O silêncio de um cancro sabe bem

quarta-feira, março 30, 2016


É mais fácil falar do meu cancro com estranhos do que conhecidos. Dei-me conta disso desde que cheguei a Lisboa. Gosto que não me façam demasiadas perguntas. Nem sempre nos apetece falar com alguém. Nem com médicos, nem com enfermeiras, nem alguém que nos conheça, que seja nosso amigo ou nosso familiar. É legítimo. Mais do que legítimo. Mas nem sempre quem nos procura percebe isso. Às vezes dói-nos demasiado o corpo, outras, dói-nos demasiado a alma. Não é que queiramos o cancro só para nós, (aliás, o cancro nunca é (só) nosso), mas há dias em que perguntas a mais, esvaziam-nos a (pouca) paz que nos resta.

Quando descobri que estava doente, tive o cuidado de contar às pessoas que mais me importavam. Às pessoas que faziam (e fazem) parte do meu dia a dia, estando longe ou perto. Àquelas pessoas que penso que me conhecem o suficiente para não ter de fazer perguntas a mais. Surpreendemente, as visitas que recebi, durante os internamentos a que fui obrigada até agora não se fizeram apenas das pessoas a quem disse que estava doente. Fizeram-se de pessoas que, apesar de termos perdido o contacto diário, se apresentaram, inteiras, para ajudar a colar, lentamente, os pedacinhos de mim própria. Que bom que soube rever-vos.

Apesar do meu corpo mole, das minhas dores no peito, das minhas dores na alma, o estarmos juntos foi exactamente igual ao estarmos juntos de outros tempos. E se foi igual, só pode ser sinal de que não perdemos o respeito por aquilo que vivemos e pelas memórias que criámos. E ainda bem que a minha doença não destruiu isso. Ainda bem. Eu sei, e tenho a percepção de que é muito difícil apoiar um doente oncológico, mas não é impossível. Mas um conselho: se não nos apetecer falar, não insistam. Deixem-nos adormecer os pensamentos dentro de nós pelo tempo que for necessário. Quando eles tiverem de se libertar, isso acontecerá, naturalmente.

Os tratamentos estão a dar resultados? Quantas sessões de quimioterapia faltam? A doença está a regredir? Vais ter fazer transplante de medula? Já tens dador compatível? Quanto tempo ficas aqui? Eu não sei. Os médicos não sabem. Ninguém sabe. E quando souberem podem estar descansados que a seu tempo vocês também o saberão. Uma leucemia não passa de um dia para o outro (era óptimo que assim fosse, mas infelizmente exige um esforço equivalente a uma maratona). E exige aquilo que já vos disse tantas vezes, que aprendamos a contar com um dia a seguir ao outro. E só isso. 

Os tratamentos são como uma montanha russa, física e emocional. Um dia no topo dos carris, feliz por ter conseguido tomar um banho sozinha, sem apoio. No outro, de pernas para o ar, à procura do equilíbrio certo para não cair no chão. Fico muito cansada com estas mudanças repentinas. Não é fácil controlar a sensação de impotência. Não são raras as vezes em que sentimos o desespero aproximar-se para nos tomar o espírito. Já fui apanhada por ele. Como todas as pessoas com cancro são. E já lhe consegui fugir. Como todas as pessoas com cancro conseguem. Mas é extenuante. Muito. A parte boa de um parque de diversões é o facto de não existirem apenas montanhas russas, certo? Eles que me aguardem! 

Um beijo enorme e muito, muito obrigada por todo o vosso apoio
P.s - o 3º ciclo está a correr bem, terminamo-lo na sexta-feira!

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