Quando é que isto acaba?

segunda-feira, maio 02, 2016


Havia de chegar o dia. Havia de chegar o dia em que eu, por mais que o "amarrasse" dentro de mim, o teria que deixar fugir. Em silêncio. Cheia de raiva. E cheia de vergonha. Não tenho direito... mas, na última semana, a que marcou oficialmente a passagem p'ra lá do meio do tratamento, também não tive paciência. A quimio levou-me tudo. Até a resiliência. Chateia-me muito não ter paciência (não me dá nada jeito entregar-me aos desesperos quotidianos próprios de quem vive com um cancro). Não imaginam como me chateia... Mas, quando é que isto acaba? Quando é que acabam as idas diárias ao hospital, os internamentos esperados e inesperados, as picadas (a porra das picadas), as análises, as quimios... Quando? Quando é que se acabam as incertezas, as ansiedades, os sorrisos amarelos, (os que me vejo forçada a fazer) e as perguntas da praxe: "como é que estás"?

Ora, estou com vontade de mandar tudo à merda (na verdade é a frase que melhor exprime como me sinto). Mas não posso. Quando chego ao hospital e vejo alguém que já lá está há mais tempo do que eu, volto a "amarrar a burra" bem amarradinha. A vontade de mandar tudo à merda continua dentro de mim, mas não me permito dizê-lo. Por respeito. Por compaixão. Por admiração também. Se calhar essas pessoas também querem mandar tudo à merda como eu, mas não o fazem. É uma espécie de código de honra (que nós, "amigos dos Capuchos", sabemos bem como funciona). Não se pode dizer a uma mãe: "deixa-me", quando nos apetece ficar 5 minutos sozinha. Não sei explicar-vos, mas não se pode.

A última semana coincidiu também com a comemoração dos meus 32 anos. Para quem segue o blogue há pouco tempo, há um texto sobre os 31 que eu acho que vocês todos deviam ler, "Isto é que foi um 31!". Basicamente fala sobre uma mulher que desceu aos infernos e regressou a si. Ai quem será?! Ai quem será?! Não vou dizer que os 32 são um remake desse filme porque não são. Apesar de me apetecer mandar tudo à merda, não confundam isso com revolta. Não estou revoltada, estou cansada. É bem diferente. Não é fácil fazer anos sem cabelo. Achavam que era? Não é. Sem sobrancelhas. Sem forças. Sem vontade para comer. Cheia de dores de cabeça. Cheia de dores no corpo. Cheia de dores na alma e no peito. A quimio, deixou-me KO, com a sensação de ter sido atropelada por um camião TIR, várias vezes. Não chorei. Pr'a quê?! Mas também não me conseguir rir. E é esta dormência, entre um lado e o outro, aquela em que se vive.

Dias antes do meu aniversário recebi esta foto que uma colega me enviou. Eu teimo em dizer que não sou saudosista e que não me quero transformar numa "velha do Restelo", mas caramba, Pimpas, fizeste-me querer recuar no tempo à velocidade da luz. Já lá vão 8 anos, certo? Fizeste-me querer "roubar" a vida da qual essa menina da foto parece ser dona. A serenidade que encerra em si. A felicidade que lhe sai dos poros. A confiança de que está a viver o momento certo. Como é que eu já pude ser assim?! Sabes responder-me?

Para que fique claro, mais uma vez, não foi o cancro quem me tirou essas coisas todas que eu gostava de voltar a ter, (quer dizer, o cabelo e as sobrancelhas talvez tenha sido mesmo obra dele). A grande responsável fui eu e o que eu deixei que a vida fizesse comigo. Mas uma coisa vos digo, são 32, mas 32 muito bem preenchidos. Fiz um bocadinho de tudo aquilo que queria fazer, e quando se faz um bocadinho de tudo aquilo que se quer fazer só se pode ser uma pessoa de muita sorte. E também vos posso dizer que fiz muita coisa sem saber se seria o certo. Dei muitos passos no escuro. Tremeliquei, oh se tremeliquei. Mas fiz. E essa é outra coisa da qual eu sei que sou dona, de uma coragem pequenina capaz de me levar até onde eu quero ir. Quando é que isto acaba?! Tenho coisas para fazer.

