O verdadeiro espírito do Natal

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Esta é mais uma estória de balcão como tantas outras que eu já vos contei. Estava no supermercado, no caixa, quando me cruzei com um (bom) amigo do meu pai. Este homem de quem vos falo, na casa dos 70, vive sozinho já há alguns anos, mas a solidão (ainda) é uma coisa que o assusta. Leio-lhe nos olhos a inquietude. Nota-se sempre quando alguém não vive descansado. Estivemos uns minutos a falar. Perguntei-lhe se já estava tudo preparado para o Natal. Disse-me que depois da mulher com quem casou morrer, tinha deixado de comemorar o Natal. E ciente de que ele próprio já tinha respondido a esta pergunta dezenas de vezes, repetiu-se uma vez mais, "Fazer uma árvore de Natal p'ra quê? Para mim?!"

"Sim, pr'a si." Enquanto lhe respondia passavam-me pela memória várias imagens do Natal do Ano Passado. Sozinha. Em Lisboa. Na minha casa. Não deixei de fazer árvore. E ciente de que eu própria já tinha respondido a esta pergunta dezenas de vezes, repeti-me. Porquê? Pr'a quem? Por mim. E para mim. Teria sido mais cómodo, e (sem dúvida) mais conveniente, ignorar que era Natal, mas não foi isso que eu escolhi. Apesar de estar sozinha, a minha opção foi permanecer de coração aberto, independentemente de ele estar ou não inteiro.

Na minha casa, na Terceira, o Natal é uma celebração muito banal. Os meus pais não são grandes fãs da data. Apesar das circunstâncias, há um esforço, pobre e comedido, para não se desistir. Percebo perfeitamente que o Natal faça mais sentido ao lado de determinadas pessoas. Acredito que seja muito, mas mesmo muito difícil substituir a presença daqueles que nos faltam à mesa. Mas, se não podemos trazer de volta quem queremos, o que é que resta do Natal? Um vazio. Um lugar comum. Um (des)consolo. Aquela que deveria ser a quadra mais bonita do ano, está posicionada lado a lado com a dor. O Natal reduz-nos às nossas insignificâncias... Confrontados com isso, não valemos nada. 

É por isso que eu gosto de pensar que o Natal está em nós. Em cada um de nós. E nós é que escolhemos o que é que fazemos com ele. É por aí que o Natal começa. Pela forma como decidimos celebrá-lo. Não temos de ser mais generosos do que aquilo que fomos o resto do ano. Não, não temos. Não me vendam esses enganos. Nem temos de sermos mais cristãos. Nem temos de amar o próximo, sem o poder suportar. O Natal não é isso. O Natal não é um penso rápido. O Natal é o que quisermos. E eu quero que o meu seja o de uma pessoa que sempre acreditou em milagres, apesar de não saber se eles são ou não verdade. Boas festas.

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