escreve, mas para me impressionarem o tipo de discurso tem de ser outro... Estas cenas poéticas não me convencem.

"Você daqui a  6 meses, imagine, já poderá estar como chefe do serviço a coordenar uma equipa de pessoas, a ganhar mais. Você não acredita em si." Adoro quando as pessoas nos tentam vender empregos de merda. E este tipo esforçou-se mesmo muito a sério, mas ao fim de alguns anos a coleccionar cromos de caderneta uma pessoa já não é tão fraca na queda como era antes... O homem lixou-se quando eu lhe disse: "então porque é que você não me oferece agora o salário que me está a prometer para daqui a 6 meses?". "Fogo, você é honesta. Uma pessoa honesta é tudo o que um empregador quer." Olhe que não! As pessoas honestas são as últimas pessoas que os empregadores querem. As pessoas honestas têm uma esperança média de vida muito curta nas empresas portuguesas. E é por isso que eu me cansei de ir a entrevistas de emprego.

Deixe um comentário

3 comments

  1. Tens toda a razão, estou actualmente empregada mas faço este trabalho contrariada, não me satisfaz, e ligaram-me à pouco tempo para uma entrevista e eu recusei, hoje penso que devo de ter feito mal...ou não

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu acho que devias ter ido Angel. Nunca sabemos o que está do outro lado e em vez de ficarmos com a dúvida permanente (como tu ficaste até hoje) encerramos logo o assunto naquele momento. Quanto a estares insatisfeita com o teu trabalho actual, não deixes de procurar novas oportunidades. Eu fi-lo durante dois anos e meio com o objectivo de fugir do último trabalho que tive, e surgiram propostas, eu é que não as considerei. Por isso não percas a esperança. Beijinhos e boa sorte!

      Eliminar
  2. Sem dúvida, CC, que as pessoas honestas são as última pessoas que os empregadores querem".
    Mas, mesmo nesse cantinho do Atlântico, não desista.
    Beijinho

    ResponderEliminar