#vamos matar o bicho

Meia Laranja

quinta-feira, junho 30, 2016

As relações que não foram boas nem foram más são as piores. As mais difíceis. Quando o dia a dia, a dois, não é suficientemente mau para se desistir, nem suficientemente bom para se continuar, as relações engolem-nos. Entopem-nos. Paralisam-nos. E começam, inexoravelmente, a destruir-nos. Os meios termos são bons, mas nunca para as relações.

A gente foge. (fugir é a saída mais prática, não a mais fácil). E na tentativa da fuga espera encontrar a paz que tanto procura... Mas os dias que não foram bons, nem foram maus continuam a prevalecer sobre as nossas cabeças. Há coisas que por mais que a gente as queira encerrar, a vida arranja sempre uma maneira, na maioria das vezes bastante irónica, de nos colocar de novo, frente a frente com elas. 

Perdoar os outros por aquilo que eles nos fizeram, ou por aquilo que eles não nos fizeram é muito duro... Mas, perdoar-nos, a nós, é mais doloroso. Esquecermos que não fomos suficientes, nem tão pouco perfeitos, é angustiante... Muito mais do que viver com um cancro. É por isso que a gente se afasta. É por isso que a gente foge. Para evitar, sobretudo, continuar a viver a dor que a insuficiência causa.

Geralmente, não perdoamos o outro porque queríamos que ele tivesse sido tão forte como nós fomos. Não perdoamos, mas não deixamos de amar. E não nos perdoamos porque ainda o amamos. E amar, neste caso, é querer ter a certeza de que o outro, para quem não conseguimos ser tudo, encontra a completude que lhe falta. Em alguma coisa. Em alguém. Em si próprio.

É difícil perdoar quando as pessoas não são robustas como nós. Quando não aguentam como nós. Quando não defendem como nós. Quando não atacam como nós. Quando não funcionam como nós. Pelo menos a mim, é-me muito difícil tolerar robustezes diferentes... Ser-se robusto não implica ser-se rígido, mas raras vezes consigo separar uma coisa da outra. A inflexibilidade não é uma virtude, antes pelo contrário, é uma dor de cabeça que torna mais difíceis as relações que já são difíceis.

As relações que não foram boas nem foram más consomem-nos. Esvaziam-nos. E infelizmente, enfraquecem-nos. E por isso, e por tantas outras coisas, eu pergunto-me: querer que o outro encontre, e rápido, a sua completude, a sua meia-laranja, não será por si só uma forma de perdoá-lo? De me perdoar? De nos perdoar a ambos por todas as falhas e por todos os erros? Provavelmente sim. Querer a felicidade do outro, de uma forma urgente, mais urgente do que nossa, é uma forma de perdão. Das mais bonitas. E eventualmente, das mais cobardes também. Mas se entre os dois, um de nós for feliz, ainda que seja com outra pessoa, isso já é mais do que suficiente.

#vamos matar o bicho

Do 38 ao 44

quarta-feira, junho 29, 2016


Para além do jornalismo e da comunicação, a moda sempre foi uma das minhas grandes paixões, foi por isso, e não só, que a dada altura da minha vida me pus a vender cuecas e soutiens. Esta experiência que durou mais do que o devido, (3 anos), ensinou-me imensas coisas... Trabalhar com público, particularmente com mulheres, é a melhor escola da vida. Se tivesse ficado em Espanha, (vivi lá entre 2007 e 2009), acredito que tinha conseguido juntar ambas as coisas, tornando-me efectivamente uma jornalista de moda, como eu queria. Em Portugal, a moda, está pelas ruas da amargura, sempre esteve. 

A loja onde trabalhei era muito procurada por mulheres que não encaixavam exactamente nas medidas padrão 86-60-86. Eu também nunca encaixei, (ah, bendita genética!), e isso nunca foi um grande problema para mim. Nunca deixei de poder fazer aquilo que sempre quis só por ter uns quilos a mais... E os mundos profissionais por onde me movi sempre valorizaram em demasia a imagem. Modéstia à parte, acho que consegui impor o meu talento, (e o meu conteúdo), como assinatura da minha personalidade. E juntamente com eles, entraram em cena as minhas curvas também. Embora às vezes me pergunte: porque é que as mulheres com curvas, e com quilos a mais, só têm papeis secundários nas telenovelas portuguesas? É uma constatação. Muito óbvia.

