#vamos matar o bicho

Podia ser qualquer um de nós

segunda-feira, maio 30, 2016

As pessoas sabem aconselhar, ou melhor, sabem consolar, muito pouco quem tem cancro (se calhar porque todas as pseudo-opiniões que venham de quem nunca passou pelo mesmo nos entrem por um ouvido e saiam pelo outro). A verdade é essa. E às vezes, mesmo aqueles que tiveram a infelicidade de viver com um cancro ficam à margem de nos poder ajudar quando não conseguem sair deles próprios. Eu ligo muito pouco àquilo que as pessoas me dizem. Ligo cada vez menos. E acho que continuarei a desligar. Apesar de eu já vos ter escrito que um cancro nunca é só nosso, a maioria dos sentimentos pelos quais passamos vivem-se a sós. Vivem-se e sentem-se muitas coisas que não se contam a ninguém porque nos dóiem de uma maneira particular que pessoa alguma, por mais que se esforçasse, entenderia.

Ainda assim, quando esta aventura começou houve uma pessoa, ex-doente oncológica, (cancro da mama), que me disse uma coisa muito importante: nunca tenhas pena de ti nem nunca permitas que os outros tenham. E a verdade é que até hoje, quase 5 meses depois disto tudo ter começado, eu nunca, em momento algum, senti pena de mim. Há-de haver alguém por aí que sinta. É natural, é humano, mas é desnecessário. O cancro é uma fatalidade normal e o meu esforço em partilhar tudo aquilo que eu tenho vivido tem um único objectivo: lembrar as pessoas de que as pessoas com cancro continuam a ser pessoas. Podem ter menos cabelo, podem ter menos força, no corpo e nas convicções, mas continuam a ser pessoas. Pessoas que não foram de todo "escolhidas"... há muita gente que gosta de pensar que as pessoas que têm cancro foram mais ou menos seleccionadas para o ter. Eu continuo a acreditar que não.

Acho que esta foi sem dúvida das partilhas mais ricas que pude ter. Quem tem cancro não é um coitadinho... não é. É a mesma pessoa que era antes, embora mais cheia de dúvidas, mais cheia de medos, mais cheia de hesitações. Ainda assim, hesitar não é sinónimo de desistir nem de parar. Hesitar é um passo normal no processo de quem se prepara para dar luta. É por isso que eu gosto de lembrar às pessoas que somos pessoas. Como elas. E que um cancro, qualquer um de nós pode ter... embora eu espere, do fundo do coração, que a vida vos poupe. 

#vamos matar o bicho

O cancro torna-nos mais religiosos?

sábado, maio 28, 2016


Seria hipócrita se vos dissesse que não. Mas atenção, para mim, religião é aquilo que cada um faz depois do sermão. É aquilo que cada um faz ao próximo. É aquilo que quando um faz depois de ouvir o seu pastor. Isso para mim é o que é válido. Fui educada por uma das mulheres mais religiosas que alguma vez conheci, a minha avó materna, de quem as saudades nunca se foram embora. Mas por favor não a confundam com as beatas falsas. A minha avó raras vezes ia à missa, ia quando podia, enervava-se solenemente com a altura do ofertório onde pediam regularmente dinheiro para a igreja e participava muito pouco nas manifestações religiosas da sua freguesia, mas em casa dela rezava-se 3 vezes por dia, lia-se a bíblia sempre que os afazeres domésticos permitiam e quaresma era sinónimo de jejum. A minha avó sempre me comoveu com a sua fé inabalável.

Todos os dias me contava uma estória. Quando lhe faltavam parábolas, inventava-nas ela. O importante é que eu entendesse o que sempre se esforçou por me transmitir: não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti. Uma verdade simples da qual todos os nós nos fomos esquecendo ao longo da vida... A minha avó passou um ano numa cama antes de morrer, e um dia, desesperada como qualquer um estaria, disse-me: Deus abandonou-me. Foram das palavras mais difíceis de ouvir. Não as esqueço. Nunca as esqueci. E sinto-as no peito como as senti naquele dia.

Eu acredito que ela é o meu anjo da guarda. E não deixei de venerar o Deus que ela me apresentou. Falo com Ele quando me apetece, procuro-o quando preciso e acredito que seja tão humano quanto nós. Desde que tenho cancro que tenho-no feito com mais regularidade e não me parece que Ele vá ficar chateado comigo por estar incessantemente a pedir-lhe coisas. Ele não é assim. Pelo menos eu não acredito que seja. A fé é uma coisa muito difícil de definir. E não estou a escrever isto para impor nada a ninguém. Aliás, tenho imensos amigos que não acreditam em Deus... mas acreditam em alguma coisa e o que me parece cada vez mais importante nesta vida é acreditarmos, de facto, em alguma coisa. Seja ela qual for. Seja ele quem for.

