A chuva ouviu e calou

terça-feira, dezembro 15, 2015

A chuva e o vento continuam lá fora, mas a zanga entre ambos serenou. A vida volta à normalidade. Os açorianos já estão habituados a isto. Ao tempo. Aos temporais. Às tempestades. Não estão de todo habituados a uma natureza madrasta. Apesar das traições, os açorianos confiam na terra. E confiam em Deus, todo poderoso. 

Há uns dias atrás fui ao cabeleireiro. Ainda não chovia como tem chovido agora. A rapariga que me corta o cabelo olhou pela janela. Vi o olhar dela concentrar-se nos desenhos que a chuva fazia no vidro. Estava longe. "Era em dias assim que o meu pai se demorava a chegar a casa. Ele gostava tanto de andar à chuva. Vinha mais devagar só para poder sentir o orvalho no rosto." E calou-se. Com um sorriso escondido dentro de si. A chuva traz muitas recordações aos açorianos. Precisamos dela para nos despirmos. A chuva lava-nos a alma da melancolia que esta traçada no nosso fado.

Aqueço um chá e olho lá p'ra fora. A chuva e o vento ainda lutam entre si, mas as vacas voltaram aos pastos. E os donos delas também. As árvores ondeiam ao sabor do vento, mas resistem. Vejo lá ao fundo o aeroporto. E as centenas de tons de verde que se misturam. Ouço o som dos motores dos aviões que cruzam o céu e penso:  está tudo como devia estar. Tomara que a chuva nos leve as dores. Tomara.

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2 comments

  1. Tão triste!
    A nostalgia do inverno, da bonança, depois da tempestade.

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