Durante esta experiência ouvi centenas de mulheres perfeitas queixarem-se sobre o seu corpo e por causa disso aprendi a relativizar as pequenas imperfeições que me incomodavam. Com o cancro esqueci-me um bocadinho disso. Pediram-me para não emagrecer, (o nutricionista do hospital), e eu tenho tido muito êxito na concretização desse objectivo. É uma mudança brusca, num curto espaço de tempo. É difícil assimilar, mas é perfeitamente passível de aceitar. Eu, que sempre defendi as curvas femininas, achei que me estava a comportar como os hipócritas se comportam. Estava a bater de frente com o que sempre perpetuei nos meus textos. Somos sempre muito mais bem sucedidos na teoria do que na prática, não é verdade?

Então perguntei-me a mim própria: será que não és capaz de amar o corpo que tens agora? E se for o corpo com o qual terás de viver daqui p'ra frente, o que é que vais fazer? Não é só um corpo com uns quilos a mais. É um corpo cheio de marcas. Cicatrizes. Manchas. Embora continue a ser o meu corpo. E se calhar, é isso que me define e me torna especial. Os quilos a mais. As marcas. As cicatrizes. As manchas. Eu não posso ser a primeira a atirar pedras. Eu não posso tornar-me numa daquelas mulheres que iam à loja. "Jamé", como dizia o outro. Eu não sou assim. Eu nunca fui assim.

E já que falámos em moda, em lojas, em cuecas e soutiens... Há todo uma indústria que vive à custa da(s) insegurança(s) feminina(s). É soluções milagrosas para emagrecer. É cintas modeladoras para esconder os pneus. É comida calórica que não engorda. É máquinas que prometem fazer desaparecer a celulite numa sessão. Será que essas pessoas se preocupam verdadeiramente com as mulheres? Pensem nisso.

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Aos meus filhos

terça-feira, junho 28, 2016

Quando estava a escrever o post de ontem, entre as muitas coisas que (ainda) quero fazer coloquei a frase: "ter uma criança" e a seguir apaguei-a. Apaguei-a por várias razões. Primeiro, porque não sei efectivamente se quero mesmo ter uma criança. Segundo, porque se quiser, não sei se consigo... pelo menos pela via biológica (as mulheres que se submetem a tratamentos de quimioterapia como eu correm o risco de ficarem inférteis).  

Já escrevi muito sobre isto, e já fui, da mesma forma, muito criticada pelo mesmo. Eu nunca senti o meu relógio biológico, (continuo sem senti-lo), mas quando a vida nos coloca perante determinadas situações, como esta, a de não poder vir a ter filhos, não há como não pensar justamente nisso. Eu acho que nunca senti o meu relógio biológico "soar" porque também nunca desejei que "os meus filhos" crescessem em Lisboa. É essa a verdade mais sincera. Eu sempre desejei que "os meus filhos" tivessem uma infância como eu tive... E que fossem poupados ao desassossego das grandes cidades.

A minha infância foi passada na Casa da Ribeira, essa grande freguesia pr'a lá do sol posto onde fui tão feliz. A felicidade naquela altura era uma coisa muito fácil de se conseguir. Vestia-me de princesa sete dias por semana... Uma princesa que andava de burro e que tinha, obrigatoriamente, de apanhar erva d´água, junto à ribeira, para alimentar as galinhas. Uma princesa que comia pão caseiro, acabado de coser num forno de lenha, e que se entretinha com cozinhados de terra e água. Uma princesa que passava o tempo a andar de baloiço, a caçar borboletas, a fugir das abelhas e a namorar os animais que faziam parte do dia a dia da casa da avó.

Era isto que eu queria, e talvez ainda queira, para "os meus filhos". Queria que fossem felizes e fazer deles crianças felizes nunca passou por uma ida ao McDonald's. Desculpem. A ideia de felicidade que eu sempre tive para "os meus filhos" passava, e talvez passe, por vê-los correr nos cerrados, sujos de merda de vaca. Regressar à Terceira trouxe-me de volta a paz das coisas simples. E quem sabe se esse não foi o primeiro passo que eu dei para permitir-me sentir o meu relógio biológico? Se algum dia me virem com uma criança pela mão, suja, (e cheia de merda de vaca) não me critiquem. Estamos simplesmente a aprender a ser felizes.

