#vamos matar o bicho

À espera da hora da visita

quinta-feira, abril 21, 2016


Este é o átrio onde a minha mãe passa os dias quando estou internada no Hospital dos Capuchos. Às vezes, nós, doentes, também temos a sorte de passar por ele... Uns dias para fazer exames e voltar, outros dias para regressar a "casa". A parte que me agrada mais é de facto a arcada da entrada (ou da saída, conforme a sorte). Gosto da (pouca) luz que deixa passar. Gosto que lembre a quem lá passa o mundo que ficou lá fora.

Nestes bancos sentam-se mães, pais, esposas, maridos, irmãos, irmãs, tios, tias, amigos e amigas. Há quem venha quando pode e há quem venha, religiosamente, todos os dias, a todas as visitas. Não é fácil aguentar o frio e o desconforto de um átrio tão despido... mas há pessoas que não arredam pé... mesmo que esteja a ser um dia mau, um dia triste, um dia de pouca esperança. 

Neste átrio apertam-se muitos corações e separam-se muitas famílias. Quem passa o dia aqui, não pode estar noutro lugar. A espera pela hora da visita pode ser tão angustiante que só a partilha com o vizinho do lado alivia a ansiedade. Ao longo do tempo, estas mães, pais, esposas, maridos, irmãos, irmãs, tios, tias, passam a ser uma família só. Aquela que, não querendo mal, todos desejam ver pelo átrio fora.

Pouca gente entende que a leucemia é uma doença que requer (muita) paciência. É repetitiva. Exaustiva. Esgotante. Quem a tem sente-se abafado por um sentimento de impotência enorme. Quem a tem, sabe, que os dias maus são impossíveis de eliminar. Quem a tem, tem de estar preparado para aguentar mesmo quando não tiver forças para o fazer. As famílias que se comprometem a acompanhar isto tudo são obrigadas ao mesmo: a aguentar mesmo quando não têm forças. 

É por isso que se aprende a contar (com) um dia de cada vez... Ainda que a espera pela hora da visita pareça interminável. Todos querem acreditar que um dia este átrio não lhes servirá mais de passagem. Todos tentam reduzir os meses a semanas e as semanas a dias... mas ninguém esquece o dia em que a leucemia nos virou o mundo ao contrário. 

Ainda me debato comigo própria, não vos vou mentir. Às vezes custa-me muito contar um dia de cada vez. Já passaram 3 meses. Sei que vou sair por aquele átrio nos próximos tempos, mas sei que também irei voltar a entrar pelo mesmo lugar... Ainda assim, e quando estou "iluminada" por uma luz qualquer, costumo perguntar-me: será que a leucemia não nos virou o mundo ao contrário para nos mostrar o outro lado que não conhecíamos? Um mundo, em que somos todos, sem dúvida, espiritualmente melhores.

Aos campeões de bancada que não desistem de nós (mesmo nos dias em que não somos muito fáceis de aturar nem de amar). E em especial às mães. Aos seus corações resistentes. E à sua capacidade, diariamente reciclada, de aceitar dias repetidos sem queixumes. 

#vamos matar o bicho

Será que as pessoas com cancro conseguem apaixonar-se?

terça-feira, abril 19, 2016


Não nos conhecemos pessoalmente. Cruzámos uns olhares fugazes duas ou três vezes. E de repente, dizes tu, que o meu sorriso despertou qualquer coisa dentro de ti. Presumo que não sabes bem o quê. Na altura, nesses dias em que nos cruzámos eu era uma mulher vaidosa. Assumidamente vaidosa. Assumidamente consciente disso. Na altura ainda tinha cabelo. Não tão grande como o costumava ter, mas ainda tinha. Uma mulher sente-se muito mulher quando percebe que o seu cabelo dança ao ritmo dos seus passos. Na altura eu não saía de casa sem batom. Na altura eu preocupava-me com a roupa que ia usar. Na altura eu já tinha uma leucemia, mas não sabia. Não sabíamos.

Quando regressei a casa, no inicio, regressei com a ideia, (errada), de que seria impossível apaixonar-me de novo... Mas no dia em que te vi, em que nos vimos, houve qualquer coisa que mudou. Não acredito nos amores à primeira vista. Não acredito sequer nos amores eternos. Mas voltei a acreditar que me podia sentar horas a fio a ouvir alguém falar. Voltei a acreditar que terias muitas estórias para me contar. Voltei a acreditar que seria inebriante enquanto fosse o que tivesse de ser.

