Um cancro nunca é (só) nosso

segunda-feira, março 28, 2016


Dividir os dias entre uma casa que não é nossa e um hospital (que é a quase a nossa casa) é um exercício difícil... mas entre uma ida e uma vinda, uma alta e um internamento, existem muitos sentimentos que a quimio não mata, antes pelo contrário, desperta. Um cancro nunca é (só) nosso. Está em nós. No nosso corpo. Na nossa vontade. Na nossa falta de força e às vezes (várias vezes)... na nossa falta de esperança. É uma presença constante ao longo dos dias. Dos tais dias que se contam um de cada vez... 

Apesar do cancro se apoderar, sem aviso, de um corpo que outrora não lhe pertencia, os efeitos colaterais são quase tão grandes como a odisseia que é (ou que será) superá-lo. O cancro dissemina-se por todas as pessoas que nos rodeiam. Entre quem nos ama. Entre quem a vida nos cruzou em algum momento. Até mesmo entre quem não conseguiu chegar até nós (chegar até alguém é um exercício muito exigente). E não, não é a nós, os doentes, a quem o cancro, cobardemente, começa a a atacar em primeiro lugar. O cancro espalha-se, e estreia-se, dolorosamente, por entre aqueles que nos viram crescer.

É um golpe difícil de amparar, imagino eu (eu que provavelmente não terei filhos e não saberei o que é ver crescer alguém). O homem continua a julgar-se eterno. Omnipresente. Inabalável. Até que um dia a vida lembra-se de reclamar a efemeridade a quem tem direito. E é essa característica tão esquecida, provavelmente propositadamente ignorada por todos nós, que tem a capacidade de inverter o jogo. De alterar, sem justificação, a lei natural da vida. Imagino o ritmo a que bate o coração dos meus pais e da minha irmã. 

Depois da família, o cancro espalha-se por entre aqueles que se cruzaram connosco na vida. Somente alguns. Não todos (nem toda a gente se preocupa e nem toda a gente sabe o que dizer). Olhar para alguém, numa cama, a lutar pela vida, deixa muita gente sem palavras. E às vezes... às vezes até que é preferível o silêncio. Quem nos quer bem fica de coração partido quando o nosso está desfeito, da mesma forma que fica com o coração dilatado quando o nosso está (re)composto. E até agora, se este cancro me trouxe alguma coisa de bom, essa coisa foi sem dúvida a prova de algo em que eu sempre acreditei, mas que nunca tive oportunidade de comprovar, pelo menos, até hoje. O amor verdadeiro regressa sempre. Sempre. Leve o tempo que levar. Seja em que circunstância for (na maioria das vezes reaparece nas alturas mais difíceis). 

O cancro, o nosso cancro, o meu cancro, também choca aqueles com quem não me dou ou com quem me dei em determinada altura da minha vida e com quem não me dou mais. O meu cancro também tocou aqueles que não foram os melhores amigos ao longo da minha vida. Lamento dizer-vos que um cancro muda uma pessoa, mas a mim ainda não me mudou o suficiente para vos perdoar. Parece que o risco eminente de uma pessoa poder desaparecer fisicamente acelera a necessidade de redenção daqueles que pecaram contra nós. Será que eu fui de facto uma pessoa importante para essas pessoas, ou será que é o meu cancro que é importante para eles? 

E no meio desta gente toda que sofre, chora e ri comigo, o cancro também corrói os médicos e as enfermeiras que tratam de mim. Pode não parecer. As respostas podem ser rápidas. Frias. Incertas. Mas quando se deixa fugir aquela lágrima traidora pelo canto do olho, há sempre alguém que tem o cuidado de a vir secar. E esse gesto é também ele um gesto de amor. O meu cancro é o cancro da Nataliya, é o cancro da Irina, é o cancro do Joaquim, é o cancro do Pedro, é o cancro da Beatriz, é o cancro do Sr.º Paris, e da D.ª Manuela. Foi o cancro da Honória e do Pedro e de milhares de pessoas que eu não conheço. Eu divido o meu cancro com muita gente. Com vocês, inclusive. Mas muito sinceramente.... que chegue o dia em que a gente tenha para dividir mais do que isso.

