Não, as Barbies não deitamos fora

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Ontem publiquei uma foto no Instagram das minhas Barbies. As minhas queridas Barbies. A intenção era doá-las. Mas não foi isso que aconteceu. Quando mudámos de casa nos Açores eu já estava na faculdade em Lisboa. Não participei na(s) mudança(s), mas obriguei quem participou a respeitar a minha (única) vontade: pedi que guardassem, com cuidado, os meus brinquedos de infância. Faziam parte de mim. Da(s) minha(s) estória(s). 

Ao longo do tempo, fui-me desfazendo da grande maioria. Nunca me consegui desfazer das Barbies. Até ontem, quando me passou pela cabeça subir ao escadote e mexer nos caixotes que estavam guardados nas prateleiras mais altas do meu roupeiro. Achei que era o momento (certo) para me despedir delas. Pensei que não faziam (mais) sentido, esquecidas, num caixote poeirento, no quarto de uma mulher de 30 anos. Dividi-as por sacos. Combinei com a minha irmã que ela as levaria para dar a crianças que não tivessem muito com o que brincar. Eu queria que as minhas Barbies fizessem (mais) alguém feliz. Era a missão que lhes estava destinada.

Quando a minha irmã chegou, entreguei-lhe os sacos. Pediu-me para as ver. E à medida que retirávamos uma a uma dos sacos, dávamos vida a memórias esquecidas. Penteou-lhes o cabelo. Calçou-lhes os sapatos. Trocou-lhe as roupas. A minha irmã. A minha irmã de 37 anos. "Não as vamos dar", disse ela. Decidida. "Mas porque é que vamos mantê-las?", perguntei eu. "Para as nossas filhas". Fiquei um bocado atordoada. Acho que foi a primeira vez que a minha irmã desligou o cérebro. Nós. Mães. Nós. Com filhas. Esta possível equação parece estranha. Estranha à nossa natureza. Ainda me estou a habituar à ideia... Quando tomei a decisão de dar as Barbies, acreditava que não haveria muito de "nós" para continuar. Mas há. Há pelo menos esperança. Esperança de que alguém continue a criar estórias com as Barbies que eram nossas. Alguém que seja nosso também. 

As minhas queridas Barbies voltaram para o caixote poeirento.... Até que, hipoteticamente, as nossas filhas o voltem a abrir. E eu tinha razão. Elas voltaram a fazer alguém feliz.

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5 comments

  1. Ora aí está um sentimento que compreendo plenamente! Tenho as minhas guardadas religiosamente e sou incapaz de me desfazer delas. Até já tentei pensar no assunto, com calma e ponderação, mas não dá. É mais forte do que eu! Elas fazem parte das melhores memórias da minha infância e, mesmo que não tenha filhas, continuam a fazer-me feliz. :)

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    1. Verdade Inês Pereira. É engraçado como a "boneca mais famosa do mundo" marcou a vida de tanta gente... Se não fosse a minha irmã, tinha-me desfeito das minhas, ainda bem que ela as salvou a tempo!

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  2. Contra tudo e contra todos, eu sempre guardei os meus brinquedos e livros favoritos. Apesar de uma sentença precoce de que não poderia ter filhos, algo cá dentro me impelia a guardar as minhas memórias de infância para alguém, um dia... Esse dia chegou, duas vezes, duas meninas e elas brincaram e leram e aproveitaram tudo o que eu guardei. Hoje já são elas as "crescidas", uma com 19 e a outra com 14 e, apesar de se ter dado muita coisa ao longo dos anos para instituições, também os brinquedos e livros favoritos delas foram guardados religiosamente, juntamente com os meus, para um dia alegrarem a geração seguinte!

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    1. Que estória bonita Assunção!!! Fico muito feliz por saber que valeu a pena guardar as suas memórias de infância. E confesso, aos 14, eu ainda brincava com as Barbies :P São intemporais!

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  3. Deixe-as guardadas.
    Quem sabe um dia não vai fazer alguém feliz, tendo ou não a CC filhas.
    Beijinho

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