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Coisas que eu (ainda) quero fazer

segunda-feira, junho 27, 2016

Subir o Pico (shame on me que ainda não o fiz). Tatuar-me outra vez. Várias vezes.  Aterrar na Terceira, no cockpit de um avião, sem ter um ataque do coração. Aprender dança do ventre e abanar a anca como a Shakira. Aprender danças de salão (cavalheiros da Terceira lança-se o apelo oficial para encontrar um par para esta menina). Aprender a jogar ténis (Cátia Goulart comprei uma raquete por causa de ti, trouxe-a para Lisboa e nunca fomos jogar... Devia pedir-te uma indemnização [com juros]). Aprender a fazer couscous sem ficar colado ao tacho. 

Experimentar stand up paddle. Participar numa vindima (naquela parte gira em que pisamos uvas com os pés). Voltar a Valencia onde fui tão feliz... Assistir a um concerto da Tina Turner (acho que isso já não vai ser possível, pois não?) Ok, assistir a um concerto do "rei" então, pode ser? Eu admito, eu tenho um lado popular que vocês não conhecem. Já agora, o "rei" não é o Tony Carreira, é o Roberto Carlos. 

Passar uma noitada, uma vez mais, num karaoke imundo, no Bairro Alto (aonde nunca fui contigo Sandra Soares... Levo-te só para me envergonhares, ok?). Aprender a correr sem ficar com a língua de fora. Correr, efectivamente. Nadar "en pelota" (ups, esqueci-me que os amigos dos meus pais agora lêem o blogue). Ter um peixe como animal de estimação e não deixá-lo morrer no primeiro mês. Escrever um livro. E já agora, plantar uma árvore, que vingue, no meu quintal (todas as tentativas anteriores não foram bem sucedidas).

Aprender a coser botões. E a fazer bainhas. Ia dar jeito. Muito jeito. Aprender a engomar roupa sem queimar os dedos. Experimentar uma aula da Yôga. Conseguir maquilhar-me sem parecer que é Carnaval. Tornar-me presidente da região autónoma dos Açores (estou a brincar! detesto política!). Comprar uma bicicleta. Com cesto e campainha. Ter um encontro com as amigas, sem falar em mamas (pode ser Madalena, Milene, Raquel, Cláudia, Anas, Inês, Ângela e Andreia?). Escrever uma telenovela para a TVI (estou a falar a sério, não se riam!). Escrever uma telenovela para a Globo (deixem estar, eu rio-me de mim própria). Ser capa da Cristina (bom, esta se calhar passo, não me interessa muito).

Participar num rally. Vá, num troço do rally. Aprender a fazer cocktails. Aprender a fazer alcatra (na eventualidade de alguém me pedir o prato regional da Terceira). Voluntariado. Criar uma associação eventualmente. Aprender a vestir collants sem os rasgar. Agradecer a toda a gente que tenho para agradecer. Aprender a fazer contas sem calculadora. Aprender a perdoar (oh coisa difícil!). Aprender violino. Ou acordeão. Aprender a fazer nós de gravata... Bom é tudo por agora. Mas ainda há mais. Muito mais. Se prepare vida que eu vou-lhe usar!

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Serei bipolar?

domingo, junho 26, 2016

Perguntou-me ela com o sotaque alentejano bem carregado. "Choro de manhã e canto à tarde". A Beatriz é das pessoas que melhor sabe brincar com o cancro. Foi ela, a senhora professora reformada, que me ensinou que a contagem decrescente dos nossos tratamentos é, de facto, muito importante. E porquê? Porque termina, exactamente, no dedo do meio de uma mão... As coisas que se aprendem com os colegas de quarto, já viram bem?!

Devia-lhe um texto e algumas palavras. Não que ela mo tenha pedido, mas sim porque eu quero, e sobretudo porque não é fácil passarmos por isto sem parecermos uns maluquinhos. Eu própria tenho os meus momentos "salt and pepper"... Ora dou por mim a chorar, compulsivamente, ora dou por mim a rir até chorar. Estas oscilações não fazem de nós seres bipolares. Fazem de nós seres humanos. Apenas isso.

O mundo foi concebido de uma forma muito estranha, cheio de ditames e de pro-formas sobre o comportamento humano... mas nada disso é válido quando se enfrenta uma doença como o cancro. E ainda bem. Por vezes, somos infelizes à custa de não sermos mais vezes bipolares. Não concordam? 