Deus tem sido muito generoso comigo, apesar de tudo. E espero que os "Deus" de cada um de vocês também o estejam a ser convosco. E, para além disso tudo, espero que a fé nunca vos falte. A fé move montanhas, e move essencialmente o ser humano, de um lado para o outro. E na maioria das vezes, tudo o que nós precisamos para ir de um lado para o outro é  acreditar que o conseguimos fazer. Não é fácil. Não. É das coisinhas mais complicadas desta vidinha... mas não é impossível. 

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Não, não voltamos a ser os mesmos

sexta-feira, maio 27, 2016

De repente, há uma coisa da qual me lembrei: não voltamos a ser os mesmos. Ninguém tem o direito, família, pais, amigos, e até amores clandestinos, de exigir que voltemos a sê-lo. Não vamos chegar nem lá perto. Sinto muito desiludir-vos se era disso que estavam à espera. Se era o "gran finale" pelo qual cruzavam os dedos. Se calhar é altura de se irem despedirem desta que vos escreve...

Por mais caricato que seja, ou que vos possa parecer, descobrimos que não voltamos a ser os mesmos quando um amigo, homem, com idade para ter o que deve ter no devido sítio, nos telefona a lamentar-se porque levou uma injecção no rabo. É aí, no meio dessa conversação emocionante, que descobrimos que a nossa compaixão não estica o suficiente para nos emocionarmos com umas meras nádegas inchadas. E olhem que estou muito, mas mesmo muito, mais sensível do que aquilo que eu era...

Eu não posso exigir ao meu amigo da bunda inchada que se compadeça com as minhas veias partidas, nem com o meu osso ilíaco escavado, nem com a minha coluna vertebral perfurada, mas talvez um dia, ele perceba que o fosso que nos separa foi causado por pura insensibilidade. E não. Não foi (apenas) insensibilidade da parte dele. Foi minha também. Apesar do cliché, (se eles existem é por algum razão, não é?!), "o que não nos mata, torna-nos mais fortes". E com toda a franqueza, mais fortes do que uns e outros.

Há quem tente "comparar", se calhar, inconscientemente, os "seus problemas" aos meus, aos nossos. Incomoda-me que o façam. Não preciso que me perguntem como estou, nem como vão as coisas, nem que digam "que azar, o que te foi acontecer", mas não me venham "tentar" dizer que uma constipação, uma depressão ou uma injecção no rabo dói tanto como um cancro. Eu já os tive e sei que nenhum deles ultrapassa o último. Sei que devemos respeitar a dor de cada um, mas às vezes, esquecem-se, levianamente da força com que cerramos os dentes de forma a acreditar que uma punção lombar nos vai doer tanto quanto uma injecção no rabo. For God's sake! 

De momento não me preocupa nada esta insensibilidade natural que o cancro me deu... afinal é apenas uma nádega. Preocupa-me sim que continuemos a dar importância a coisas sem importância. Sim, a tua nádega não me interessa para nada. Moral da estória.

#vamos matar o bicho

Deus não escolhe os fortes para sofrerem

quarta-feira, maio 25, 2016


Gostava muito de vos poder dizer que os últimos dias que eu tenho vivido têm sido razoavelmente normais, dentro do possível, mas estaria a mentir-vos. Depois de ter passado uns dias nos cuidados intensivos do hospital de São José, não consigo voltar a ser mesma. Psicologicamente. Não consigo. Chegámos a um ponto crítico desta viagem: voltar a confiar no processo. Como? 

Tenho medo e preciso que os outros respeitem o meu medo. "Ah e tal, agora não te podes ir abaixo", "ah e tal, Deus escolhe as pessoas mais fortes para passarem pelas provações mais difíceis", "ah e tal, mas alguém te disse que ia ser fácil?". Lamento, mas eu não acredito nisso. Estou farta de ouvir o mesmo todos os dias e nada parece realmente fazer sentido. Eu não estou nesta posição porque sou forte, é justamente o contrário. Eu tenho de ser forte porque estou nesta posição. Mas sinto-me fraca, sem forças, sem capacidade para me entregar de novo à serenidade com que comecei. Estar mais perto do (possível) fim não me alivia em nada as dores da alma que me vão corroendo dia após dia.

Eu sei que nós, seres humanos, temos uma tendência natural para o desalento. Para o desfado. Para o destino. Não conseguimos olhar para trás, para o nosso caminho, e orgulharmo-nos do que já conseguimos dominar, mas conseguimos olhar para a frente, e acreditar, sem razão, que o que falta será impossível de alcançar. O meu corpo está cansado. A minha cabeça está cansada. Toda eu sou cansaço. E ninguém entende. Ninguém percebe que as saudades de ter uma vida aumentam a cada dia que passa. Ninguém percebe que se quer tanto ser normal quanto já se foi um dia. Ninguém entende que existem noites em que adormecer sem saber como será o dia de amanhã é quase impossível.

