Os desconhecidos com quem partilhamos quarto

domingo, abril 17, 2016


Ao inicio o contacto estabelece-se através de olhares mudos. O tempo, e infelizmente a dor, são os únicos coadjuvantes nesta relação. Apesar do elo de ligação entre nós ser na maioria das vezes o silêncio, os desconhecidos com quem partilhamos o quarto do hospital são talvez os únicos que sabem bem aquilo que nos vai na alma (e o que nos dói no corpo).

Uns gostam de conversar. Outros não. Uns engolem as lágrimas. Outros não. Uns gemem com (as suas) dores. Outros não. Uns preferem dormir o dia todo. Outros não. A forma como cada um assume o (seu) cancro difere de pessoa para pessoa e quando estamos, literalmente, ao lado delas, só nos resta respeitar o que cada uma sente, mesmo que se recuse a sentir. Não vale a pena atirarmos ao ar frases feitas. Oferecer conselhos baratos. Ou cair na tentação da futurologia. Cada um de nós sabe o que precisa saber para se aguentar... mas quando um de nós também vem abaixo quando tem de ir.

Falamos da doença entre nós (sem saber muito bem do que falamos). Questionamos o que os médicos prescreveram a um e não a outro. Contabilizamos as séries de tratamentos do protocolo e ingenuamente ainda as tentamos calendarizar conforme seriam os nossos desejos. Vamos questionando a evolução do diagnóstico... Sempre sem grandes diálogos, ou melhor, sempre sem grandes convicções. E às vezes, às vezes também nos magoamos uns aos outros, sem saber, sem dar conta.

Um dia uma das minhas colegas de quarto aproximou-se da minha cama e confidenciou-me que a enfermeira lhe tinha dito que das 3 pacientes daquela sala ela era a que estava em melhores condições de saúde e que provavelmente teria alta nos dias seguintes. Felicitei-a e disse-lhe: "logo, logo está em casa". A seguir escondi-me por entre os cortinados que dividem o espaço de cada cama e chorei. Chorei porque me doía a alma.

Consigo perceber o quanto ela precisava de dividir aquela boa nova com alguém, consigo entender que a alegria que ela sentia era demasiado grande para ela só, consigo perceber que ela precisava de alguém que testemunhasse aquele momento como prova abonatória da sua salvação. E às vezes, às vezes temos de fazer isso uns pelos outros. Mesmo que doa como me doeu a mim. 

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8 comments

  1. Sei qual é esse sentimento...
    Em finais de abril soubemos do meu irmão, começou a quimio no início de maio... eu tinha o meu casamento marcado para 28jun desse ano. E, quando eu disse isso ao médico, porque não sabia se o meu irmão poderia ir, depois da lista que nos deu de tudo o que ele podia ou não podia fazer, ele responde-me "que tenhas um dia feliz mas o teu irmão não pode sair daqui." Óbvio que não ia casar sem o meu único irmão presente! Adiamos o casamento e, pareceu que nesse verão toda a gente resolveu casar e só se falava em casamentos... Tive também de lidar com esse assunto/tema/felicidade dos outros, a mesma que me tinha sido roubada...
    Depois, no fim, vais ver... olhas para trás e apesar de tudo, vai correr bem!... Força querida!

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    1. Passou num instante Vera, por acaso, até acabei por ter alta mais cedo do que a senhora que me disse isso. São episódios normais de quem se vê preso num quarto de hospital com muita vontade de ir para casa. Custa um bocadinho, mas é como tu dizer, quando olhar para trás, ainda me vou rir de muita coisa! Beijinho

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  2. No caso dessa sra, claro que está doente e fica contente quando lhe dizem que vai para casa. Mas não tu devia ter dito, imagino que quem está doente às vezes psicologicamente também não está bem e talvez por isso tu disse, sem más intenções é certo, mas para ti não foi fácil.
    Gosto de te ler :)
    Beijinhos querida, continua com essa força.
    tem uma boa noite.

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    1. Foi sem más intenções, mas como escrevi, não deixou de doer.
      Beijinhos Nina
      Obrigada ;)

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  3. Ohhh minha querida! Nem consigo imaginar como doeu...sinto muito que tenhas ouvido aquela confissão cheia de alegria e tivesses que estar do outro lado.

    O lado que ainda não está preparado para sair desta situação e que ainda tem que continuar lutando.
    Infelizmente não conseguimos controlar como tudo gira à nossa volta nem como tudo chega até nós através dos outros, mas conseguimos controlar a nossa forma de reagir e a forma como passamos a enxergar os fatos.
    Com isso, imagino que viver o cancro no seu dia-a-dia seja um "trabalho de 24/7" onde você deve viver cansada, de pensar ou de sentir isso na pele, mas a sua jornada não é a de ninguém, o seu início não pode ser comparado ao meio do caminho de ninguém, principalmente porque todos somos diferentes e estamos em fases da vida diferentes. Eu sei que pensar que estamos todos no mesmo barco é mais fácil para lidar com a própria bagagem, mas não estamos.
    E por mais que nos entreajudemos nesta caminhada chamada vida, o caminho percorremos sozinhos minha querida. Por isso, tente olhar a sua caminhada com otimismo, tente enxergar a alegria do outro como se fosse sua também porque você também terá a sua vez. Eu creio!
    Muita luz para si minha linda!!
    Olha, ouvi esta música e pensei em si!
    Você já leu o livro A culpa é das Estrelas? Fala exatamente de um momento assim.
    https://www.youtube.com/watch?v=OqG55HdmKTE

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