Desculpem insistir, mas devíamos fazer mais vezes aquilo que a nossa consciência nos manda fazer. Devíamos seguir os nossos instintos. Devíamos deixar de nos preocupar tanto com aquilo que os outros pensam. Devemos seguir as nossas regras, desde que elas nos façam felizes, e nos deixem dormir à noite, com o espírito, tranquilo. E devemos, querer-nos, mais humanos e menos super-heróis. 

Eu farto-me de chorar, aliás não há dia em que não deite uma lagrimita pelo canto do olho, mas ainda ontem, dei por mim, no duche, a cantar uma versão original minha do "Como uma força" da Nelly Furtado. Bipolar?! Nãaooo... no mínimo louca. Amanhã, se calhar, ainda vou ao Waka Waka da Shakira... nunca se sabe. Mas sabem que mais? A loucura não é assim tão má... É quando ela aparece que descobrimos que estamos a melhorar. Pelo menos por dentro.

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Coisas boas da vida

sábado, junho 25, 2016


Andar de pés descalços sob a relva. Andar de pés descalços na areia. Andar de pés descalços. Cantar, desafinada, no duche. Bem desafinada. Adormecer enrolada na toalha (ainda molhada). A meio da tarde. Acordar, todos os dias, com o som do galo e não com o despertador. Ficar mais cinco minutos na cama. Tomar um pequeno-almoço demorado (com pão caseiro quente). Lamber as tampas dos iogurtes. E os dedos também.

Mergulhar. De preferência, no mar dos Açores. Sentir o sabor do sal na pele. Ficar na praia até ao lusco-fusco. Contar as estrelas do céu. Pedir desejos. Rir-se dos mesmos desejos. Beijar alguém. Fazer promessas descabidas. Rir-se das mesmas promessas. Abraçar. Abraçar muito. Adormecer acompanhado e não sozinho. Apaixonar-se. Várias vezes. Por várias coisas. E pela mesma pessoa.

Tirar fotografias ao desbarato com máquinas de rolo antigas. Esperar pela revelação. Esperar pela festa e pelo bailarico. Conduzir. De janela aberta, entre o verde, o verde e o verde. Fazer um pic-nic, improvisado, à beira da estrada. Andar à chuva. Beijos. Muitos beijos. Milhares de beijos.

Passeios sem destino. Escrever um postal. Uma carta. Um poema. Abrir o álbum de fotografias. Rir com as fotografias do álbum de fotografias. Ficar com dores de barriga de rir tanto. Preparar uma surpresa. Sentir o coração bater mais acelerado do que o do surpreendido. Cozinhar. Com amor. Dançar (como se ninguém nos estivesse a ver). 

Retribuir sorrisos. Por tudo e por nada. Celebrar a vida ao minuto. Conversar. Com amigos. Ou com desconhecidos. Esquecer-se das horas (quando as conversas estão boas). Beber uma cerveja fresquinha. Dizer "aaaaahhhh" a seguir. Comer araçás, acabados de apanhar. Caçar pirilampos (isso é possível?). Fazer anos e celebrar. Comer sem engordar. Despertar o lado bom das pessoas. Elogiar o que é preciso ser elogiado. 

Ler. Viajar por entre os livros. Viajar. Rever velhos amigos. Fazer novos amigos. Voltar aos lugares onde fomos felizes. Voltar a ser feliz. Saber perdoar ou aprender a perdoar. Dizer a verdade e nada mais do que a verdade. Seguir em frente sem olhar para trás. Olhar para trás sem rancor. Alimentar. O corpo. E a mente. Viver com fé.

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Às vezes esqueço-me das coisas que escrevo

sexta-feira, junho 24, 2016

Mas não devia! Não tenho por hábito ir ler o que é muito antigo, mas devia! (já estou como a outra, essa grande senhora que disse: "você sabe que eu sei que você sabe que eu sei"). Passo a citar-me a mim própria: "Coisas que me levam a escrever: a paixão pela escrita sem dúvida. Foi um feliz reencontro ter criado este blogue. Recordou-me porque é que um dia eu quis escrever a vida inteira". E basicamente é isto. Ou melhor, tentar não me esquecer disto. Para mim, um dos maiores efeitos secundários da quimioterapia é a pré-amnésia, embora os médicos afirmem que isso é um sentimento psicológico. E até deve ser... Uma pessoa doente acredita muito facilmente na inutilidade em que se transforma (mas não devia!).