Começámos a falar, pelo telefone, já eu estava no hospital em Lisboa, mas tu não sabias. E agora? Eu não tinha cabelo. Eu não tinha batom. Eu nem sequer tinha sorriso. E agora? O que é que eu despertaria em ti? Pena talvez. Ao inicio custava-me tanto falar contigo... Seria possível, alguém, como eu, a quem diagnosticaram a doença que diagnosticaram, voltar a apaixonar-se nesse exacto momento? Parecia-me tudo muito confuso, mas a verdade é que foste a minha grande companhia das noites de insónia. Eu não queria que ganhasses a importância que foste ganhando. Eu não queria ligar-me a alguém quando eu me podia desligar a qualquer momento. Eu não queria, no fundo, que tu fosses demasiado interessante...

O tempo foi passando, devagar, devagar, devagarinho. A minha careca não te incomodou. A minha doença também não. Incomodou-te o tempo. Sim, o tempo. O tempo que tinhas que esperar até termos uma oportunidade para nos conhecermos. E quando te começou a faltar "tempo", a mim começou-me a faltar esperança. Afinal, eu estava certa, seria muito difícil apaixonar-me de novo. Especialmente por ti.

Foram-se as promessas. Os convites. Os planos. As ilusões. Tudo o que me vendeste. Mas sem ressentimentos. Até à data o meu coração já demonstrou, por várias vezes, ser resistente o suficiente face à pobreza humana. Talvez não leias, ou não percebas, metade daquilo que eu escrevi... é que às vezes, só às vezes, eu também sou assumidamente sarcástica. Não se vende sonhos a quem foi obrigada a desfazer-se deles. Não é justo. E não é honesto. Agora é esperar que o tempo vá passando, devagar, devagar, devagarinho... até eu acreditar que posso voltar a apaixonar-me e até que eu encontre alguém que esteja disposto a esperar (e não só).

Talvez os nossos olhares se voltem a cruzar um dia. 
E nesse dia, eu espero que tenha valido bem a pena não teres esperado.

#vamos matar o bicho

Os desconhecidos com quem partilhamos quarto

domingo, abril 17, 2016


Ao inicio o contacto estabelece-se através de olhares mudos. O tempo, e infelizmente a dor, são os únicos coadjuvantes nesta relação. Apesar do elo de ligação entre nós ser na maioria das vezes o silêncio, os desconhecidos com quem partilhamos o quarto do hospital são talvez os únicos que sabem bem aquilo que nos vai na alma (e o que nos dói no corpo).

Uns gostam de conversar. Outros não. Uns engolem as lágrimas. Outros não. Uns gemem com (as suas) dores. Outros não. Uns preferem dormir o dia todo. Outros não. A forma como cada um assume o (seu) cancro difere de pessoa para pessoa e quando estamos, literalmente, ao lado delas, só nos resta respeitar o que cada uma sente, mesmo que se recuse a sentir. Não vale a pena atirarmos ao ar frases feitas. Oferecer conselhos baratos. Ou cair na tentação da futurologia. Cada um de nós sabe o que precisa saber para se aguentar... mas quando um de nós também vem abaixo quando tem de ir.

Falamos da doença entre nós (sem saber muito bem do que falamos). Questionamos o que os médicos prescreveram a um e não a outro. Contabilizamos as séries de tratamentos do protocolo e ingenuamente ainda as tentamos calendarizar conforme seriam os nossos desejos. Vamos questionando a evolução do diagnóstico... Sempre sem grandes diálogos, ou melhor, sempre sem grandes convicções. E às vezes, às vezes também nos magoamos uns aos outros, sem saber, sem dar conta.

Um dia uma das minhas colegas de quarto aproximou-se da minha cama e confidenciou-me que a enfermeira lhe tinha dito que das 3 pacientes daquela sala ela era a que estava em melhores condições de saúde e que provavelmente teria alta nos dias seguintes. Felicitei-a e disse-lhe: "logo, logo está em casa". A seguir escondi-me por entre os cortinados que dividem o espaço de cada cama e chorei. Chorei porque me doía a alma.

