#a vida aos 30

Primeira quimio: done!

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Tecnicamente, posso afirmar que o primeiro ciclo de quimioterapia está feito. Tive uns dias menos bons, confesso. Não só por causa de algumas pequenas complicações que surgiram durante o processo, mas também porque as duas colegas de quarto que estavam comigo, desde o inicio, tiveram alta... E a verdade é que, independentemente de estar consciente que estava numa fase de tratamento diferente da delas, alta é alta. Toda a gente sonha com ela. E toda a gente quer ir para casa. Eu também.

Fui-me um bocadinho abaixo psicologicamente. Não houve como não ir. Os médicos trabalham muito rápido e o ritmo é exaustivo, MAS ATENÇÃO, ainda bem que o é! O problema é que por vezes a avalanche de informação que temos para processar é tão grande que não há forma de organizá-la devidamente. Sentimo-nos minúsculos. E não raras vezes, impotentes. Acho que é isso o que me aflije mais: a impotência. O não saber como é que o corpo vai ripostar. Tenho tentando não pensar muito. Tem sido essa a minha estratégia. É uma estratégia pouco elaborada, VERDADE, mas serve-me bem. Por enquanto.

Voltando à quimio. A quimioterapia, para quem não sabe, é um processo relativamente simples. É administrada como se fosse soro, para simplificar. E é, aparentemente, indolor. A parte mais complicada da terapêutica são mesmo os efeitos secundários, embora hoje em dia já existam muitos fármacos preparados para atenuar os mesmos. Menos a perda de cabelo. Ainda não há nada que impeça isso de acontecer. O meu cabelo está obviamente mais fraco, mas ainda não começou a cair aos molhos, em todo o caso, mais tarde ou mais cedo, tenho de o cortar... Digo que estou preparada para o fazer, mas toda a gente que passou pelo mesmo diz que não é bem assim... Acho que na minha família estamos todos a atrasar um bocadinho esse momento, mas em breve, ele chegará. Uma coisa é certa, dizem que volta a crescer. E mais forte ainda.

Agora o próximo passo é esperar. 
Esperar sem desesperar. E esperar que tudo corra pelo melhor. 

#a vida aos 30

Eu e o meu cancro: uma semana

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Faz hoje uma semana desde que deixei a Terceira. Faz hoje uma semana que (con)vivo, lado a lado, com o cancro, não só com aquele que carrego dentro de mim, mas também com o de todas as pessoas que conheci durante estes dias. Desde que cá cheguei que estão a preparar o meu corpo para receber a quimioterapia... Ao que tudo indica avançamos amanhã.

Devo transmitir-vos que não me sinto ansiosa, nem tão pouco assustada. Estou consciente do processo em si. Dos riscos. Da gravidade. E da sua, inevitável, necessidade. Viver, por obrigação, num hospital, é um óptimo exercício de relativização. Tudo passa a ter um peso diferente, incluindo o tempo. Até à data só me foi realizada uma única transfusão de sangue, (no hospital de Angra fiz 3 antes de viajar para Lisboa). No meu fraco entender de leiga este pequeno detalhe tem o valor, inestimável, de uma pequena vitória... Embora fraco, ou melhor, prá lá de fraco, o meu corpo foi relativamente simpático em aguentar-me tanto tempo "acesa" antes dos dois apagões que tive no duche... Mas já está tudo controlado. Era apenas um bocadinho de combustível em falta.

As pessoas, os próximos e alguns curiosos perguntam-me muitas coisas sobre a doença, querem detalhes todos os dias, mas digo-vos já que não vale a pena insistirem... Nem os médicos sabem na realidade como ela é, nem como é que ela se vai comportar, por isso deixemos o futuro entregue a ele próprio que é de facto o que me parece melhor neste momento. 

