As azeitonas do Porto Martins

quinta-feira, novembro 12, 2015


Depois de uns dias de sol, atípicos para esta altura do ano, o dia de São Martinho amanheceu (bastante) envergonhado na Terceira. O chuvisco matinal ameaçou, por momentos, a visita de estudo que estava programada no âmbito do curso Empreende Açores 2015 que estou a frequentar. Dizem por aí que nos Açores chove todos os dias, mas isso não nos incomoda... Se a chuva atlântica não viesse beijar esta terra, que é nossa, provavelmente muitas das coisas que nos definem não existiriam.

Não sei quantas vezes é possível uma pessoa se (re)apaixonar pelos Açores, mas a verdade é que este pedaço de terra no meio do oceano não pára de (me) surpreender. Aliás, foi essa a definição que as minhas amigas utilizaram para definir a visita delas ao arquipélago do meu coração: as ilhas são uma caixinha de surpresasO cheiro a terra molhada indicou-nos o caminho. Levados pelo sentido do olfacto, embrenhámo-nos no mato. Não é fácil chegar ao olival do Sr.º Lucas, no Porto Martins, mas a subida, íngreme, e escorregadia, vale bem a pena. 



Quando atingimos o topo do terreno, bem no cimo do Porto Martins, a natureza toma conta de nós  As oliveiras na Terceira vingam entre as pedras. E que bem que vingam. Para além disso, os terrenos do Sr.º Lucas são um verdadeiro jardim botânico repleto de plantas medicinais. Desta terra, entremeada com pedras, saem as melhores azeitonas da ilha, chás que acalmam a mente e o estômago, mel, vinhos e licores.

Se virados para o interior contemplamos este festival de aromas, (e sabores), virados para o horizonte testemunhamos a união entre o mar e o céu. É esta simbiose de paisagens que fez da freguesia do Porto Martins um pedaço de terra muito cobiçado, primeiro pelos americanos destacados na base militar das Lajes, depois pelos turistas. 

Nascido e criado no Porto Martins, o Sr.º Lucas não se esconde apenas atrás das (suas) oliveiras. As paixões deste terceirense multiplicam-se assim como o amor pela terra. As oliveiras ocupam uma boa parte das suas preocupações, embora a produção seja pequena, este ano a colheita foi ameaçada pela mosca-da-azeitona, Bactrocera (daculus) Oleae. Não se produz mais, nem se produz melhor porque não existem apoios nem cooperativas que orientem os poucos produtores, cerca de 10,  deste fruto bendito. 




A casa do Sr.º Lucas é um prolongamento do próprio. E é acima de tudo um espaço aberto aos amigos. Todos os terceirenses gostam de receber. Todos os terceirenses gostam de mostrar aquilo que os orgulha, de um modo simples, e de uma forma sincera. O Sr.º Lucas não se dedica por inteiro à terra. Gere, com responsabilidade, uma pequena empresa de alumínios que está no mercado há 30 anos e é com ela que faz dinheiro para "brincar depois".





Para além da terra e das plantas, o Sr.º Lucas colecciona pedras. Já chegou até a oferecer algumas janelas de alumínio em troca de raridades... tal como a que vêem na imagem. A visita acabou na adega com um mata-bicho improvisado: vinho jaquê, queijo e azeitonas. Devo confessar-vos que foi a primeira vez que provei as azeitonas do Porto Martins e são realmente diferentes de todas as outras. Diz-se que a suavidade do seu sabor está na forma como se prepara a salmoura (água, sal, orégãos, louro, alho e limão). Eu acredito que estes ingredientes são responsáveis por aquilo que as diferencia, mas também acredito que o amor com que se faz as coisas acaba por lhes conferir características muito particulares.

Conhecer os Açores fora do circuito turístico começa a ser difícil, mas ainda é possível. Se tiverem oportunidade, não deixem de procurar pessoas da terra, tão genuínas como o Sr.º Lucas. Tenho a certeza que ele não hesitará em abrir-vos a porta.




Deixe um comentário

0 comments