Estou de aniversário: 1 mês de internamento!

quinta-feira, março 03, 2016


Terceira. Para onde eu voltei e aonde eu escolhi estar ao fim de 14 anos fora. Milhares de planos e centenas de projectos. O regresso ao jornalismo. O regresso à família. O regresso, tão esperado, a casa. Um corpo que não responde. Uma mulher que insiste. Que se arrasta. Que questiona o cansaço que sente. Que desconfia. Um diagnóstico numa tarde triste. Ensombrada pela perda. Pela dor. Pela efemeridade da vida. E a primeira noite no hospital. Isolada. Sozinha. Sem saber o que esperar do futuro. A incerteza. E as certezas prováveis. 

Leucemia. Lisboa. Donde fugi e aonde me vi forçada a voltar. Uma viagem de avião. Desembarcar onde tantas vezes desembarquei. Ambulância. Hospital. Gente desconhecida. Muita gente. Uma mala de viagem debaixo do ombro. Agulhas. Uma punção. Horrível. E um adeus à minha mãe para mais uma noite no hospital. Sozinha. Um aperto no peito. A cabeça na almofada. Os olhos que não se fechavam. O sono que não vinha. Até ser manhã. Outro dia. 

A confirmação do diagnóstico. As certezas prováveis. E as incertezas. Um caminho para se fazer. Agulhas. Soro. Um cateter enfiado no peito. Exames. Passeios entre hospitais. Santa Marta. São José. Sozinha. No meio de gente desconhecida. Muita gente. E o corpo que continuava sem responder. Dois desmaios. Mais exames. Um trombo. Um pneumotórax. Repouso obrigatório. Dias inteiros na cama. A primeira quimio. Os primeiros efeitos secundários. As primeiras lágrimas. As primeiras mãos dadas enquanto não passam as dores. 

A alta das colegas de quarto. A alegria. E a tristeza simultânea. E os dias inteiros na cama. O medo. A ansiedade. A fisioterapia. Os exames. E as mechas de cabelo que começaram a aparecer na almofada. Novas colegas de quarto. A mesma doença. O mesmo medo. O mesmo olhar. A careca. Mais análises. Mais hospitais. Mais diagnósticos.

Estou de pé. Outra vez. 

Passou um mês. A leucemia, tal como a careca, tornou-se uma parte de mim. A gente desconhecida tornou-se numa família. Estou mais dona do meu corpo. Estou à espera da segunda quimio. Começo a acreditar que posso ser mais forte do que o medo. Porque sempre que cair, vou voltar a tentar ficar de pé. Literalmente. Outra vez. As vezes que forem preciso.

Hei-de voltar. Hei-de voltar ao melhor de mim.

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