Empreendedor em part-time

segunda-feira, novembro 16, 2015

Não sei se esta é uma realidade comum ou não ao resto do país, mas parece que a moda, aqui nos Açores, é arranjar um tacho público para assegurar a mensalidade dos créditos familiares e arrancar depois com um projecto empreendedor que encha realmente as medidas do seu promotor. Estou a ridicularizar a realidade, mas ela existe. E que fique claro: eu não sou contra esta atitude, mas sinto-me um bocadinho revoltada ao perceber que a nossa situação económica só nos permite ser empreendedores, leia-se trabalhar naquilo que a gente gosta, em part-time.

Isso não devia chamar-se empreendedorismo, pois não? Não sei se vocês aí desse lado já passaram por isso, mas eu, enquanto jornalista, lido com esse dilema, dia sim, dia sim. Os órgãos de comunicação social da Terceira estão (todos) de braços abertos para receber os meus conteúdos e o meu talento, modéstia à parte, mas nenhum deles garante uma colaboração permanente. Quer-me parecer que para ser jornalista cá na ilha, a coisa também se vai dar em regime part-time, única e exclusivamente porque não me deixam outra saída. Só me resta agora encontrar um tacho... mas não está fácil, diz que anda tudo atrás do mesmo.

Sinto-me de facto muito revoltada. Principalmente por causa da forma como a classe jornalística trabalha hoje em dia. Eu tenho de me "prostituir" para conseguir vender o meu trabalho. E quando ele é vendido, é vendido muitas vezes abaixo do seu verdadeiro valor. Mas adiante, com essa parte eu já estou mentalizada para lidar. Há efectivamente algumas pessoas que conseguiram juntar o útil ao agradável, arranjaram um tacho, e esse tacho permite-lhes fazer aquilo que eles mais gostam... curiosamente nenhuma dessas pessoas tem curso superior, e esta hein?! Nos Açores, ficam já avisados, também é muito comum algumas instituições acolherem colaboradores mediante o reconhecimento dos seus dotes artísticos. O resto, entra tudo através do RECUPERAR ("o Recuperar é um programa da Direcção Regional do Emprego e Qualificação Profissional que pretende tornar mais fácil o acesso ao emprego por parte daqueles que dada a sua desvantagem, têm maior dificuldade em aceder ao mercado de trabalho:  jovens à procura do primeiro emprego, desempregados de longa duração, pessoas portadoras de deficiência e em situação de desigualdade social"). 

Mas se calhar eu devia-me calar, ainda corro o risco de fazer alguns inimigos pelo caminho... e depois ninguém me RECUPERA. Sim, porque uma pessoa com esta idade, com esta formação e com esta experiência profissional só espera ser recuperada. Enfim, felizes daqueles que conseguem fazer as duas coisas sem precisarem de se tornar empreendedores em part-time.  

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3 comments

  1. O melhor é filiar-se num dos partidos com mais influência nas ilhas. Com o seu conhecimento e profissionalismo, as coisas andavam direitas e acabavam os tachos, tenho a certeza (ou estarei a dizer asneiras?).
    O grande problema da política é que, por vezes, os amigos tornam-se rivais e/ou aumenta a sede do poder,

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  2. Eu também não quis dizer que devia ir para a política, apenas sugeri, caso tivesse alguma queda para ela.
    Beijinho

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