Deus não escolhe os fortes para sofrerem

quarta-feira, maio 25, 2016


Gostava muito de vos poder dizer que os últimos dias que eu tenho vivido têm sido razoavelmente normais, dentro do possível, mas estaria a mentir-vos. Depois de ter passado uns dias nos cuidados intensivos do hospital de São José, não consigo voltar a ser mesma. Psicologicamente. Não consigo. Chegámos a um ponto crítico desta viagem: voltar a confiar no processo. Como? 

Tenho medo e preciso que os outros respeitem o meu medo. "Ah e tal, agora não te podes ir abaixo", "ah e tal, Deus escolhe as pessoas mais fortes para passarem pelas provações mais difíceis", "ah e tal, mas alguém te disse que ia ser fácil?". Lamento, mas eu não acredito nisso. Estou farta de ouvir o mesmo todos os dias e nada parece realmente fazer sentido. Eu não estou nesta posição porque sou forte, é justamente o contrário. Eu tenho de ser forte porque estou nesta posição. Mas sinto-me fraca, sem forças, sem capacidade para me entregar de novo à serenidade com que comecei. Estar mais perto do (possível) fim não me alivia em nada as dores da alma que me vão corroendo dia após dia.

Eu sei que nós, seres humanos, temos uma tendência natural para o desalento. Para o desfado. Para o destino. Não conseguimos olhar para trás, para o nosso caminho, e orgulharmo-nos do que já conseguimos dominar, mas conseguimos olhar para a frente, e acreditar, sem razão, que o que falta será impossível de alcançar. O meu corpo está cansado. A minha cabeça está cansada. Toda eu sou cansaço. E ninguém entende. Ninguém percebe que as saudades de ter uma vida aumentam a cada dia que passa. Ninguém percebe que se quer tanto ser normal quanto já se foi um dia. Ninguém entende que existem noites em que adormecer sem saber como será o dia de amanhã é quase impossível.

Não estou revoltada, mas estou bastante cheia de raiva. Daquela raiva que a gente não percebe de onde vem nem para onde vai. E o consolo que chega de quem pouco nos ouve, (até porque eu prefiro estar dentro da minha concha), é um "é normal". É normal o caraças. Eu tenho 32 anos, uma leucemia, faltam-me 3 ciclos de quimioterapia e tenho medo. E agradecia que em vez de me dizerem que "é tudo normal", não me dissessem nada. Porque não é nada normal. Não é.

Deixem-me chorar. Deixem-me ter medo. Deixem-me estar triste. Deixem-me encontrar de novo a confiança. Deixem-me acreditar quando eu sentir que consigo. Mas deixem-me. Deixem-me esquecer por momentos que esta sou eu.

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12 comments

  1. Queria dizer algo inteligente mas não me ocorre nada só que tens o direito de te sentires como quiseres é tua doença, és tu que estás a passar por ela. Chora se quiseres chorar, grita se quiseres gritar e manda tudo à m**** se te apetecer!
    Eu, como muitas pessoas que querem o teu bem, estou deste lado a enviar boas energias. Beijos grandes

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    1. Obrigada Rita!
      Tem sido uma viagem atribulada, com altos e baixos inesperados.
      Só espero voltar a ganhar confiança e seguir em frente.
      Não me restam alternativas! Beijinhos

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  2. Tu tens o direito de te sentires como tu quiseres e ninguém pode sequer imaginar como tu te estás a sentir, nem mesmo quem passa pelas mesmas provações que tu estás a passar, porque todos somos diferentes e porque todos temos formas e sentimentos diferentes de encarar a vida e as mesmas situações!
    Tens apenas de saber que quem te lê (agora muito compreensivelmente infelizmente em muito menor periocidade) te lê porque te quer ouvir, não porque é obrigada a ouvir-te!
    e quer fazer parte da tua vida e poder pelo menos rezar e tentar ajudar-te o máximo possível, mesmo que não conheças pessoalmente (como no meu caso) tentar que pelo menos não te sintas tão só, como tens toda a legitimidade de te quereres sentir
    um beijinho e força porque a alternativa à vida que tens levado estes últimos meses é tu voltares a ser quem eras! e para isso tens a tua força e a força de quem te lê

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    1. Oh, obrigada, mesmo. De coração!
      "porque a alternativa à vida que tens levado estes últimos meses é tu voltares a ser quem eras!" Não me posso esquecer disso! Beijinhos

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  3. Claro que toda a gente te entende. Eu entendo-te! acredita.
    Já estive numa situação parecida com a tua há mais de 30 anos e aqui estou, tenho uma amiga, tem leucemia fez os tratamentos e vive hoje uma vida normal. Que esta noite durmas tranquila.
    Beijinhos Cátia.

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  4. Tens direito a ter medo e a chorar. Mais direito tens ainda a ter por perto colos que te acalmem e abraços suficientemente fortes que te façam sentir tranquila. Daqui seguem boas vibrações. :) Força!

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    1. Obrigada Tatiana, é bom saber que há pessoas que sabem que às vezes também precisamos de esmorecer para depois renascer! :) Um beijinho

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  5. Nesta fase tens direito a tudo. Não vou dizer mais nada, porque tudo o que te disse até hoje acho que resume tudo (não gosto de ser chata!).
    Estou por aqui e compreendo-te...
    Beijinho...

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    1. Basta estares por aí...
      Obrigada e beijinho!

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  6. Um abraço apertado. Cheio de tudo aquilo de que precisares... <3 (Quem me dera!)

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