Um beijo enorme!
P.s- Amanhã começo o 3º ciclo de quimioterapia! Vamos a ele.

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12 comments

  1. Cada vez que te leio mesmo sendo sobre este bicho mau...parece até que me esqueço do que estás a falar...a tua escrita é para mim como um bailado ou uma troca de tintas numa tela. Não gosto de ler...mas sempre te li e leio quase que devoro está sinfonia de letras...e mesmo com este 'tema'...parece que tudo fica claro e cheio de força. Cada vez que escreves sinto tranquilidade...E sinto-a sempre que estou ao pé de ti. Laviuuuuuu daqui até à Lua...Fico sempre Feliz quando me envias palavras...mesmo que sejam para o mundo...considero-as minhas. <3

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    1. Serão sempre tuas, meu amor, sempre.
      Um beijo enorme.

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  2. "Quem nos quer bem fica de coração partido quando o nosso está desfeito, da mesma forma que fica com o coração dilatado quando o nosso está (re)composto."

    São imensas as pessoas que deviam ler estas suas palavras.
    Força, CC, para mais uma grande maratona.
    Um abraço.

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  3. Não sei como vim aqui parar, mas vim. Esta é uma luta da qual sairás vitoriosa; pois com uma força de vontade, de viver, de sonhar como a tua, como não ser uma vitória? Força, nem imagino o que custa, admito, não vou ser hipócrita e dizer "Ah, sei que custa, sei como te sentes". Não. Recuso-me. Por isso digo-te apenas que não te conheço e considero-te uma guerreira, e espero que o continues a ser. Não desistas e muita, mas mesmo muita força. Ps: adorei ler o que escreveste, muito bom! Quem sabe se não será o teu futuro; ser escritora? Já pensaste nisso? Porque talento e dom, tu tens. Beijinhos!

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    1. Bem-vinda Mariana, espero que tenha gostado do sítio aonde veio parar.
      Agradeço-lhe imenso por não cair na tentação de dizer "ah, sei como te sentes", porque de facto é demasiado fácil cair nesse lugar comum. Vou lutar como sempre lutei e tentar vencer mais este obstáculo como já venci tantos outros. E deixe-me que lhe conte um segredo.... É verdade, ser escritora é um sonho pequenino que existe dentro de mim. Pode ser que ganhe luz! Obrigada e um beijinho no coração!

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  4. Adorei o texto e pouco tenho para dizer perante as tuas palavras. Sou apenas uma leitora aqui do blog, mas uma leitora que está a torcer por ti, apesar de não te conhecer.

    Beijinhos e força,

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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    1. Obrigada Daniela, todo o apoio é ouro neste momento!
      Um abraço apertado!

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  5. Infelizmente já acompanhei esta doença em duas pessoas da minha família, as quais amo muito. A minha avó não sobreviveu,o que deixou uma grande mágoa no meu coração... Mas a minha tia continua viva e cheia de força, a mostrar-me todos os dias que nada é impossível. O teu texto transmite muito bem o que passa para quem não tem a doença, mas acompanha o doente.. Que tenhas toda a força do mundo e que consigas ultrapassar esta etapa menos feliz da tua vida, sempre rodeada de quem mais te ama. beijinhos

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    1. Lamento Ana que tenhas perdido a tua avó para o cancro. Aconteceu-me o mesmo. Duas vezes. E dói. Dói mesmo muito. Mas fico muito feliz pela tua tia e espero que esta minha "estória" seja como a dela. Um beijinho muito grande e um obrigada por teres partilhado comigo e com os seguidores do blogue esse episódio da tua vida. Abraço apertado!

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  6. Não sei o teu nome, não te conheço, mas uma coisa eu sei, gosto do que li por aqui e fiquei tua fã. Não estás bem, mas não o demonstras e por isso te admiro.
    Beijinhos

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