Quando o cancro não nos deixa sermos mulheres

quarta-feira, abril 06, 2016



Hoje vou voltar um bocadinho atrás no tempo. Desde que revelei que tinha um cancro que os fãs e seguidores do CC aumentaram a olhos vistos, mas às vezes, só às vezes, eu gostava de (re)lembrar a essas pessoas, recém-chegadas (ou não), que antes disso, antes da doença, havia uma jornalista por detrás dos textos. A mesma que vos escreve hoje. A mesma que luta pela cura. E, já agora, se algum dia, por algum infortúnio da vida, me tiverem que recordar, recordem-me entre outras coisas como alguém apaixonado pela escrita. Será justo. E encher-me-á de orgulho.

Para quem (ainda) não sabe, durante algum tempo da minha vida trabalhei como consultora de lingerie numa loja de soutiens em Lisboa. Foi justamente durante essa experiência profissional da minha vida que, não raras vezes, estive entre o espelho e clientes mastectomizadas. A estória que recordo com maior sentimento foi a de uma mulher que ao despir-se, passo a passo, me foi contando como é que o cancro lhe tinha roubado tudo aquilo que ela era. Apesar de lhe querer dizer muitas coisas na altura, a minha boca não se abriu. Quem eu era eu para lhe poder dizer alguma coisa? Mas hoje... Hoje dir-lhe-ia tão somente que concordo com ela. Não me falta um peito, mas faltam-me várias coisas que me faziam sentir mulher.

Não é o cabelo. Não se deixem levar por clichés. O cabelo foi a parte mais fácil de todas. Cai. Corta-se. Cresce. Não deixou mossa. É a pessoa que aos poucos e poucos vai aparecendo no espelho. É o corpo do qual os médicos se vão apoderando que deixa de ser nosso. Parece que não nos pertence... parece que é apenas um cabide para passearmos as nossas emoções. Quando nos permitem. Quando nos deixam.

É difícil lidar com isto todos os dias. É difícil estar constantemente a tentar recuperar uma pessoa dentro de nós mesmos... Uma pessoa, que muito provavelmente, não volta a ser a mesma. Nem física, nem espiritualmente. Estou inchada dos tratamentos. Estou careca. Estou com a pele manchada.  Estou com as unhas castanhas. Estou com menopausa precoce. Estou a caminho da infertilidade. Estou a umas semanas dos 32 e todos os dias quando me olho no espelho, tenho de me lembrar daquilo que sou. E do quanto (ainda) sou mulher.

Não é aquilo que nos falta que nos define. Não é. O cancro leva-nos ao tapete (ai se nos leva). Vários rounds. Vários golpes. Vários K.O. E ninguém venha dizer que percebe o que isso é, porque, se não estiver em cima do ringue, nunca há-de perceber o que realmente é. Uma mulher com cancro sente-se feia, sente-se incapaz, sente-se impotente e está no seu direito. Curiosamente, a estória que vos contei da cliente que deu mote a este texto tinha ainda um pormenor doloroso. Um marido, que a tinha abandonado, depois de saber que ela tinha cancro. Faltavam mais partes a essa mulher do que um simples peito.

"Escolhi-me a mim". Disse ela. Tal como eu me escolho todos os dias mesmo sem me reconhecer. Um cancro destrói tudo o que há de mulher numa mulher, menos uma coisa.... a vontade de querermos continuar a sê-lo, ainda que incompletas.

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21 comments

  1. Escolhe a vida querida
    O aspecto exterior é um complemento visual, temos é de nos sentir bem por dentro e é essa a batalha que deves travar com o maldito bicho.
    eu não estou em cima desse ringue, mas sei que se há uma coisa que vence é a nossa força de viver e a esperança que um dia o bicho vai morrer deixando-nos viver em pleno a nossa vida.
    Força!!!

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    1. Escolherei a vida sempre que ela me parecer melhor que as outras opções.
      Concordo contigo, o aspecto exterior é de facto um complemento visual, mas o que eu quis transmitir é o facto de um cancro ser uma forma muito agressiva de "obrigar" as mulheres a desligarem-se da sua identidade física. E esse processo, mesmo que o todo o resto dê certo, é difícil. Beijinho e bem-vinda :)

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  2. Foi esta tua luta que nos fez reencontrar e re-conectar, mas foram as lembranças de uma amizade de há 20 anos que me fizeram, sem pestanejar, enviar-te o meu apoio! Sempre escreveste tão bem! Lembro-me, entre outros pormenores, dos teus textos livres nas aulas de português! Transmitir por palavras, dessa forma, o que te vai no coração, e até na alma, é uma arma mt poderosa!

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    1. Oh obrigada Janete! As aulas de Português eram as minhas preferidas, claro está! Sempre fui uma apaixonada por folhas brancas... Acho que é uma forma de vida... Sem escrever, não saberia viver. Um beijinho enorme!

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  3. Só por quem passa por isso entende este seu lado, seus sentimentos, angústias....
    Depois, eu também fico sem palavras..... só desejo que tudo isso passe e que tudo fique bem.
    :*

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    1. Obrigada Liliana! Há-de passar e há-de ficar tudo bem!
      Um beijinho!

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  4. Podes discutir, zangar-te sentir-te roubada, sentir tudo que só tu podes sentir porque não sou eu que estou no teu corpo mas também tens que sentir a lutadora que sempre foste...diferente, alterada, com sentimentos torcidos, com sentimentos confusos, com tudo o que tens direito mas também tens que sentir a lutadora que sempre foste. Esta é mais uma luta.
    Cada palavra tua rouba-me lágrimas, sorrisos e silêncios, num sentimento quase egoísta da minha parte porque não sou eu que estou no teu corpo...apenas quero mais que tudo que não deixes roubar o teu sorriso, essa calma e olhar observador que sempre tiveste, essa forma de estar na vida como se tudo fosse fácil....laviuuu

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    1. Adorei o "tens que sentir a lutadora que sempre foste...diferente, alterada, com sentimentos torcidos". Sabes que nunca ninguém me descreveu tão bem? Engraçado como me sabes ler... Estou a reerguer-me, a reedificar-me e obrigada por não me deixares cair! Laviuuuuu too!

