O Primeiro Beijo

terça-feira, dezembro 08, 2015

Vocês lembram-se do vosso primeiro beijo? Eu lembro-me muito bem do meu. Este regresso a casa também me traz lembranças dessas, mais não seja pelo facto de me ter reencontrado com o autor desse crime. Foi numas Sanjoaninas, no concerto dos Pólo Norte, (esse grande grupo musical), ao som de "estou a aprender a ser feliz". O que é que uma miúda, de 14 anos, pode querer mais do que isso? O rapaz por quem eu era apaixonadíssima, dançou comigo, roubou-me um beijo e perguntou-me se eu estava feliz. Feliz?! Eu estava eufórica por dentro. Toda eu eram fogos de artifício. Toda eu era o desfile da Beija-Flor no sambódromo do Rio.

O estado de transe no qual eu entrei durou pouco. Acabou, mais concretamente, no dia seguinte quando eu percebi que o autor do crime era reincidente. Mas valeu a pena. Acho que os meus netos vão gostar de ouvir esta estória, embora suspeite que eles nunca saberão o que é viver a contar os dias para chegarem as Sanjoaninas. Há 17 anos atrás andávamos todos com a freveleta acesa. Ricos tempos. E bendita inocência.

Gostei tanto de revê-lo. Não falamos. Depois do beijo, e do desfecho trágico do romance, falámos apenas uma vez (vêem, nem toda a gente fala com toda a gente cá na ilha). Reencontrámo-nos no teatro, à saída de um espectáculo. Ele está exactamente igual, com menos cabelo claro, mas atenção, não é por ser careca, é porque há 17 anos atrás ele tinha o cabelo grande. A bater nos ombros. Louro. De olhos azuis. Com um leve travo a SG Ventil nos lábios. Lembro-me tão bem disso. E o capacete sempre na mão. Quando eu ouvia o som de uma mota, o coração disparava. Bolas, a reincidente sou eu.

Não sei se ele casou. Se ele teve filhos. Se ele continuou a roubar beijos às moças da Terceira, mas soube-me tão bem voltar a vê-lo... Também não sei se ele sabe que aquele beijo foi o meu primeiro beijo. Não sei se ele sabe que partilha comigo uma coisa única: os primeiros sentimentos. Aqueles que dificilmente se voltam a repetir. Aqueles que são únicos e especiais. Há 17 anos atrás estávamos tão vazios de tudo, ansiosos por viver no limite. Hoje estamos tão cheios de tudo, cansados de viver no medo. Foi tão bom, oh meu Deus, foi tão bom! 

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