Consigo perceber o quanto ela precisava de dividir aquela boa nova com alguém, consigo entender que a alegria que ela sentia era demasiado grande para ela só, consigo perceber que ela precisava de alguém que testemunhasse aquele momento como prova abonatória da sua salvação. E às vezes, às vezes temos de fazer isso uns pelos outros. Mesmo que doa como me doeu a mim. 

#vamos matar o bicho

Começar de novo, todos os dias

quarta-feira, abril 13, 2016

Antes do cancro chegar, embebida nos meus pensamentos, junto ao mar, na Terceira

De repente, quando nos dizem que temos um cancro parece que perdemos, voluntariamente, a capacidade de sentir. Comigo foi assim. A sensação que temos é a de que nunca mais nos vamos permitir sentir. O ser humano sabe que quanto mais se permite sentir, mais sujeito está a sofrer. E saber que se tem um cancro já é sofrimento que baste.

Quando cheguei a Lisboa e as minhas amigas foram visitar-me ao hospital perguntaram-me e então "como é que é que te estavas a dar por lá?". Depois de 13 anos na capital, voltar para uma ilha no meio do oceano atlântico deve ter sido das maiores aventuras a que já me propus. E com essa pergunta, mesmo que eu não quisesse, elas obrigaram-me a pensar e a sentir. Fiquei um bocado de tempo em silêncio, a ver se me escapava da resposta, até que me saiu, assim, de repente e sem eu esperar um "estava a adorar, estava feliz". E foi quando eu senti, ainda que o evitasse, que a minha decisão de deixar para trás tudo o que 13 anos me tinham dado tinha valido a pena.

O ser humano não é de partilhar muito as alegrias com medo que elas acabem depressa, mas será que vale mesmo a pena? Talvez não faça sentido nenhum escondermos dos outros os motivos que nos levam a acordar todos os dias. A minha leucemia apareceu-me no reinicio de uma vida que eu tinha reestruturado para mim... E que agora, pelo sim, pelo não, está em stand-by. Mas eu não vou voltar a esquecer-me do quanto estava a sentir-me feliz e de tudo o que o regresso a casa, à minha verdadeira casa, me trouxe.

Eu deixei tudo para trás, deixei trabalho, deixei amigos, deixei namorado, deixei uma mulher que se estava a tornar em alguém que eu nunca quis ser. Voltei aos Açores. Voltei ao zero. Voltei com medo, claro que voltei, mas o medo de voltar e dar errado não era maior do que o medo de continuar a ser infeliz. Foi uma escolha fácil entre o difícil que foi executá-la até ao fim. E boom, de repente parou tudo. De repente apareceu a possibilidade do tempo esgotar-se antes de eu começar, outra vez, do inicio... Mas se há coisa que eu nunca fui foi mulher de recuar, de andar para trás, de reconsiderar. O meu (re)inicio é este: é o (re)inicio de uma vida cheia de novos projectos e é simultaneamente o (re)inicio de uma vida a tentar dar cabo de uma leucemia. E esses dois desejos podem coexistir num só coração. Podem sim.

E apesar das coisas não terem corrido conforme planeado, (deixem-se de fazer planos e vivam), a vida nunca deixa de nos surpreender... No meu regresso a casa redescobri tantas coisas das quais já me tinha esquecido... e apaixonei-me de novo por muitas, mas mesmo muitas partes de mim que tinha abandonado justamente pelo receio de as perder. Sim, eu tenho um cancro, mas a vida não pára. Até pode parar, quando Ele quiser, mas até lá eu estarei sempre no ponto de partida para uma vida nova... porque é demasiado importante reciclarmo-nos de quando em vez e apaixonarmo-nos mesmo sem nos darmos conta.

#vamos matar o bicho

O que não se diz sobre os hospitais públicos

sábado, abril 09, 2016


Diz-se muita coisa sobre os hospitais públicos portugueses. Inclusive que se pratica a eutanásia. Fala-se em filas de espera intermináveis. E absolutamente, desesperantes. Vêem-se doentes apoiados nas paredes dos corredores das urgências porque faltam camas. Muitas camas. Não raras vezes, até faltam rolos de papel higiénico nas casas de banho. Esperam-se entre 4 a 6 horas, na melhor das hipóteses, para alguém, de batina branca, em quem nos custa confiar, nos olhar a uma distância de segurança recomendável durante 5 minutos. Diz-se que se cometem erros. Muitos. Que há negligência médica. Em todo o lado. E que existiriam estórias com desfechos diferentes se... se... se...

