O cancro torna-nos mais religiosos?

sábado, maio 28, 2016


Seria hipócrita se vos dissesse que não. Mas atenção, para mim, religião é aquilo que cada um faz depois do sermão. É aquilo que cada um faz ao próximo. É aquilo que quando um faz depois de ouvir o seu pastor. Isso para mim é o que é válido. Fui educada por uma das mulheres mais religiosas que alguma vez conheci, a minha avó materna, de quem as saudades nunca se foram embora. Mas por favor não a confundam com as beatas falsas. A minha avó raras vezes ia à missa, ia quando podia, enervava-se solenemente com a altura do ofertório onde pediam regularmente dinheiro para a igreja e participava muito pouco nas manifestações religiosas da sua freguesia, mas em casa dela rezava-se 3 vezes por dia, lia-se a bíblia sempre que os afazeres domésticos permitiam e quaresma era sinónimo de jejum. A minha avó sempre me comoveu com a sua fé inabalável.

Todos os dias me contava uma estória. Quando lhe faltavam parábolas, inventava-nas ela. O importante é que eu entendesse o que sempre se esforçou por me transmitir: não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti. Uma verdade simples da qual todos os nós nos fomos esquecendo ao longo da vida... A minha avó passou um ano numa cama antes de morrer, e um dia, desesperada como qualquer um estaria, disse-me: Deus abandonou-me. Foram das palavras mais difíceis de ouvir. Não as esqueço. Nunca as esqueci. E sinto-as no peito como as senti naquele dia.

Eu acredito que ela é o meu anjo da guarda. E não deixei de venerar o Deus que ela me apresentou. Falo com Ele quando me apetece, procuro-o quando preciso e acredito que seja tão humano quanto nós. Desde que tenho cancro que tenho-no feito com mais regularidade e não me parece que Ele vá ficar chateado comigo por estar incessantemente a pedir-lhe coisas. Ele não é assim. Pelo menos eu não acredito que seja. A fé é uma coisa muito difícil de definir. E não estou a escrever isto para impor nada a ninguém. Aliás, tenho imensos amigos que não acreditam em Deus... mas acreditam em alguma coisa e o que me parece cada vez mais importante nesta vida é acreditarmos, de facto, em alguma coisa. Seja ela qual for. Seja ele quem for.

Deus tem sido muito generoso comigo, apesar de tudo. E espero que os "Deus" de cada um de vocês também o estejam a ser convosco. E, para além disso tudo, espero que a fé nunca vos falte. A fé move montanhas, e move essencialmente o ser humano, de um lado para o outro. E na maioria das vezes, tudo o que nós precisamos para ir de um lado para o outro é  acreditar que o conseguimos fazer. Não é fácil. Não. É das coisinhas mais complicadas desta vidinha... mas não é impossível. 

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3 comments

  1. "Quando lhe faltavam parábolas, inventava-nas ela"

    Que linda frase. Penso que muitas avós foram grandes mulheres a contar estórias e, quem sabe, também a inventá-las. A minha avó paterna era exemplar nisso.
    Um post que me diz muito, porque também sou das pessoas que acredita em alguém ou alguma coisa.
    E peço-Lhe muitas vezes, muitas, mesmo. Pode não ser só para mim, não sou egoísta a esse ponto, mas para os outros, os que crentes ou não crentes, precisam de quem "olhe" por eles.
    CC, cada vez que a leio, as lágrimas escorrem-me pelo rosto.
    Fico tão sensível com o que escreve, pela sentimento que imprime ao que conta.
    Deus sabe que tem uma jovem forte, sincera, que merece tudo Dele, ou seja lá de quem for.
    Mais um excelente post, mais uma excelente lição.
    Um abraço, CC:

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    1. As avós são na sua maioria mulheres maravilhosas, pelo menos as minhas foram. Mulheres sem medo de dar amor. Eu também quando falo com Ele peço por mim e por várias pessoas que sei que precisam. Não quero que chore Maria...
      Um beijinho enorme!

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  2. Eu choro pelo belo, pelo triste, pelo que leio, pelo que ouço, pelo que vejo. Enfim, choro por tudo e por nada.
    Esteja tranquila.
    Chorar limpam os olhos e a alma.
    Beijinho

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