Vou levar o meu filho às Antas

sexta-feira, novembro 20, 2015

«Às 8 partiremos para as Antas, o último quilómetro feito a pé, por entre um delírio de azul-e-branco que é um verdadeiro deboche para os olhos de um portista exilado em Lisboa. Jantaremos, numa barraquinha, uma sandes de 'entremeada' e uma cola para ele, uma sandes de 'coirato' e um copo de vinho verde, para mim. Um pacote de queijadas para o jogo, cachecóis e bandeiras e aí vamos nós, o coração descompassado ao ritmo do ruído surdo dos passos da multidão no cimento do Estádio. Das entranhas escuras desse monstro de betão emergiremos para a luz ofuscante dos holofotes junto aos quais a chuva forma fios de prata brilhando na noite. 

Lá em baixo, o relvado, lindo, perfeito, parece esperar para ser pisado só por deuses, não por simples mortais. De repente, ele estremecerá, a sua mão apertará a minha, excitado e assustado, os olhos fixos na 'boca do túnel' pela qual saem correndo, um a um, os onze deuses de azul e branco, saudados por um grito de cinquenta mil gargantas: "Po-oo-orto! Po-oo-orto!". Então aí, o meu filho perguntar-me-á,  como costuma fazer: "é o petra-campeão, pai, não é?" 

Este é o instante mágico, o instante iniciático, que sela para sempre o amor irracional entre um homem e um clube de futebol, um amor para a vida, que ninguém, jamais, poderá alterar. Esta iniciação é tarefa de homem, dever indeclinável do pai, que mulher alguma entende. Nem sequer adianta depois tentar explicar: "Como é que é o futebol, mãe? Olha um cheiro a bifanas, uma multidão aos gritos, uma relva a brilhar, azul e branco por todos os lados e nós, encharcados e roucos, patinando na lama à procura do carro." Enfim, uma paixão inexplicável.» 

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