A ternura dos 60

quarta-feira, agosto 05, 2015


Será que é mais fácil sair de casa dos pais ou voltar a casa dos pais? Ora aí está uma boa pergunta difícil de responder. Acho que ninguém na casa dos 30 gostaria de voltar a casa dos pais, mas eu não me queixo (por enquanto). Ainda bem que ainda tenho a sorte de o poder fazer...  Mas não é fácil.  

A minha família tem determinadas idiossincrasias difíceis de aturar. A minha mãe, por exemplo, tem um reconhecido problema com o tema meteorológico. A todo e qualquer instante ela prevê que sejamos fustigados por um ciclone mal o vento lhe desoriente as "ganipas" da franja. Esta ideia de vivermos em constante alerta amarelo é um bocadinho desconcertante, confesso, ainda assim, o clima de maior tensão costuma dar-se por volta da hora das refeições...  O bate-boca começa normalmente por causa dos horários: os meus pais gostam de jantar cedo e eu gosto de jantar tarde. Ai de quem ainda esteja a enfiar uma garfada goela abaixo quando a telenovela começar... Cá em casa as telenovelas (da TVI) são uma espécie de culto sagrado. Depois o campo de batalha adensa-se quando entramos no menu: eu gosto de comidas leves, eles gostam de comidas reforçadas (bem reforçadas) tipo sopa de feijão com canelos de porco. 

Se o vento de norte afecta a minha mãe, nem queiram saber do meu pai... De cada vez que lhe peço boleia (porque não tenho carro), tenho que estar pronta pelo menos 2 horas antes da hora combinada. É um verdadeiro contra-relógio. Como se diz cá na terra, o Tio Orbelo deve ter nascido de 7 meses! Só há um momento em que ele é o rei da procrastinação:  quando tem de enfiar uma gravata no colarinho. É vê-lo assoprar que nem um touro enraivecido... A única coisa que o relaxa é aguar a relva do jardim todas as noites. À custa desta terapêutica temo que qualquer dia não tenhamos jardim por inundação criminosa consentida. 

Portanto, neste momento do meu retiro espiritual prolongado, quase a passar a fasquia dos 2 meses em casa, só me apraz dizer uma coisa: ainda bem que trouxe na bagagem ansiolíticos suficientes para chegar até ao fim do ano! É claro que estou a brincar com a minha própria desgraça, os ansiolíticos foram-me recomendados por outras razões que não a convivência com os meus pais. Apesar das manias, das quezílias e das adaptações necessárias, existem coisas que compensam a descompensação toda pela qual se passa: um beijo de boa noite, a roupa aconchegada na cama, um chá para nos passar a dor de barriga e aquele brilho no olhar de quem nos vê sempre crianças.  

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