Tenho receio do Inverno que aí vem

quarta-feira, agosto 26, 2015


Estes últimos dois dias não foram muito fáceis, confesso. Apesar dos Açores serem magníficos e de termos o privilégio de estar em verdadeira comunhão com a natureza, nem sempre a natureza nos dá as respostas que procuramos (e das quais mais precisamos). Ontem passei a meta dos dois meses na Terceira e pela primeira vez durante esse tempo todo fui-me totalmente abaixo. O breakdown pode ter várias explicações. "Estar em casa" é um exercício absorvente, principalmente para quem não está no seu melhor, mas para além disso, a tristeza que me consumiu também se prende com o facto de me sentir forçada a abandonar uma das últimas recordações de Lisboa que ainda conservava, carinhosamente, comigo.

Eu sei que fui ingénua ao pensar que uma relação à distância poderia funcionar, mas não, não funciona. Não funcionou quando estávamos perto e não vai funcionar agora que estamos longe. E às vezes chegar a estas conclusões bastante previsíveis é mais duro do que aquilo que pensávamos que ia ser. Apercebi-me que não gostavam mais de mim. Dei-me conta que os telefonemas já não eram correspondidos da mesma forma e que as saudades e o sentimento de falta tinham deixado de nos ligar. Estamos sozinhos, como sempre estivemos e é improvável que consigamos ficar juntos como sempre imaginámos. Talvez tenhamos sido um para o outro a pessoa errada, no momento errado. Com uma enorme pena minha.

Estive hibernada dentro do meu quarto. Geralmente é o que eu faço até que a tormenta passe. Desliguei-me do mundo (menos do frigorífico, é claro!). Ataquei uma pizza e um gelado tal como fazem as actrizes nas comédias românticas americanas. Nunca vou deixar de ter uma relação emocional com a comida. Nunca. Aumentei a dose de antidepressivos para conseguir dormir de noite (tenho tido pesadelos horríveis). E hoje a meio da tarde comecei a reagir. Comecei a desfazer o nó que me apertava o coração. Comecei (finalmente) a chorar. Chorar é bom, dizem que alivia e eu concordo. Limpa. Desentope. Purifica. E eu tenho tentado passar tão intocável por cima de tudo o que me tem acontecido nos últimos meses que às vezes pergunto-me se isso será a maneira mais adequada de sarar as feridas...

Ontem pela primeira vez receei o Inverno que se avizinha. Toda a gente diz que os Açores no Verão são uma coisa e no Inverno são outra. Bom, eu já passei aqui muitos Invernos, não é agora que me vou surpreender com o facto deles serem difíceis, mas tenho algum receio que as tempestades exteriores venham agravar as interiores. Serei eu e a ilha, reduzidas aos nossos limites, e talvez quem sabe, às nossas (pequenas) esperanças. 

Deixe um comentário

4 comments

  1. Tenho pensado muito em si e nessa relação que lamento ter acabado (adorava ler sobre as vossas viagens, os seus desabafos, o seu cantinho).
    Gostaria muito que a CC desse a volta, que, de repente, as portas se abrissem.
    Viver na cidade traz menos nostalgia.
    Um abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Maria. Tudo irá correr pelo melhor. Acredito nisso. E concordo consigo, viver na cidade traz de facto menos nostalgia, mas por agora não me dá muito jeito economicamente.
      É muito bem-vindo esse abraço. Beijinhos

      Eliminar
  2. Nestes momentos pouco há que se diga... bom mesmo é um abraço bem apertado e um ombro que não se importe de ficar encharcado com lágrimas!
    Um abraço grande, apesar de virtual e muitos beijinhos, aqui do outro lado do mar!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Assunção! Obrigada pelo seu abraço e pelo seu ombro!
      Beijinho

      Eliminar