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10 comments

  1. Pimpas, gostava de ter respostas mas só tenho sentimentos que me fazem agir...quando te enviei essa foto foi com a finalidade de te recordar quem ÉS...Esta pessoa da foto és tu...
    Tal como tu tens partilhado aqui, todos os dias vais sentindo coisas novas e questionando outras tantas...e nós, amigos, família, conhecidos ou menos conhecidos...também estamos todos os dias a aprender a lidar com estas novas emoções e situações que estamos a viver e a sentir contigo...
    Falo por mim...todos os dias penso no sentido de tudo, todos os dias tento reorganizar a minha cabeça sobre tudo o que deves estar a sentir, sobre o porquê a ti, sobre o que te dizer, sobre o que não dizer, sobre o que sentir ou demostrar, como te ajudar ou simplesmente como estar contigo. Não quero só dizer-te que estou ao teu lado para tudo, que gosto de ti até à Lua, que vai correr tudo bem,...quero também fazer com que nunca mas nunca mesmo te esqueças de quem ÉS....
    Quando estava contigo só pensava como é que a minha Pimpas tem tanta força, onde é que vai buscar esta aceitação!?...e se queres que seja sincera, dei por mim a sentir-me estranha a olhar para ti, porque não percebia o que sentia...fazia-me confusão o que sentia ao olhar para ti e algumas vezes tive receio do que te tinha dito ou se devia ter dito mais 'ais' ou 'uis'...
    Até que numa destas noites fui recordar fotos nossas, para me perceber...e foi quando percebi o que estava a sentir de errado...estava presa a esta nova imagem passageira que me fazia não reconhecer a minha a verdadeira Pimpas...E TUDO MUDOU...No dia dos teus anos, finalmente estive contigo assim como és e sempre fostes.
    Perdi o medo de te dizer o que sinto, o que penso, o que estou a sentir...porque és a minha Cátia, não és uma doente que está careca, sem sobrancelhas e com mais uma série de maleitas, és TU. A pessoa forte e corajosa e lutadora que sempre conheci e não digo isto porque tens um cancro, digo porque sempre senti e reconheci estas qualidades em ti, sempre foram qualidades que me fizeram gostar de ti como Amiga...ir à l luta, não parar, querer, nunca baixar braços e sonhar, sonhar, sonhar sempre de forma muito realista...quando às vezes o mundo parecia estar fechado para obras em termos de sonhos ;)
    Estivemos uma vezes mais perto umas mais distantes mas sou assim no Amor...é para toda a vida, perto ou longe. :)
    Com esta foto finalmente encontrei a tranquilidade, porque te reencontrei. Porque esta és tu é tudo o que representas.
    Luta, chora, grita, diz que não queres mais, diz que não gostas, diz não me chateiem, diz deixem-me estar, diz que te dói muito, diz tudo o que te apetecer...mas lembra-te sempre que é a Cátia Carvalho da foto que te permite estares a lutar assim sem baixar os braços...não a imagem que tens neste momento.
    Laviu daqui até à Lua!
    P.S - Odeio mesmo escrever, só tu para me fazeres escrever...para a próxima faço banda desenhada ;) ;)

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    1. Para a próxima podes fazer uma tatuagem em forma de resposta :P

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    2. E escreves tão bem, Pimpocas!

      Um abraço apertado, Cátia. <3 Faço minhas as palavras da Pimpas. Pelo menos aquelas que posso fazer... :)

      E sigo contigo. De outra maneira, sim... Mas sigo! Sempre. :)

      (PS: Quem ler isto deve mesmo ficar muito confuso. «Mas afinal qual delas é a Pimpas?»)

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  2. Cátia, parabéns pelo teu aniversário! :)
    Só te "conheci" agora, é certo, mas vejo em ti uma pessoa forte, que sabe o que quer. Sinto que queres sair vencedora desta batalha e isso é o que importa. O resto são peanuts.
    Compreendo que tenhas momentos mais "down" e é normal que os tenhas. A vida também tem dessas coisas. Mas se não fossem esses momentos, como irias conseguir valorizar os outros?! Não ias. Portanto, principalmente agora nesta fase que estás (infelizmente), podes permitir-te ficar sozinha, pedir que saiam, mas depois renascer com mais força para novas conquistas. Todos te vão compreender. Não é fácil o que estás a passar. Só os melhores soldados conseguem lidar com isso. Eu acredito em ti e que vais dar a volta por cima. Acredita que a menina da foto (que por sinal é giríssima!) vai voltar ainda mais segura de si e mais corajosa do que alguma vez tu soubeste ser. Força querida! Vou falar de ti ao Sr. Santo Cristo dos Milagres... ;) Um beijinho com roqueiras e tudo! ;)

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    1. Oh Vera, obrigada pelas tuas palavras tão reconfortantes.
      Toda a gente me diz que eu tenho sido uma lutadora, uma guerreira, mas sabes, não sinto que faça nada de especial para ter esse mérito. Simplesmente aceito e aguento aquilo que posso. Eu também falei com o Sr. Santo Cristo dos Milagres... pode ser que a gente se encontre em São Miguem em breve. Um beijinho grande no coração!

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    2. Quero muito conhecer-te pessoalmente! No dia que cá vieres, além do Sr. Santo Cristo dos Milagres, espero que me vejas a mim também! ;) Cá estarei para te receber! :) Beijinhos com muita força!

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  3. "E essa é outra coisa da qual eu sei que sou dona, de uma coragem pequenina capaz de me levar até onde eu quero ir."

    E vai lá chegar, Cátia.
    Tem muitas amigas que pedem por si.
    Um abraço.

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    1. Espero que sim, espero, ansiosamente, que sim.
      Beijinho para si :)

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  4. Muita força... as tuas palavras fazem-me viajar para há uns anos atrás, quando foi como a minha avó. Sei bem reconhecer como toda esta fase é tão pesada física e emocionalmente e difícil. Mas por seres uma mulher forte e resistente irás ultrapassar esta doença e ficarás orgulhosa de tudo o que conseguiste. Estamos todas a torcer por ti!

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    1. De facto, é uma viagem extenuante, mas espero chegar a bom porto.
      Obrigada pela mensagem e pelo carinho.
      Beijinhos :)

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