O jornalismo não mata... mas mói

sábado, janeiro 16, 2016

Lembro-me perfeitamente disto. De estar sentada no auditório do piso 5 da torre da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e de ouvir um professor dizer: "vocês querem ser jornalistas? então preparem-se para andarem de carteira vazia, terem os dentes podres e morrerem com um cancro de pulmão". Foi a única cadeira a que chumbei. Teoria da Notícia.

Alguns anos mais tarde, quando dei por mim a maquilhar-me, de emergência, nas casas de banho das estações de serviço de Portugal-pequenino percebi o que ele queria dizer. Não fui a única a decepcionar-me com o jornalismo. Ainda assim, apesar dos dissabores, repetitivos, nunca coloquei um ponto final nesta estória. Nunca fui capaz. 

Nas últimas semanas adormeci, a horas indecentes, prostrada sob folhas soltas. Na cabeça um puzzle de ideias. Há muito, muito tempo que o leito em que durmo não respirava tamanho fulgor. O jornalismo regressou.

Não se dorme a horas decentes. Não se acorda a horas decentes. Não se come como se deveria comer. Não se pára. E quando se cai na cama, cai-se de vontade. Dói tudo. O corpo todo. Menos a alma. Talvez seja essa a principal razão pela qual nunca encerrei o capítulo em que estou. Quem trabalha em jornalismo vive no limite das suas forças. Dia após dia. 

Eu não sou uma jornalista exemplar. Imaculada. Incauta. Nunca o serei. Não tenho uma voz radiofónica. Não tenho uma postura fotocénica. Não tenho um discurso politicamente correcto. Nem sempre coloco as vírgulas nos lugares certos. Nem sempre encontro as melhores palavras. Às vezes gaguejo. E chateia-me ter que aparecer muito arranjadinha. Eu gosto de me sujar. Eu gosto de contar estórias. E gosto de dormir feliz.

Apesar das mazelas evidentes, (já não tenho 20 anos), não me arrependo da troca que fiz. O jornalismo nunca me deu descanso... Mas sempre me fez dormir melhor. E já agora, o professor chama-se Nelson Traquina. Nunca mais me vou esquecer dele.

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2 comments

  1. Fico feliz por saber que dorme bem, agora.
    Quanto a isto:
    " Nem sempre coloco as vírgulas nos lugares certos. Nem sempre encontro as melhores palavras. Às vezes gaguejo.", penso que qualquer profissional tem estas "defeitos" e ainda bem que os tem, porque ninguém é perfeito.
    Felicidades.

    Beijinho

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