Eu confesso-vos. Eu nunca recorri a hospitais públicos por razões várias. Primeiro, pelo medo de ser "abandonada" e esquecida numa ala qualquer, sem ter a quem confessar os meus males (sou hipocrondríaca por natureza). Segundo, porque sempre desconfiei que nos hospitais públicos nunca se fazia tudo o que se podia fazer para tratar o doente "de cima abaixo". Sempre entrei nestas instituições na qualidade de visitante, até ao dia em que me tornei utente, primeiro no Hospital do Divino Espírito Santo de Angra do Heroísmo e posteriormente no Hospital de Santo António dos Capuchos em Lisboa. Não me senti lá muito à vontade, dormir aquelas duas noites sozinha, isolada, no quarto de um hospital desconhecido à espera do vaticínio final. Mas fi-las. Não tinha outra hipótese. 

Os médicos são rápidos e cirúrgicos a dizer as coisas: "tens uma leucemia, vais ser transferida para Lisboa ainda hoje". E depois consoante a reacção do doente, ajustam-se mais ou menos à situação. Não contive as lágrimas, mas aguentei-me firme. "Não é o fim". Disse-me a médica e saiu do quarto. Até agora, eu já consegui perceber uma coisa, se eles trabalham rápido, transmitindo-nos muitas vezes a sensação de que não se interessam minimamente pelos nossos casos, é porque, eles, essas ditas pessoas de batina branca, em quem nos custa confiar, têm à sua conta muitos fins para impedir. E muita gente para salvar. 

Ainda me lembro das lágrimas da Enf.ª Elisabete quando me entregou aos médicos do Santo António dos Capuchos e me disse adeus. Aí, eu senti que estava no meio de seres humanos feitos do mesmo tecido do que eu. Hoje, posso dizer-vos, sem medos e sem receios que no hospital onde sou seguida, não tenho médicos, nem enfermeiros, nem auxiliares a tratar de mim, tenho uma verdadeira família. Uma família que começou nesta luta comigo e que tenho a certeza que me acompanhará até ao fim.

Diz-se muita coisa sobre os hospitais públicos portugueses. Mas não se diz que as enfermeiras nos acordam com um bom dia ruidoso e nos obrigam a saltar da cama p´ra fora para a ver luz do sol que entra pela janela dentro. Não se contabilizam as vezes sem conta que as auxiliares passam a noite a trazer-nos cházinhos para as dores de barriga. Também não se conta que nos dão beijinhos nas carecas e que nos enxugam as lágrimas. Não se conta que estrangulamos, com frequência, as mãos das enfermeiras quando os exames são dolorosos. Nem se conta que elas não só cuidam de nós, como cuidam do pai, da mãe, da irmã e da família, em pânico. Não se diz que se encontra gente de carne e osso, mas eu encontrei. E só lhes posso estar muito grata por isso. Obrigada.  

#nas palavras dos outros

Também eu estou à espera de mim

sexta-feira, abril 08, 2016



Ouvi-os pela primeira vez no Rádio Clube de Angra no dia em que descobri que tinha leucemia. Desculpem-me a ousadia de pensar que ela foi escrita para mim. Não foi. Mas resume tudo. E cada vez que a ouço, "algo me diz que a tormenta passará". O "Melhor de Mim", pelos Caelum's Edge. Não são família, mas é como se fossem. 

Hoje a semente que torna na terra | E que se esconde no escuro que encerra | Amanha nascerá uma flor | Ainda que a esperança da luz seja escassa | A chuva que molha e passa | Vai trazer numa luta amor | Também eu estou à espera da luz | Deixou-me aqui onde a sombra seduz | Também eu estou à espera de mim | Algo me diz que a tormenta passará.

É preciso perder para depois se ganhar | E mesmo sem ver, acreditar | É a vida que segue e não espera pela gente | Cada passo que demos em frente | Caminhando sem medo de errar | Creio que a noite sempre se tornará dia | E o brilho que o sol irradia | Há-de sempre me iluminar.

