Quando a ausência de alguém mantêm outros juntos

quarta-feira, setembro 09, 2015


Quando a minha avó paterna, (com a qual eu nunca tive grande convivência), faleceu, a família (dessa parte) despencou. Os filhos aproveitaram a morte da matriarca para fazer as maiores obscenidades uns aos outros. Começaram as guerras por causa das heranças e dos negócios. Passam lado a lado e viram a cara num gesto absurdo. Falam o necessário uns com outros, mas raras vezes se ouvem. A morte da minha avó, embora não fosse a minha avó de criação foi um episódio triste, principalmente porque tudo aquilo pelo qual ela sempre se esforçou, a união das diferenças, nenhum dos filhos soube conservar.

Com alguns dos meus primos a situação também não é melhor. As pessoas esquecem-se muito rápido de onde vêem e em que condições vieram. É justo. Eles defendem os pais deles e eu defendo os meus. Mas quando passo pelos meus tios não sei o que fazer. Custa-me virar-lhes a cara por uma questão de respeito... Mas eles também não fazem por encurtar o abismo que criaram entre uns e outros. Ninguém consegue viver sozinho, mas talvez, para alguns de nós, seja mais fácil suportar a solidão em vez da companhia do outro. No inicio deste ano faleceu, repentinamente, o filho mais velho da minha avó. Eu contei-vos. Ai como o meu tio odiava Lisboa... Sempre que me via perguntava-me o mesmo: "tu gostas mesmo daquilo?" E eu ria-me. Acho que ele queria certificar-se que eu estava a fazer o que o meu coração mandava.  A morte dele mexeu muito comigo. Mexeu imenso com todos nós. Talvez tenha sido ele que me empurrou mais cedo pr'a casa. Pela primeira vez na vida senti que estava a perder alguma coisa. 

Também vos disse que esse era o único irmão com o qual o meu pai se relacionava e por estranho que pareça, desde que ele morreu, temos passado todos mais tempo juntos. Os meus pais, a minha irmã, a minha tia, os filhos do meu tio, e eu. Estamos a aprender a ser uma família e devemos isso ao meu tio. Reunimo-nos pelo respeito que ainda hoje temos por ele e por aquilo que ele nos deixou: a única certeza de que juntos passamo-lo melhor.

Continuam a existir lágrimas pelo meio. Continua a existir um lugar à mesa por preencher. Continua a existir a ausência. Mas quando olhamos uns para os outros há uma grande cumplicidade entre nós. Eu não escrevo para fazer dele uma coisa que ele não era. Eu escrevo para agradecer-lhe e para pedir-lhe que continue, magicamente, a ensinar-nos aquilo que é mais importante na vida (e que é tão difícil pormos em prática).

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