O que não se diz sobre os hospitais públicos

sábado, abril 09, 2016


Diz-se muita coisa sobre os hospitais públicos portugueses. Inclusive que se pratica a eutanásia. Fala-se em filas de espera intermináveis. E absolutamente, desesperantes. Vêem-se doentes apoiados nas paredes dos corredores das urgências porque faltam camas. Muitas camas. Não raras vezes, até faltam rolos de papel higiénico nas casas de banho. Esperam-se entre 4 a 6 horas, na melhor das hipóteses, para alguém, de batina branca, em quem nos custa confiar, nos olhar a uma distância de segurança recomendável durante 5 minutos. Diz-se que se cometem erros. Muitos. Que há negligência médica. Em todo o lado. E que existiriam estórias com desfechos diferentes se... se... se...

Eu confesso-vos. Eu nunca recorri a hospitais públicos por razões várias. Primeiro, pelo medo de ser "abandonada" e esquecida numa ala qualquer, sem ter a quem confessar os meus males (sou hipocrondríaca por natureza). Segundo, porque sempre desconfiei que nos hospitais públicos nunca se fazia tudo o que se podia fazer para tratar o doente "de cima abaixo". Sempre entrei nestas instituições na qualidade de visitante, até ao dia em que me tornei utente, primeiro no Hospital do Divino Espírito Santo de Angra do Heroísmo e posteriormente no Hospital de Santo António dos Capuchos em Lisboa. Não me senti lá muito à vontade, dormir aquelas duas noites sozinha, isolada, no quarto de um hospital desconhecido à espera do vaticínio final. Mas fi-las. Não tinha outra hipótese. 

Os médicos são rápidos e cirúrgicos a dizer as coisas: "tens uma leucemia, vais ser transferida para Lisboa ainda hoje". E depois consoante a reacção do doente, ajustam-se mais ou menos à situação. Não contive as lágrimas, mas aguentei-me firme. "Não é o fim". Disse-me a médica e saiu do quarto. Até agora, eu já consegui perceber uma coisa, se eles trabalham rápido, transmitindo-nos muitas vezes a sensação de que não se interessam minimamente pelos nossos casos, é porque, eles, essas ditas pessoas de batina branca, em quem nos custa confiar, têm à sua conta muitos fins para impedir. E muita gente para salvar. 

Ainda me lembro das lágrimas da Enf.ª Elisabete quando me entregou aos médicos do Santo António dos Capuchos e me disse adeus. Aí, eu senti que estava no meio de seres humanos feitos do mesmo tecido do que eu. Hoje, posso dizer-vos, sem medos e sem receios que no hospital onde sou seguida, não tenho médicos, nem enfermeiros, nem auxiliares a tratar de mim, tenho uma verdadeira família. Uma família que começou nesta luta comigo e que tenho a certeza que me acompanhará até ao fim.

Diz-se muita coisa sobre os hospitais públicos portugueses. Mas não se diz que as enfermeiras nos acordam com um bom dia ruidoso e nos obrigam a saltar da cama p´ra fora para a ver luz do sol que entra pela janela dentro. Não se contabilizam as vezes sem conta que as auxiliares passam a noite a trazer-nos cházinhos para as dores de barriga. Também não se conta que nos dão beijinhos nas carecas e que nos enxugam as lágrimas. Não se conta que estrangulamos, com frequência, as mãos das enfermeiras quando os exames são dolorosos. Nem se conta que elas não só cuidam de nós, como cuidam do pai, da mãe, da irmã e da família, em pânico. Não se diz que se encontra gente de carne e osso, mas eu encontrei. E só lhes posso estar muito grata por isso. Obrigada.  

Deixe um comentário

23 comments

  1. Mais um grande texto a que nos habituaste. Tão real...
    Ainda bem... ainda bem que estás rodeada de boas pessoas e bons profissionais! Beijinho grande

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Isabel!
      Graças a Deus estou sim! São uma dádiva na minha vida e nesta fase!
      Beijinhos grandes :)

      Eliminar
  2. Ainda bem que escreveste este testemunho pimpolha, também é necessário desmistificar esta imagem constante de que os hospitais públicos são tudo o que existe de pior...nem sempre são terríveis... Uma Beijolas Stylish Woman. Laviuuu

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O objectivo era mesmo esse e agradecer por ter tido a sorte de ter encontrado uma família! Beijinhos

      Eliminar
  3. Eu sempre ouvi dizer que os melhores médicos estão nos públicos. Fico feliz por seres bem tratada, pois realmente não é essa a imagem que passa cá para fora. Eu há muitos anos também estive internada por 15 dias numa situação muito grave e não tenho nada a dizer, pelo contrário, recordo ainda hoje, muitos dos que lá trabalhavam e sempre foram humanos comigo.
    Beijinho querida, bom domingo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Também ouço dizer o mesmo e até à data posso comprová-lo, graças a Deus. Tenho muita sorte em ter a equipa que tenho a tratar de mim!

