Mudar de rumo: coragem ou sobrevivência?

quinta-feira, setembro 24, 2015


(ao fim de 13 anos as mudanças continuam [e porque raio é que não haveriam de continuar?])

«Acho indecente chegar para alguém de dezoito anos e dizer: vai, escolhe aí sua profissão. Nessa idade, você não tem ideia de qual pijama pretende pôr de noite, quanto mais saber a carreira que vai seguir pelo resto da vida. E justamente esse é o problema de uma decisão tão prematura: prazo. O resto da vida é muito tempo. Principalmente porque o que faz a pessoa feliz é trabalhar com o que se gosta, com a verdadeira vocação. E isso demora pra aparecer, pra boiar na superfície das possibilidades. Pra muita gente essa descoberta não surge assim, feito espinha, durante a adolescência. Tem uma rapaziada muito boa que descobriu seu próprio Caminho de Compostela bem mais tarde. 
(...) Um exemplo: José Saramago. Ele era crítico de teatro num jornal. Aí, estourou a Revolução dos Cravos (foi bonita a festa, pá), e ele acabou saindo do trabalho. Resolveu que não ia procurar outro emprego. Ia atrás da sua vocação: a literatura. E, finalmente, aos 58 anos, conheceu o sucesso com seu segundo livro – Levantado do Chão. Note bem: com seu segundo livro. Tem gente que desiste no primeiro fracasso, sempre um erro – porque criar é insistir. No caso do Saramago, esta tardia aptidão para a literatura rendeu Prêmio Nobel. O único de toda Língua Portuguesa. Sebastião Salgado, talvez o maior foto-jornalista vivo, pegou pela primeira vez em uma câmera de fotografia aos 30 anos. Elvis Costello era programador de computador antes de ser guitarrista (e casar com Diana Krall, coisa que jamais conseguiria operando um IBM360). Whoopy Goldberg era maquiadora de defuntos. Harrisson Ford, carpinteiro. Ellen Degeneres abria custáceos em um restaurante. Tudo gente que só achou o rumo muito depois da maioridade.
Falei de vocação, mas tem outra coisa que demora para aparecer também: conhecimento. Leva tempo para acumular e custa caro. Livros, discos, viagens. Nessa jornada costumam surgir outros interesses, outras curiosidades que não haviam antes. Sujeito não pode largar a advocacia pra ser um Lama se ainda não conheceu o Budismo. Profissões morrem e nascem todos os dias, por que você não pode se reinventar também? Sujeito entra na faculdade e antes de sair já surgiram outras mil carreiras. Recentemente descobri uma: cool hunter. Traduzindo,“caçador de tendências” (estou fazendo aspas com os dedos). O profissional que mapeia aquilo que as pessoas estão achando legais. Eu pensava que bastava ir num bar para saber o que é cool, mas não: tem curso disso. Em Londres, terra de Shakespeare.
Não acho que mudar é um ato de coragem, pelo contrário. Corajoso é aquele que permanece andando no trilho mesmo vendo o trem vindo na sua direção. Mudar é um ato de sobrevivência – e basta estar infeliz para isso. Ficar a vida toda naquilo que não se gosta é muito ruim pra saúde. Dá úlceras, coceiras, tarjas pretas. Aos 18 ou aos 80, quem fica parado a onda leva e o hospital acolhe.» Texto de Lusa Silvestre, Qual a sua vocação?

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4 comments

  1. Ohhh CC! Tens toda a razão! Aos dezoito prestei provas para odontologia e entrei para direito. Aos trinta e três já trabalhei como professora, vendedora, assistente e agora como maquilhadora nos tempos livres. Isso tudo porque não trabalho para os outros, mas sim para mim e é com as artes que me identifico, e vou mais dentro daquilo que me faz feliz, independente dos valores recebidos, hoje consigo identificar-me com coisas que antigamente a minha mãe seria capaz de dizer que não era profissão para mim e eu na minha inocência seria capaz de concordar.
    Beijinhos querida! Mais uma vez, acertaste na mosca!

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    1. Por acaso o texto não é meu Clênia, mas resume tudo aquilo que eu aprendi nos últimos anos. Acho que a vida é mesmo isso, a soma de várias paixões. Que triste seria se gostássemos apenas de uma coisa, né? Eu também já fiz muitas coisas diferentes, e neste momento só tenho certeza de uma coisa, vou continuar a experimentar tudo aquilo que me apetecer. Beijinhos grandes

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  2. Siga, CC, porque sei que consegue.

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    1. Obrigada Maria. O apoio de pessoas anónimas que dizem que eu consigo é um bálsamo para a minha alma. Afinal de contas quem me lê até que me conhece... Obrigada uma vez mais.
      Beijinho

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