Não, não voltamos a ser os mesmos

sexta-feira, maio 27, 2016

De repente, há uma coisa da qual me lembrei: não voltamos a ser os mesmos. Ninguém tem o direito, família, pais, amigos, e até amores clandestinos, de exigir que voltemos a sê-lo. Não vamos chegar nem lá perto. Sinto muito desiludir-vos se era disso que estavam à espera. Se era o "gran finale" pelo qual cruzavam os dedos. Se calhar é altura de se irem despedirem desta que vos escreve...

Por mais caricato que seja, ou que vos possa parecer, descobrimos que não voltamos a ser os mesmos quando um amigo, homem, com idade para ter o que deve ter no devido sítio, nos telefona a lamentar-se porque levou uma injecção no rabo. É aí, no meio dessa conversação emocionante, que descobrimos que a nossa compaixão não estica o suficiente para nos emocionarmos com umas meras nádegas inchadas. E olhem que estou muito, mas mesmo muito, mais sensível do que aquilo que eu era...

Eu não posso exigir ao meu amigo da bunda inchada que se compadeça com as minhas veias partidas, nem com o meu osso ilíaco escavado, nem com a minha coluna vertebral perfurada, mas talvez um dia, ele perceba que o fosso que nos separa foi causado por pura insensibilidade. E não. Não foi (apenas) insensibilidade da parte dele. Foi minha também. Apesar do cliché, (se eles existem é por algum razão, não é?!), "o que não nos mata, torna-nos mais fortes". E com toda a franqueza, mais fortes do que uns e outros.

Há quem tente "comparar", se calhar, inconscientemente, os "seus problemas" aos meus, aos nossos. Incomoda-me que o façam. Não preciso que me perguntem como estou, nem como vão as coisas, nem que digam "que azar, o que te foi acontecer", mas não me venham "tentar" dizer que uma constipação, uma depressão ou uma injecção no rabo dói tanto como um cancro. Eu já os tive e sei que nenhum deles ultrapassa o último. Sei que devemos respeitar a dor de cada um, mas às vezes, esquecem-se, levianamente da força com que cerramos os dentes de forma a acreditar que uma punção lombar nos vai doer tanto quanto uma injecção no rabo. For God's sake! 

De momento não me preocupa nada esta insensibilidade natural que o cancro me deu... afinal é apenas uma nádega. Preocupa-me sim que continuemos a dar importância a coisas sem importância. Sim, a tua nádega não me interessa para nada. Moral da estória.

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6 comments

  1. Uma insensibilidade que tem todo o direito de ser.
    Imagino a sua dor, aliás, não posso imaginar, entendo-a porque a tive em vários membros da minha família.
    Penso muito em si, no que de repente a vida lhe trouxe sem merecer, vejo-a todos os dias, quando me deito, peço pelos meus, peço por si.
    Tenho-a no meu coração e não esqueço aquele agarrar das suas mãos as minhas.
    Não se preocupe com quem não merece um fio só do seu pensamento.
    Pense na luta que trava todos os dias e que vai ganhá-la com todas as forças.
    Palavras tão fortes como as suas, deixam-me sem palavras.
    Um abraço, CC:




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    1. Obrigada Maria! Não sei se ficarei mais ou menos sensível do que aquilo que eu já era, nunca me compadeci muito com problemas secundários, aproveitei a "estória" do amigo para falar daquilo que eu acho que realmente acontecerá: não voltarei a ser a mesma, mas talvez o que vier, venha numa melhor versão ainda! Ps. foi muito bom "abraçar" as suas mãos!

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  2. Gosto da tua frontalidade, devias-lhe ter dito isso mesmo, qual era o problema dele.Enfim há pessoas que não têm um pingo de inteligência.
    Beijinho Cátia

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    1. Eu disse-lhe Nina, até lhe disse pior, chamei-lhe uns nomes, tipo "mariquinhas" e "pareces uma mulher", mas mesmo assim, estava demasiado dorido para reagir :P Beijinhos

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  3. Os homens são, na sua maioria, "mariquinhas".
    Uma simples constipação "ai, estou doente, estou de todo", blá,blá,blá.
    O meu irmão mais novo é um deles, apesar de ser uma pessoa fantástica, qualquer coisinha, está mal.
    Raios!
    Nós vamos buscar forças não sei onde.
    :)

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