E portanto, cheguei à conclusão, (se calhar um bocadinho tardia), de que é super importante mantermo-nos ocupados durante todo o processo de tratamento, de preferência a fazer aquilo de que se gosta muito (até parece que descobri a pólvora, mas sabem, às vezes, estas coisas não são lá muito evidentes para quem tem a cabeça cheia de minhoca). Como em tudo na vida, uma pessoa precisa bater no fundo para vir ao de cima. O que não podemos de forma alguma é ancorar lá por baixo... Em teoria faltam-me 3 tratamentos de quimioterapia para terminar o protocolo inicial definido pelos médicos, mas nesta fase final os meus glóbulos brancos estão "deveras" preguiçosos. Os 3 tratamentos que faltam parecem 100. A minha psicóloga mandou-me trabalhar. Disse que essa era uma das formas mais eficazes de ocupar a cabeça (e não pensar em tolices). Respondi-lhe "mas eu estou doente", ao que ela ripostou: "isso é apenas uma desculpa".

É verdade. É uma desculpa. É uma desculpa para não fazer aquilo de que eu gosto muito. Porque é que nós temos tanto medo de experimentar aquilo de que se gosta? Só encontro uma resposta possível: não o fazemos porque temos um medo terrível de sofrer (embora a sofrer já esteja eu). É mais ou menos a mesma coisa que se passa com as paixões... Não nos entregamos nem as vivemos como deveria ser porque a primeira coisa em que pensamos é "caraças, vou meter-me numa grande alhada outra vez". Não é assim camaradas?! Quando se descobre que se tem uma doença que nos coloca frente a frente com a morte, temos tendência a petrificar e a deixar tudo em stand-by, mas a verdade é que a vida continua. E enquanto há vida, há esperança. Não nos podemos esquecer da nossa essência. Ela está lá, mesmo que não a vejamos. Graças a Deus tenho pessoas que me lembram disso todos os dias: "és mais do que o cancro". E era isso que eu queria dizer hoje, em especial aos que estão a passar pelo mesmo. Somos mais fortes do aquilo que nos quer matar (por mais que nos custe a acreditar).

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"Não sou capaz de voltar a fazer isto"

quinta-feira, junho 23, 2016

Dizia-me uma "colega" ontem enquanto aguardávamos ambas pela consulta... O "não sou capaz de voltar a fazer isto" refere-se a um momento epifânico que ela teve enquanto estava parada no trânsito, na ponte 25 de Abril. Questionou-se se efectivamente seria capaz de voltar à vida que tinha antes do cancro e a resposta parece óbvia: não. Acho que a tendência da generalidade das pessoas, independentemente de se estar doente ou não, é a de questionar as respectivas escolhas quando se vive um período de sofrimento alargado. Por vezes, a dúvida, e o mal-estar que ela traz consigo, dá cabo de nós, e acaba por derrubar, sem hesitações, o melhor que o nosso organismo tem: as defesas!

Recentemente fui visitar a psicóloga que me acompanhou antes de deixar Lisboa (sim, deixar Lisboa foi um processo difícil para o qual eu recrutei muitos profissionais). A minha mãe diz que eu fui ao médico. Ir ao psicólogo continua a ser um tabu para ela. Apesar de poder usufruir destes serviços gratuitamente, através do hospital, eu decidi ir a um profissional que já me conhecia. Achei que fazia mais sentido. E no fundo, confesso, tinha algumas saudades de conversar com ela. Ela acabou por confirmar o que muita gente me diz, que depois de submetermos o nosso corpo a um grande período de stress, é mais do que normal que as doenças apareçam. E como diz uma amiga minha, e bem, eu tenho a mania que uso as cuecas por cima das calças por isso nunca me deixei ir nessa conversa, mas agora, depois de alguém acreditado tê-lo dito (oh feitiozinho ruim este de nunca crer em nada) começo a acreditar muito nela...

Vivi um ano tão complicado antes de ir para casa que o meu corpo entrou em burn out. É por isso que decidi escrever isto. Não vale a pena gastarem energias à toa, eles vão fazer-vos falta um dia. Uma vez li isto em algum lado, "não se entregue demasiado ao trabalho, um dia, quando você adoecer, quem é que vai cuidar de si? o trabalho ou os seus amigos?" Quem me dera ter tido estas evidências todas o ano passado. Eu desgastei-me. Eu não soube como proteger-me física e psicologicamente. Eu sou a única culpada por não ter cuidado de mim. Não quero afligir-vos com a ideia de que o stress vos vai trazer de brinde um cancro, não é assim tão linear quanto isso, mas quero avisar-vos de que ser feliz é uma forma de ser saudável... e normalmente esquecemo-nos disso. Esquecemo-nos de incluir a felicidade dentro do pacote todo. 