Não estou revoltada, mas estou bastante cheia de raiva. Daquela raiva que a gente não percebe de onde vem nem para onde vai. E o consolo que chega de quem pouco nos ouve, (até porque eu prefiro estar dentro da minha concha), é um "é normal". É normal o caraças. Eu tenho 32 anos, uma leucemia, faltam-me 3 ciclos de quimioterapia e tenho medo. E agradecia que em vez de me dizerem que "é tudo normal", não me dissessem nada. Porque não é nada normal. Não é.

Deixem-me chorar. Deixem-me ter medo. Deixem-me estar triste. Deixem-me encontrar de novo a confiança. Deixem-me acreditar quando eu sentir que consigo. Mas deixem-me. Deixem-me esquecer por momentos que esta sou eu.

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Quando é que isto acaba?

segunda-feira, maio 02, 2016


Havia de chegar o dia. Havia de chegar o dia em que eu, por mais que o "amarrasse" dentro de mim, o teria que deixar fugir. Em silêncio. Cheia de raiva. E cheia de vergonha. Não tenho direito... mas, na última semana, a que marcou oficialmente a passagem p'ra lá do meio do tratamento, também não tive paciência. A quimio levou-me tudo. Até a resiliência. Chateia-me muito não ter paciência (não me dá nada jeito entregar-me aos desesperos quotidianos próprios de quem vive com um cancro). Não imaginam como me chateia... Mas, quando é que isto acaba? Quando é que acabam as idas diárias ao hospital, os internamentos esperados e inesperados, as picadas (a porra das picadas), as análises, as quimios... Quando? Quando é que se acabam as incertezas, as ansiedades, os sorrisos amarelos, (os que me vejo forçada a fazer) e as perguntas da praxe: "como é que estás"?

Ora, estou com vontade de mandar tudo à merda (na verdade é a frase que melhor exprime como me sinto). Mas não posso. Quando chego ao hospital e vejo alguém que já lá está há mais tempo do que eu, volto a "amarrar a burra" bem amarradinha. A vontade de mandar tudo à merda continua dentro de mim, mas não me permito dizê-lo. Por respeito. Por compaixão. Por admiração também. Se calhar essas pessoas também querem mandar tudo à merda como eu, mas não o fazem. É uma espécie de código de honra (que nós, "amigos dos Capuchos", sabemos bem como funciona). Não se pode dizer a uma mãe: "deixa-me", quando nos apetece ficar 5 minutos sozinha. Não sei explicar-vos, mas não se pode.

A última semana coincidiu também com a comemoração dos meus 32 anos. Para quem segue o blogue há pouco tempo, há um texto sobre os 31 que eu acho que vocês todos deviam ler, "Isto é que foi um 31!". Basicamente fala sobre uma mulher que desceu aos infernos e regressou a si. Ai quem será?! Ai quem será?! Não vou dizer que os 32 são um remake desse filme porque não são. Apesar de me apetecer mandar tudo à merda, não confundam isso com revolta. Não estou revoltada, estou cansada. É bem diferente. Não é fácil fazer anos sem cabelo. Achavam que era? Não é. Sem sobrancelhas. Sem forças. Sem vontade para comer. Cheia de dores de cabeça. Cheia de dores no corpo. Cheia de dores na alma e no peito. A quimio, deixou-me KO, com a sensação de ter sido atropelada por um camião TIR, várias vezes. Não chorei. Pr'a quê?! Mas também não me conseguir rir. E é esta dormência, entre um lado e o outro, aquela em que se vive.

Dias antes do meu aniversário recebi esta foto que uma colega me enviou. Eu teimo em dizer que não sou saudosista e que não me quero transformar numa "velha do Restelo", mas caramba, Pimpas, fizeste-me querer recuar no tempo à velocidade da luz. Já lá vão 8 anos, certo? Fizeste-me querer "roubar" a vida da qual essa menina da foto parece ser dona. A serenidade que encerra em si. A felicidade que lhe sai dos poros. A confiança de que está a viver o momento certo. Como é que eu já pude ser assim?! Sabes responder-me?

Para que fique claro, mais uma vez, não foi o cancro quem me tirou essas coisas todas que eu gostava de voltar a ter, (quer dizer, o cabelo e as sobrancelhas talvez tenha sido mesmo obra dele). A grande responsável fui eu e o que eu deixei que a vida fizesse comigo. Mas uma coisa vos digo, são 32, mas 32 muito bem preenchidos. Fiz um bocadinho de tudo aquilo que queria fazer, e quando se faz um bocadinho de tudo aquilo que se quer fazer só se pode ser uma pessoa de muita sorte. E também vos posso dizer que fiz muita coisa sem saber se seria o certo. Dei muitos passos no escuro. Tremeliquei, oh se tremeliquei. Mas fiz. E essa é outra coisa da qual eu sei que sou dona, de uma coragem pequenina capaz de me levar até onde eu quero ir. Quando é que isto acaba?! Tenho coisas para fazer.