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  5. Ola querida. Eu conheci o teu blog (por acaso) li o que escrevias e gostei. Não porque estas doente mas sim porque pensei: como ela com uma doença destas consegue falar aqui tão bem, a partir daí sigo-te e como te disse, vou te seguir até estares curada e depois também.
    Admiro-te a ti e a todas as pessoas que com problemas graves têm ainda vontade de escrever. Tenta esquecer o aspeto e concentra te na tua cura. Só te posso desejar muita força.
    Beijinhos linda.

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    1. Obrigada Nina! A ideia de partilhar, em nome pessoal a minha experiência nasceu de uma vontade muito grande de humanizar o cancro. O cancro ainda é tabu e acho que o devemos simplificar para o bem de todos e até para alcançarmos curas mais rápidas! Um beijinho

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  6. Um abraço sincero, CC.

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  7. Olá,

    É a primeira vez que aqui venho, por acaso.
    Quero enviar-te toda a força do mundo e que Deus te ajude a ultrapassar todo o processo até à vitória da tua doença. Não passei pelo mesmo na 1ª pessoa, sou a irmã da 1ª pessoa que lutou pela vida e que graças a Deus conseguiu vencer... Também escrevi sobre o assunto (http://island-sea.blogspot.pt/, hoje tenho outro...) e existiram dias melhores e outros piores, o medo, esse nunca vai embora. Já se passaram 7 anos desde o momento em que ele não teve de fazer mais tratamentos e na próxima semana vai fazer exame de rotina outra vez para saber se continua tudo bem e o medo ainda existe no nosso coração. Por isso, relativamente ao teu post sobre o "depois", devo dizer-te que nunca mais deixarás de ter medo que esse bicho maldito volte... eu tenho e toda a minha família também tem e custa muito a espera dos resultados... Mas com a fé em Deus e com força, positivismo no dia-a-dia, vais conseguir ultrapassar esta má fase. Vou acompanhar-te a partir daqui, não só pela tua história (que é semelhante à do meu irmão e porque te quero ver vencer o bicho!), mas também porque escreves bem (muito bem, aliás!) e, porque és terceirense (eu sou micaelense) portanto, somos da mesma zona, com poucos km de distância...
    Vou lendo o que publicas e hei-de cá vir dar-te forcinhas sempre que me for possível!
    Um beijinho do tamanho do mundo!

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    1. Obrigada Vera por teres cá vindo e por teres partilhado comigo e com as pessoas que vão passando por aqui a tua "estória". Eu tenho consciência que o medo nunca irá desaparecer, mas ao menos que desapareça o bicho como desapareceu no caso do teu irmão. Tudo dará certo e tenho a certeza que o exame que ele fará será mais rotina de que outra coisa. Também acredito que as famílias aprendem muito com as doenças, espero do fundo do coração que vocês sejam verdadeiramente felizes, mesmo sendo micaelenses (é claro que estou a brincar!). Obrigada pelo teu apoio! Conta imenso! Beijinhos

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    2. O bicho vai desaparecer querida terceirense! ;) Vamos ter fé e muita força nos dias menos bons e vou dizer-te aquilo que sempre disse ao meu irmão: come sempre comidas saudáveis e, mesmo que vomites, e não tenhas vontade de comer a seguir, volta a comer, faz um esforço. É na boa comida que vais buscar as tuas armas para vencer o bicho... e ele comia sempre a seguir vomitar (quando eu própria ficava sem vontade de comer!)... Nada de "açucares" (isso é uma das coisas que alimenta o bicho!)...
      Força!

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    3. Obrigada! Vou ter isso em conta! ;)

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  8. Olá :) Já tinha "like" na tua página há imenso tempo mas fui daquelas seguidoras que desde que soube do teu estado de saúde que me interessei por acompanhar a tua página mais de perto para saber da tua nova caminhada. Entretanto, umas semanas depois, um diagnóstico de cancro no estômago chegou a minha casa ao meu pai. Desde aí tenho partilhado a tua história com ele sempre que tens novidades, incluindo os teus textos. Só posso desejar-te que tenhas força, que nunca te falte esse sorriso nem as tuas queridas pessoas para te aquecerem o dia! Continua a escrever, a partilhar connosco o que sentes, gosto muito dos teus textos e sinto que de alguma forma estou solidária e no mesmo "barco" que tu. Para teres um exemplo, sei que não nos conhecemos, mas fiquei muito contente com a tua saída do hospital no dia da mulher :) Caminho longo mas coragem, juntos venceremos! Muitos beijinhos e estimo as tuas melhoras e a tua vitória <3

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    1. Obrigada Márcia pelas tuas palavras tão reconfortantes. Espero que o teu pai goste tanto dos meus textos quanto tu :) Acredito que o cancro é uma doença manifestamente física, mas é também uma prova de resistência e resiliência muito dura. Aprendemos a viver um dia de cada vez e isso nem sempre é mau. Como eu costumo dizer, juntamente com uma colega que está a passar pelo mesmo, "vai doer, mas vai passar", e é essa a atitude. Um beijinho enorme para ti e outro ainda maior para o teu pai. Estamos juntos!

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  9. De nada, obrigado eu pela força que tentas transmitir sempre, nunca esquecendo o lado bom de tudo!! Muitos beijinhos e coragem <3

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