A maioria dos "colegas" que estão a passar pelo mesmo não querem voltar tão cedo às suas rotinas habituais. Querem, obviamente, voltar às suas vidas, mas querem acima de tudo tempo e satisfação. Aprende-se muito com esta doença. Aprende-se que se pode estar tão satisfeito com um dia de sol como com uma promoção. Mas agora pergunto eu: para sermos promovidos quantos dias de sol tivemos de deixar para trás? Eu não sei de vocês, mas sei de mim. Deixei muitos e acreditem, nem foi à procura de uma promoção, antes pelo contrário. Uma vez tive uma conversa muito interessante com uma médica. Ela confidenciou-me: "é um erro trabalhar a vida inteira para construir uma carreira. Uma carreira é uma ilusão. Hoje em dia ninguém faz carreira". É completamente verdade. Hoje em dia ninguém faz carreira. 

Andamos todos perdidos. É aquilo que eu penso. Os piores vícios da sociedade moderna trocaram-nos as voltas. Antigamente pouca gente se preocupava com uma carreira. Preocupavam-se em ter comida na mesa, e quando isso acontecia, era motivo de festa. Hoje em dia, nem sequer temos tempo para comer, quanto mais para estar à mesa. Será isso a felicidade? Eu acredito que não.

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A primeira coisa que o cancro me fez tolerar

domingo, junho 19, 2016

Erros ortográficos e/ou gramaticais. Parece ridículo, certo?! Estavam à espera de uma coisa bombástica, não estavam? Um bocadinho mais complexa, não? É no mínimo estranho. Eu sei. Mas é a verdade. E vocês sabem como é, ou melhor como sou, eu nunca consigo mentir. É um defeito de fabrico. Gigante. Mentir dá muito jeito no mundo de hoje em dia, eu é que nunca tive muito jeito para isso. Eu não sou uma purista da língua portuguesa, muito menos uma grande jornalista. Gosto muito pouco de elitismos. E ainda menos de faltas de humildade hipócritas. Eu gosto de contar estórias e também cometo erros quando as conto, mas vocês não imaginam o nervoso miudinho que me dá, ou melhor, que me dava, quando recebia mensagens com erros... Baixava-se-me logo o oxigénio no sangue, logo, logo.

E já que estamos numa onda de confissões, lamento admitir que apesar de tudo, ainda não consigo "levar" com pessoas que têm tendência a mastigar pastilha elástica, de boca aberta, perto de mim. Manias. Todos nós as temos. Deve ser da quimio... é muito "veneno" dentro de mim (e ele tem de ser expurgado por algum lado... ainda bem que não é expurgado a "envenenar" outras pessoas)! Em todo o caso, e na generalidade dos factos, acho que o cancro nos faz tolerar menos coisas. Isto hoje está um bocado complicado para me expressar... Peço perdão, mas estou sem medicação há uns dias para ver se os glóbulos brancos finalmente sobem. O que eu quero dizer é que não estou certa que fique mais tolerante depois disto. 

Ora voltemos lá aos erros ortográficos. Com a quantidade de mensagens com que uma pessoa é "abalroada" inicialmente, têm-se que perdoar as muitas "forcas" que nos enviam, entre outras coisas mais graves (bom, uma forca para quem tem cancro já é suficientemente grave, não acham?). Obviamente que estou a aproveitar-me da realidade para brincar com ela, mas muito honestamente, o cancro ensinou-me a aceitar erro ortográfico por erro ortográfico. São meros erros ortográficos. Não são erros intencionais e isso é o que importa. O amor e a preocupação não se medem por aí (e ainda bem que não). Seria o apocalipse se assim fosse. Ainda bem que me fez perder esta mania terrível... Oxalá me fizesse perder outras que (também) não fazem grande falta.

O que faz falta é mais amor. É isso. Tá dito. Ou melhor escrito. 
Isto hoje estava difícil...

