Será que as pessoas com cancro conseguem apaixonar-se?

terça-feira, abril 19, 2016


Não nos conhecemos pessoalmente. Cruzámos uns olhares fugazes duas ou três vezes. E de repente, dizes tu, que o meu sorriso despertou qualquer coisa dentro de ti. Presumo que não sabes bem o quê. Na altura, nesses dias em que nos cruzámos eu era uma mulher vaidosa. Assumidamente vaidosa. Assumidamente consciente disso. Na altura ainda tinha cabelo. Não tão grande como o costumava ter, mas ainda tinha. Uma mulher sente-se muito mulher quando percebe que o seu cabelo dança ao ritmo dos seus passos. Na altura eu não saía de casa sem batom. Na altura eu preocupava-me com a roupa que ia usar. Na altura eu já tinha uma leucemia, mas não sabia. Não sabíamos.

Quando regressei a casa, no inicio, regressei com a ideia, (errada), de que seria impossível apaixonar-me de novo... Mas no dia em que te vi, em que nos vimos, houve qualquer coisa que mudou. Não acredito nos amores à primeira vista. Não acredito sequer nos amores eternos. Mas voltei a acreditar que me podia sentar horas a fio a ouvir alguém falar. Voltei a acreditar que terias muitas estórias para me contar. Voltei a acreditar que seria inebriante enquanto fosse o que tivesse de ser.

Começámos a falar, pelo telefone, já eu estava no hospital em Lisboa, mas tu não sabias. E agora? Eu não tinha cabelo. Eu não tinha batom. Eu nem sequer tinha sorriso. E agora? O que é que eu despertaria em ti? Pena talvez. Ao inicio custava-me tanto falar contigo... Seria possível, alguém, como eu, a quem diagnosticaram a doença que diagnosticaram, voltar a apaixonar-se nesse exacto momento? Parecia-me tudo muito confuso, mas a verdade é que foste a minha grande companhia das noites de insónia. Eu não queria que ganhasses a importância que foste ganhando. Eu não queria ligar-me a alguém quando eu me podia desligar a qualquer momento. Eu não queria, no fundo, que tu fosses demasiado interessante...

O tempo foi passando, devagar, devagar, devagarinho. A minha careca não te incomodou. A minha doença também não. Incomodou-te o tempo. Sim, o tempo. O tempo que tinhas que esperar até termos uma oportunidade para nos conhecermos. E quando te começou a faltar "tempo", a mim começou-me a faltar esperança. Afinal, eu estava certa, seria muito difícil apaixonar-me de novo. Especialmente por ti.

Foram-se as promessas. Os convites. Os planos. As ilusões. Tudo o que me vendeste. Mas sem ressentimentos. Até à data o meu coração já demonstrou, por várias vezes, ser resistente o suficiente face à pobreza humana. Talvez não leias, ou não percebas, metade daquilo que eu escrevi... é que às vezes, só às vezes, eu também sou assumidamente sarcástica. Não se vende sonhos a quem foi obrigada a desfazer-se deles. Não é justo. E não é honesto. Agora é esperar que o tempo vá passando, devagar, devagar, devagarinho... até eu acreditar que posso voltar a apaixonar-me e até que eu encontre alguém que esteja disposto a esperar (e não só).

Talvez os nossos olhares se voltem a cruzar um dia. 
E nesse dia, eu espero que tenha valido bem a pena não teres esperado.

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6 comments

  1. Não ligues a isso querida. Tu és linda e um dia vais ter quem te merece.
    Beijinhos e coragem.

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    1. Basta alguém com quem seja delicioso passar horas a fio a conversar.
      Beijinhos

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  2. Vai voltar apaixonar-se, ele vai esperar, sim, e vai merecer esse amor, como ele o seu.
    O que vendedor de sonhos e ilusões vai arrepender-se por não esperar.
    É só dar tempo ao tempo.
    Beijinho

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    1. Que engraçado Maria, não é a primeira pessoa que me diz isso, mas não acredito muito na longevidade desta estória que nem chegou a começar.
      Beijinhos grandes :)

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  3. Tudo o que é verdadeiro espera. Se não for verdadeiro não vale a pena.
    Sim, uma pessoa com cancro pode apaixonar-se. Sim, pode viver. Sim, pode ser passageiro. Que importa?! Importa é que em algum momento tenhas sido feliz.
    Vive a vida intensamente com tudo aquilo que tens direito.
    Amor à primeira vista existe: imagina uma mãe quando vê o filho pela primeira vez. É o amor à primeira vista! Amor eterno também existe. De uma mãe por um filho, por mais que sofra por causa dele ou com ele.
    Acredita no amor, qualquer característica que ele tenha! Acredita na vida!...
    Força terceirense simpática. Arrebita!
    Beijinhos de S. Miguel ;)

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    1. Esta "estória" teve os seus momentos felizes, não nego.
      Bastante felizes até... Surpreendi com a capacidade de poder voltar a apaixonar-me e se calhar, quando "caí" em mim, tomei-lhe medo. Ainda assim, não sei se a pessoa em questão tem consciência de tudo por quanto estou a passar e não quero forçá-la a tê-la. As coisas têm de ser naturais. Beijinhos

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