      Eliminar
  4. Nunca tive que dizer dos hospitais públicos e já fui operada muitas vezes.
    Admiro muito, muito, mesmo, o trabalho dos enfermeiros e auxiliares que são pessoas que têm vidas, família, filhos, preocupações, e melhor ou menos bem, dão-nos o apoio que precisamos.
    Penso que muitas pessoas habituaram-se a dizer mal, muitas são arrogantes, mal educadas, acham que estas pessoas estão ali para as servir.
    Nós, por cá, neste país pequeno, temos serviços hospitalares de grande qualidade. Uma amiga minha Luso-Brasileira diz-me muitas vezes que nas Terras de Vera Cruz a saúde é péssima e quem não tem dinheiro, morre.
    CC, um belo post, como sempre.
    Grata por estas palavras: "também não se conta que nos dão beijinhos nas carecas e que nos enxugam as lágrimas. " , por estas: "Não se conta que estrangulamos, com frequência, as mãos das enfermeiras quando os exames são dolorosos." e mais estas: " Nem se conta que elas não só cuidam de nós, como cuidam do pai, da mãe, da irmã e da família, em pânico."
    Temos nestes seus posts grandes lições de humanidade e vida.
    Um abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ainda bem que as suas experiências sempre foram positivas...
      Também eu me pergunto como é que eles chegam ao fim do dia, voltam às suas vidas fora dos hospitais e conseguem esquecer tudo o que vêem. Será que conseguem? Um beijinho grande Maria.

      Eliminar
  5. Eu leio-te e recordo-me de tudo o que vivi no passado.
    Sim, nos hospitais públicos vê-se isso... Tornam-se nossos amigos, os nossos anjos da guarda. E ficamos ali, dependentes deles. Eles apoiam o doente e a restante família, é verdade! Também o fizeram connosco. É realmente uma verdadeira Anatomia de Grey.
    Que esses seres de luz te ajudem a ultrapassar todos os obstáculos.
    Cá fico a torcer por ti...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que bom que tiveste oportunidade de sentir o mesmo Vera!
      Obrigada! Beijinhos grandes!

      Eliminar
  6. Adoro... Palavras que nos aquecem o coração... Ainda me lembro do dia em que te conheci!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nunca se esquece uma Cátia Marlene! :P
      Obrigada. Obrigada. Obrigada.

      Eliminar
    2. Nunca se esquece uma Cátia Marlene com toda a certeza... Mas também não se esquece um ilhéu, nem as pessoas que recebemos.... Beijinho grande

      Eliminar
    3. Os ilhéus carregam um brilho especial nos olhos e tu tens-no :)
      E acredito que o teu coração seja do tamanho do atlântico.
      Um beijo :)

      Eliminar
  7. Deixou-me com a lágrima nos olhos, talvez por ser Elisabete ou por também ser enfermeira!
    Precisamos todos (todos os técnicos de saúde, os visíveis e não visíveis) deste reforço positivo. Estamos a trabalhar no limite da exaustão (física e psicológica). Mas, continuamos a fazer o melhor que sabemos, a cuidar de quem precisa...
    Obrigada pela sua partilha!
    Que tudo lhe corra pelo melhor.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que coincidência tão engraçada Enfª Elisabete... Por vezes, várias vezes, pergunto-me como é que os técnicos de saúde mantêm a sanidade mental no fim de cada dia, como que é que retomam as suas vidas fora dos hospitais e seguem em frente... O vosso trabalho é de uma entrega tão grande que todas as palavras que utilizei foram poucas para descrever aquilo que sinto e aquilo a que tive e tenho oportunidade de viver na 1º pessoa! Obrigada e um beijinho muito grande :)

      Eliminar
  8. Olha olha que ela tem jeito para a escrita e para deixar as pessoas com a lágrima no canto do olho.
    É por estas tuas palavras que nos fazem querer fazer sempre o melhor por vocês.
    Espero que andes a comer em condições não te esqueças que estou de olho em ti ��
    http://youtu.be/TAU7FBfj5EM

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olha quem ele é!!! Dá para meter uma cunha e pedir umas bolachinhas mais interessantes para as ceias? Acho que para a semana já estou aí para mais uma temporada no Spa! A intenção não foi deixar-te com a lágrima no canto do olho, mas sim agradacer-te! Estou segura que a tua maneira de ser, e a de muitos colegas teus, assistentes operacionais, influencia positivamente a moral de muitos doentes do serviço de Hematologia dos Capuchos. Continua assim, a dar o melhor de ti, todos os dias. A BL pode orgulhar-se do pai que tem! Obrigada Nuno!

      Eliminar
    2. Obrigado eu por essas palavras
      Mas verdade seja dita com pessoas como tu as coisas até se fazem melhor.
      Quanto as bolachas para a semana se as enfermeiras deixarem eu levo-te uma oreo pode ser?
      Beijinhos Cátia

      Eliminar
  9. Ola Obrigada pelas tuas palavras.
    Vais ultrapassar este mau momento.
    eu sou auxiliare num hospital publico.
    Dou tudo pelos meus doentes.
    Carinho e um incentivo para que eles ultrapassem aquele mau momento.
    muitas vezes sinto-me de rastos ao fim de 16h de trabalho mas senpre com um sorriso para quem precisa dele.
    as vezes saio triste; choro....
    custa ver alguém que esta conosco a muito tempo partir derrepente...
    os doentes passam a ser nossa familia.
    as vezes basta o carinho um olhar do donte que nos faz estremecer. ...
    um beijinho grande e pensamento positivo
    Vânia

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Vânia por partilhar connosco os seus sentimentos!
      Acredito que seja difícil, para si, e para nós, mas é exactamente como diz: passamos todos a ser uma família. Um beijinho enorme!

      Eliminar
  10. Sou enfermeira... Muito obrigada por isto...

    ResponderEliminar