Começar de novo, todos os dias

quarta-feira, abril 13, 2016

Antes do cancro chegar, embebida nos meus pensamentos, junto ao mar, na Terceira

De repente, quando nos dizem que temos um cancro parece que perdemos, voluntariamente, a capacidade de sentir. Comigo foi assim. A sensação que temos é a de que nunca mais nos vamos permitir sentir. O ser humano sabe que quanto mais se permite sentir, mais sujeito está a sofrer. E saber que se tem um cancro já é sofrimento que baste.

Quando cheguei a Lisboa e as minhas amigas foram visitar-me ao hospital perguntaram-me e então "como é que é que te estavas a dar por lá?". Depois de 13 anos na capital, voltar para uma ilha no meio do oceano atlântico deve ter sido das maiores aventuras a que já me propus. E com essa pergunta, mesmo que eu não quisesse, elas obrigaram-me a pensar e a sentir. Fiquei um bocado de tempo em silêncio, a ver se me escapava da resposta, até que me saiu, assim, de repente e sem eu esperar um "estava a adorar, estava feliz". E foi quando eu senti, ainda que o evitasse, que a minha decisão de deixar para trás tudo o que 13 anos me tinham dado tinha valido a pena.

O ser humano não é de partilhar muito as alegrias com medo que elas acabem depressa, mas será que vale mesmo a pena? Talvez não faça sentido nenhum escondermos dos outros os motivos que nos levam a acordar todos os dias. A minha leucemia apareceu-me no reinicio de uma vida que eu tinha reestruturado para mim... E que agora, pelo sim, pelo não, está em stand-by. Mas eu não vou voltar a esquecer-me do quanto estava a sentir-me feliz e de tudo o que o regresso a casa, à minha verdadeira casa, me trouxe.

Eu deixei tudo para trás, deixei trabalho, deixei amigos, deixei namorado, deixei uma mulher que se estava a tornar em alguém que eu nunca quis ser. Voltei aos Açores. Voltei ao zero. Voltei com medo, claro que voltei, mas o medo de voltar e dar errado não era maior do que o medo de continuar a ser infeliz. Foi uma escolha fácil entre o difícil que foi executá-la até ao fim. E boom, de repente parou tudo. De repente apareceu a possibilidade do tempo esgotar-se antes de eu começar, outra vez, do inicio... Mas se há coisa que eu nunca fui foi mulher de recuar, de andar para trás, de reconsiderar. O meu (re)inicio é este: é o (re)inicio de uma vida cheia de novos projectos e é simultaneamente o (re)inicio de uma vida a tentar dar cabo de uma leucemia. E esses dois desejos podem coexistir num só coração. Podem sim.

E apesar das coisas não terem corrido conforme planeado, (deixem-se de fazer planos e vivam), a vida nunca deixa de nos surpreender... No meu regresso a casa redescobri tantas coisas das quais já me tinha esquecido... e apaixonei-me de novo por muitas, mas mesmo muitas partes de mim que tinha abandonado justamente pelo receio de as perder. Sim, eu tenho um cancro, mas a vida não pára. Até pode parar, quando Ele quiser, mas até lá eu estarei sempre no ponto de partida para uma vida nova... porque é demasiado importante reciclarmo-nos de quando em vez e apaixonarmo-nos mesmo sem nos darmos conta.

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9 comments

  1. É isso mesmo amiga terceirense... É importante viver a vida ao máximo, sem planos, sem receios e... ser FELIZ! Mesmo em tratamentos e sem vontade nenhuma de ser ou fazer por ser feliz, aconselho-te que, sempre que te sentires bem, faz só o que tu gostas: se é ver o mar, como açoriana que és, vai ver o mar e sê feliz nesse momento... Se é rir com os teus amigos, chama-os até ti ou vai ter com eles e sorri muito... Não deixes é que esse maldito te leve o prazer de viver e viver bem! Apesar de estares em cima de um ring de boxe, deixa-te respirar e sorrir para os teus fãs! Força! Estou contigo!

    http://avidadevera.blogspot.pt/

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    1. Que palavras tão bonitas Vera e que conselhos tão sábios!
      Prometo tentar pô-los em prática :)
      Um beijo enorme!

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  2. Ola CC
    Eu já há muito deixei de fazer planos, aprendi com as coisas que me foram acontecendo na vida, a não os fazer. Há muita coisa que me fez pensar hoje assim, mas a principal foi a morte prematura de um irmão. Faltou-me o chão sabes e ele nem estava doente. Foi de repente. Mas muitas coisas mais eu optei por não os fazer, hoje vivo um dia de cada vez e o que for será. Por isso concordo contigo, vive e concentra-te na tua cura, só isso. Beijinho grande :)

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    1. Por acaso Nina, sempre fiz muitos planos, sempre fui o tipo de pessoa que de manhã já tinha de ter o dia todo esquematizado e para ser sincera, ser assim causa-nos muitas dores de cabeça e desilusões que podiam facilmente ser evitadas. Esta doença que eu tenho, é uma doença de paciência e de resistência e tudo o que aprendi até agora resume-se a isso: um dia de cada vez. E um dia de cada vez também tem o seu encanto. Obrigada pela partilha Nina, tenho a certeza que o teu irmão nos está a ver :) Beijinho enorme!

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    2. É isso mesmo CC.
      A vida é linda, embora às vezes não corra como desejamos, por isso vamos vivê-la dia a dia sem pressas.
      Beijinho e bom fim de semana.

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  3. Digo sempre "ainda nenhuma doença me bateu à porta, e espero que se esqueça de mim, embora não seja mais que qualquer mulher ".
    Mas há anos que digo: um dia de cada vez, por muitos motivos que vivi dentro de casa e com os meus familiares.
    Mas desde que passei a ser uma reformada, e feliz, então sim, cada dia é um dia, viva-se cada momento agora. O amanhã, ver-se-á.
    Como sempre, CC, perco-me nos seus lindos textos que me dão muitas lições de vida.
    Beijinho, CC.

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    1. Querida como sempre Maria.
      Beijinhos. Bom fim de semana!

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  4. A vida surpreende-nos. Às vezes rimos, outras choramos, outras apenas sorrimos e contemplamos. Gosto muito da tua escrita e desse espírito lutador: "eu estarei sempre no ponto de partida para uma vida nova... porque é demasiado importante reciclarmo-nos de quando em vez e apaixonarmo-nos mesmo sem nos darmos conta." ;) Mais do que o tempo que cada um de nós tem de vida, importa que vivamos com intensidade esse tempo :)

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    1. Importa que façamos sobretudo o que o nosso coração mandar.
      Obrigada pelas tuas palavras :) Um beijinho

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