Quebro as algemas neste meu lamento | Se renasço a cada momento, | Meu destino na vida é maior | Também eu vou em busca da luz | Saio daqui onde a sombra seduz | Também eu estou à espera de mim | Algo me diz que a tormenta passará.

É preciso perder para depois se ganhar | E mesmo sem ver, acreditar | É a vida que segue e não espera pela gente | Cada passo que demos em frente | Caminhando sem medo de errar | Creio que a noite sempre se tornará dia | E o brilho que o sol irradia | Há-de sempre me iluminar.

Sei que o melhor de mim está pr'a chegar! | Sei que o melhor de mim está por chegar.
Sei que o melhor de mim está pr'a chegar

#vamos matar o bicho

Quando o cancro não nos deixa sermos mulheres

quarta-feira, abril 06, 2016



Hoje vou voltar um bocadinho atrás no tempo. Desde que revelei que tinha um cancro que os fãs e seguidores do CC aumentaram a olhos vistos, mas às vezes, só às vezes, eu gostava de (re)lembrar a essas pessoas, recém-chegadas (ou não), que antes disso, antes da doença, havia uma jornalista por detrás dos textos. A mesma que vos escreve hoje. A mesma que luta pela cura. E, já agora, se algum dia, por algum infortúnio da vida, me tiverem que recordar, recordem-me entre outras coisas como alguém apaixonado pela escrita. Será justo. E encher-me-á de orgulho.

Para quem (ainda) não sabe, durante algum tempo da minha vida trabalhei como consultora de lingerie numa loja de soutiens em Lisboa. Foi justamente durante essa experiência profissional da minha vida que, não raras vezes, estive entre o espelho e clientes mastectomizadas. A estória que recordo com maior sentimento foi a de uma mulher que ao despir-se, passo a passo, me foi contando como é que o cancro lhe tinha roubado tudo aquilo que ela era. Apesar de lhe querer dizer muitas coisas na altura, a minha boca não se abriu. Quem eu era eu para lhe poder dizer alguma coisa? Mas hoje... Hoje dir-lhe-ia tão somente que concordo com ela. Não me falta um peito, mas faltam-me várias coisas que me faziam sentir mulher.

Não é o cabelo. Não se deixem levar por clichés. O cabelo foi a parte mais fácil de todas. Cai. Corta-se. Cresce. Não deixou mossa. É a pessoa que aos poucos e poucos vai aparecendo no espelho. É o corpo do qual os médicos se vão apoderando que deixa de ser nosso. Parece que não nos pertence... parece que é apenas um cabide para passearmos as nossas emoções. Quando nos permitem. Quando nos deixam.

É difícil lidar com isto todos os dias. É difícil estar constantemente a tentar recuperar uma pessoa dentro de nós mesmos... Uma pessoa, que muito provavelmente, não volta a ser a mesma. Nem física, nem espiritualmente. Estou inchada dos tratamentos. Estou careca. Estou com a pele manchada.  Estou com as unhas castanhas. Estou com menopausa precoce. Estou a caminho da infertilidade. Estou a umas semanas dos 32 e todos os dias quando me olho no espelho, tenho de me lembrar daquilo que sou. E do quanto (ainda) sou mulher.

Não é aquilo que nos falta que nos define. Não é. O cancro leva-nos ao tapete (ai se nos leva). Vários rounds. Vários golpes. Vários K.O. E ninguém venha dizer que percebe o que isso é, porque, se não estiver em cima do ringue, nunca há-de perceber o que realmente é. Uma mulher com cancro sente-se feia, sente-se incapaz, sente-se impotente e está no seu direito. Curiosamente, a estória que vos contei da cliente que deu mote a este texto tinha ainda um pormenor doloroso. Um marido, que a tinha abandonado, depois de saber que ela tinha cancro. Faltavam mais partes a essa mulher do que um simples peito.

"Escolhi-me a mim". Disse ela. Tal como eu me escolho todos os dias mesmo sem me reconhecer. Um cancro destrói tudo o que há de mulher numa mulher, menos uma coisa.... a vontade de querermos continuar a sê-lo, ainda que incompletas.