E depois?

terça-feira, março 29, 2016

Eu não quis saber quantos tratamentos ela tinha feito. Não quis saber quantos meses tinham durado, nem quantas altas, entretanto, lhe tinham dado. Não quis saber se ela tinha sofrido (muito) com os efeitos secundários da quimioterapia... nem onde tinha ido buscar forças para aguentar tudo o que aguentou. O que me ia dizendo era irrelevante. Eu só queria saber uma coisa. Assumindo que eu também sobreviverei a esta prova tal como ela sobreviveu, perguntei-lhe: e depois?

O DEPOIS foi sempre a grande questão. Mesmo antes de estar doente. E depois o que é que acontece? Como é que se esquecem os dias menos bons? Como é que se enfrenta o medo? Como é que se volta a ser "normal", se é que se consegue voltar a ser "normal"... Como é que se consegue dormir sem suspeitar que o nosso corpo nos está a trair de novo? É cedo demais para pensar nisso, eu sei... mas é naquilo em que mais penso.

Eu sempre tive uma tendência natural para sofrer por antecipação (imaginem lá o jeito que isto dá quando se lida com uma doença oncológica como a minha). Os cancros, e outras poucas coisas das nossas vidas, obrigam-nos a dar um passo de cada vez. Obrigam-nos a desacelerar. A olhar... mas a olhar mesmo. Para tudo aquilo que nos rodeia, porque quer-se queira, quer não, o que pode estar ao nosso lado num dia, pode já não estar no seguinte. Se não houvesse a possibilidade de um DEPOIS talvez fosse mais fácil. Talvez não. Mesmo que o DEPOIS me doa antes de tempo, prefiro que ele exista e me atormente todos os dias o pensamento. Parece-me que quem tem um cancro não tem medo de o liquidar, tem medo de o repetir. Então, e DEPOIS?

Depois do "DEPOIS" diz-se mais vezes "amo-te". Escreve-se mais vezes "gosto de ti". Dão-se mais abraços. Sorri-se mais vezes desde as entranhas. E dão-se as mãos a quem nunca antes se deu  para amparar a dor inesperada ou para celebrar mais um dia. É cliché. Mas é verdade. Não são apenas aqueles que têm o cancro, que ganham o estatuto de efémeros. Também a nós nos custa, muito, pensar na possibilidade de dizer adeus a todas as coisas que amamos... Da mesma forma como nos julgamos imortais, adiamos demasiado os nossos desejos para DEPOIS... E nenhum de nós sabe quando é que o prazo do nosso DEPOIS termina. Então, a melhor resposta para "e depois?" é só uma (e não é minha): "façam o favor de ser felizes".

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