E se calhar é por aí mesmo que me despeço. Aqui no hospital, apesar de passarmos muito tempo a olhar para o mundo de uma perspectiva horizontal, tenho a certeza que ninguém se esquece, deliberadamente, dos passos todos que deu até aqui a chegar... É por isso que estou segura, que embora vá custar (muito) a cada um de nós, ninguém adormece neste quarto, onde estou, sem pensar um bocadinho nos mesmos passos que serão necessários para nos tirar daqui para fora. E isso é quanto baste. A vida é assim mesmo. Um jogo de forças onde estamos constantemente a ser empurrados de um lado para o outro.

Então até amanhã, sim?! Quando o "veneno" estiver a circular no corpo, apareço aqui só para vos assustar... Beijos, muito "estralados", e uma vez mais, obrigada por todo o apoio.

#a vida aos 30

À espera do que nunca se espera

segunda-feira, fevereiro 08, 2016


Devo advertir-vos: preparem-se. Não será um post fácil, mas também não é de todo o mais difícil. Já escrevi outros tantos em condições emocionais bem piores. Durante estes dias em que estive ausente a minha vida deu uma volta de 360º graus e durante os próximos meses não parará de girar em torno de uma coisa feia chamada cancro. É isso. É essa a notícia. Eu tenho cancro. Diagnosticaram-me uma leucemia, depois de uma série de exames para tentar perceber de onde vinha o cansaço extremo que sentia, as arritmias descontroladas, as palpitações, a sede, a desidratação e as infecções, nomeadamente das mucosas da boca. 

O timing foi um pouco estranho porque recebi a noticia no dia em que um tio meu faleceu. Os meus pais já estavam arrasados... imaginem como ficaram. Estávamos a sair do cemitério quando o laboratório de análises me ligou a pedir que seguisse directamente para o hospital, o mais rápido possível. O caminho entre a Praia da Vitória, a minha cidade, e Angra do Heroísmo, onde fica o hospital, foi feito em lágrimas na companhia da minha irmã. Eu já sabia o que tinha, antes mesmo dos médicos mo dizerem. Era uma espécie de sexto sentido óbvio. Muitas horas de urgência, SO e um internamento obrigatório. Algumas transfusões de sangue pelo meio e um voo para apanhar, no dia seguinte, até Lisboa, na companhia de uma equipa médica responsável pela evacuação. Ansiedade, nervos, mas nunca revolta. Eu e o "meu" Deus temos as nossas coisas bem resolvidas. Nem me dei ao trabalho de perder tempo a perguntar-me porquê eu? Somos todos filhos do mesmo homem. Somos iguais. E a prova disso são todas as pessoas que se passeiam aqui pelo hospital nas mesmas condições em que eu me encontro.

Estou internada no serviço de Hemato-Oncologia dos Hospital dos Capuchos. Começo a quimioterapia esta semana. Tenho mantido a calma, apesar de nesta altura as emoções fluírem como se fossem um carrinho de choque... Mas tenho recebido tanto amor de tanta gente que ainda não tive tempo de me ocupar com pensamentos menos positivos. Dizem que o amor verdadeiro regressa sempre e isso, garanto-vos, é mesmo verdade. As minhas amigas não demoraram um segundo em virem até cá, os telefonemas chovem de minuto a minuto e os meus pais têm sido apoiados de uma forma indescritível. Estou muito grata. E estou de coração cheio... Afinal de contas não é este bicho, feio, maligno, que me vai impedir de continuar a ser feliz. Vou é passar a ser feliz com menos cabelo e com menos força nas pernas, com mais dores no corpo e com mais percalços pelo meio, mas o coração, esse, vou fazer os possíveis para continuar intocável.

As estórias do CC hão-de ser agora um bocadinho mais viradas para o ambiente hospitalar. Para além da distracção óbvia e da paixão tamanha que tenho pela escrita, acho que faria todo o sentido comunicar-vos a entrada neste novo capítulo da minha vida. Conto com todos vocês aí desse lado. Um beijinho desde a minha nova morada, cama C21.