À espera de uma mãe

segunda-feira, dezembro 14, 2015

O vento cresce. E os nervos também. Quando as forças da natureza se manifestam, os açorianos podem muito pouco. Corro para a janela do meu quarto na esperança de ver algum avião chegar. Não vejo nada. As nuvens estão baixas de uma tal maneira que o cinza tomou conta do verde. Desisto de estar à janela. Estou inquieta. Não sei se a minha mãe chega ou não chega. Tenho o coração apertado. Cheio de nós. Tão pequenino.

Como é que eu pude fazê-la passar por ISTO durante tantos anos? Na esperança de me acalmar penso nos filhos que não tenho, mas que espero vir a ter. Filho meu não estuda lá fora. Ai não que não estuda. Está decidido. Deserdo-o se se lembrar de me fazer tal coisa. Os pais açorianos devem ter um coração muito resistente. Do tamanho do mundo. Só pode.

Ligo ao meu pai. Ele diz que está com medo. Pelos vistos, estamos todos com medo. Ligo à minha irmã, ela diz que o tempo não está para brincadeiras. Volto à janela. Continua tudo igual. Não vejo nada. Porra. Acendo uma vela junto às imagens dos santinhos que eram da minha avó materna. Costumava resultar quando eu vinha a casa de férias. Antes de entrar no avião, ligava sempre à minha mãe: "já acendeste?". Já, respondia-me ela.

A sério, como é que eu fui capaz? Viajar para os Açores sempre me meteu medo. O nosso Inverno pode ser muito ingrato para quem quer chegar a casa depressa. Não recebo mensagem nenhuma a confirmar se o voo chegou ou não. Ninguém me diz nada. Tomo banho. Visto-me. E sento-me ao computador. Entram-me pelo ecrã dentro imagens do mar a engolir a terra. Merda. Isto está feio. Levanto-me. Vou até à janela. Volto a sentar-me.

Antes dela entrar no avião disse-lhe para não vir, para ficar lá, em Lisboa, mas ela insistiu. E agora estou de coração nas mãos. É bom que chegues Maria de Fátima, é bom que chegues. As portas cá de casa dançam ao compasso das rajadas que se abatem sobre as casas. Os pássaros lá foram lutam contra o vento. Mãe onde é que tu estás? Mãe tu já devias ter chegado.

Liga-me o meu pai. "O avião chegou." Não acredito. Mando-o ir ver os ecrãs de informação para confirmar se é verdade ou não. "A tua mãe já me ligou". Pronto. O coração dilata e o sangue volta a circular com normalidade.  Ela liga-me. "Estou a caminho de casa". Oh Deus, quero tanto abraçá-la. Vem depressa.

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4 comments

  1. Fez-me chorar, CC.
    As luzes das velinhas olharam por ela.
    Hoje que estamos crescidas, entendemos melhor o que os pais passaram connosco.
    Um grande abraço, CC.

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    1. Senti-o na pele Maria. A idade faz-nos compreender isso.
      Hoje mãe. Mãe e filha. E desculpe, não a queria fazer chorar.
      Um abraço para si também.

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  2. CC, nem pensar pedir desculpa.
    Eu sou mesmo assim, choro pelas coisas bonitas, pelas coisas tristes, enfim.
    Beijinho

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    1. É bom emocionarmo-nos. É sinal de que estamos vivos.
      É sinal de que o coração ainda bate.
      Beijinhos

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