Os pais deviam distribuir currículos com os filhos

sexta-feira, novembro 13, 2015

Eu sei. Hoje em dia vivemos acoplados aos computadores. E os pais, pelo menos os que não cresceram a entupir os telemóveis dos amigos com mensagens enviadas pelo whatsapp, não percebem o porquê desta dependência militar que nos atacou. "Filha, porque é que estás sempre no computador?" Causa uma certa estranheza à minha mãe ver-me todo o dia a teclar. "Estou a trabalhar mãe, estou a trabalhar". Trabalhar para a minha mãe não é passar o dia todo com o rabo colado a uma cadeira, frente ao ecrã do computador. Trabalhar para a minha mãe, é esfregar panelas, lavar janelas, polir louça e por aí fora.

Quando eu digo que trabalho, é verdade. Quando estou no computador, estou normalmente a trabalhar nas coisas que quero alcançar a curto/médio prazo: isto é, estou a trabalhar para arranjar trabalho... e isso dá um trabalhão do caraças! Percorro sites de emprego, respondo a ofertas de trabalho, envio candidaturas espontâneas, chateio pessoas no Linkedin, tento vender reportagens e artigos, e negoceio projectos futuros que só passarão à realidade caso os orçamentos sejam aceites (infelizmente dependemos todos do dinheiro e não da sabedoria).

Enquanto eu não tiver um trabalho eu não consigo explicar à minha mãe o que é que eu faço todo o santo dia sentada ao computador. É difícil materializar a procura activa de emprego... e se os pais não a vêem é tiro e queda para se questionarem se vocês querem efectivamente trabalhar ou não. I've been there, done thatNos primeiros meses depois de ter aterrado na Terceira, eu admito, andei a procrastinar a coisa... Estava à espera de perceber para onde é que eu queria ir e deixei-me levar pela maré (deixar-se levar pela maré também é um exercício interessante para quem nunca se deixou levar por nada). Agora, já lá vão 5 meses parada, começo a sentir necessidade de estar mais ocupada... Mas atenção: muita calma nesta hora! Quero decidir bem. Quero ter a certeza de que vou fazer algo que tem sentido (pelo menos para mim). Para brincar às lojas já bastaram os últimos 3 anos da minha vida.

Então, como é que eu provei aos meus pais, em especial à minha mãe, que eu andava empenhada em encontrar trabalho? Levei-a comigo quando fui distribuir currículos pela ilha. Às vezes nós precisamos de "mostrar" às pessoas o que é que andamos a fazer, temos de envolvê-las no processo para elas depositarem confiança em nós. E isso é válido para qualquer esfera da nossa vida. Agora ela sabe que alguma parte do meu tempo ao computador é passada a investir no futuro, ainda que a gente não saiba muito bem como ele vai ser. E sempre que eu baixo os braços e me desligo da ficha ela diz: "vais conseguir filha, depois de tudo o que tu andaste, vais conseguir". 

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