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O que fica não é menos importante do que foi

quinta-feira, junho 16, 2016

Por estes dias comemoro um ano de "solteirice" (tenho dúvidas se se pode comemorar a solteirice, mas pronto, agora fica assim). Não vos digo isto com intenções de pôr a cabeça a prémio. Valha-me Deus! Estou bem assim, obrigada. Aliás foi por opção própria que decidi ficar "sozinha" (um sinónimo bastante menos elegante para indicar o estado civil próprio). Bom, foi por opção própria, claro que foi, depois de inúmeras tentativas frustradas que demonstraram com a exactidão de uma equação matemática que a relação onde eu estava não funcionava de todo. Não se deve desistir das coisas com leviandade, mas também não se deve insistir em sofrimento. 

Foi quando fiquei solteira que decidi despedir-me, (sim ainda há gente corajosa neste mundo! ou louca...nunca se consegue distinguir muito bem uma coisa da outra), e regressar a casa, aos Açores. Mas antes de ficar solteira já eu queria despedir-me (e há muito). A minha relação com a organização à qual eu pertencia foi como a relação amorosa que eu tinha, uma pessoa foi aguentando, aguentando, aguentando, até que um dia mandei tudo ao ar. E às vezes é preciso. Quantas vezes não precisamos todos de começar de novo? Nunca me arrependi das minhas escolhas, só me arrependo de não as ter feito mais cedo. E agora, que estou doente, percebo cada vez melhor esta necessidade, urgente, de seguirmos o nosso caminho independentemente das coisas que temos de deixar para trás.

Um dos conselhos que me deram um dia em relação às relações amorosas consistia nisto: "nunca vão para a cama chateados". Nunca mais me esqueci. E confesso, tentei pô-lo em prática, em vários namoros (que não foram assim tantos). Em algumas noites fui, ou melhor, fomos bem sucedidos, noutras, adormecemos na posição de retaliação, rabo com rabo, até o pequeno-almoço da manhã seguinte acabar com as trombas de cada um. O amor é uma coisa complicada para não utilizar outros adjectivos menos próprios.

Ainda assim desistir de uma relação amorosa não implica desistir da pessoa com quem estivemos nessa relação. É difícil separar as águas, mas é possível. Há um tempo em que todos nós nos precisamos de regenerar, e às vezes, acompanhados, não conseguimos fazer isso, eu pelo menos preciso de me recolher para estabilizar de novo o coração (ainda mais agora que o oxigénio leva séculos para lá chegar!). 

O que eu queria mesmo dizer é que amei muito, e continuo a amar, as pessoas que escolhi para tentar fazer com as coisas dessem certo. E é importante que também aprendamos a conservar esse amor. Dei o melhor e o pior de mim. E não soube fazê-lo de outra forma, a não ser da forma que me caracteriza. Já não acredito que alguém irrompa pela pista do aeroporto dentro e se atravesse à frente do avião para não me deixar partir, (até porque agora a segurança dos aeroportos é bastante renhida). Não se riam, ou melhor riam-se à vontade, nos 14 anos que vivi fora de casa sempre esperei por esse momento... e nada. Rien. Habituei-me a embarcar e desembarcar sozinha. Mas não deixei de amar. Estais aqui, no melhor sítio onde poderíeis estar: dentro do meu peito.

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E se fosse já amanhã?

terça-feira, junho 14, 2016

Sim. E se fosse já amanhã? O dia. O tal dia. Aquele dia em que evitamos todos pensar. Vocês teriam dito tudo o que guardam no peito? Será que teriam feito metade daquilo que a vossa alma vos suspira ao ouvido? Será que vocês teriam amado, sem contas poupança? 

Eu nunca achei a morte feia. Terrorífica. Indizível sob pena de atrair. Não sei se o facto do negócio de família ser uma agência funerária teve alguma influência nisso. Eu sempre achei a morte estúpida. Ridícula. Demasiado simplista para causar estragos tão grandes. O que é a morte? Não é mais do que uma ausência constante. Não é mais do que isso. E como é que isso nos pode fazer tão mal?

Eu sempre brinquei com o facto de ter mais medo dos vivos do que dos mortos. Nunca me fez confusão aproximar-me deles, tocar-lhes, beijar-lhes, ajustar-lhes a gravata, o casaco ou o vestido. A morte mais difícil de aceitar foi a da minha avó materna. Não foi difícil no dia, em si. Tornou-se difícil ao longo dos anos. E é ridículo, continuo a dizer que é ridículo. Um dia a pessoa está ali e no outro já não está. E não voltará a estar. E é esse não voltar que encerra todas as possibilidades... Que acaba com todos os abraços, com todos os beijos na testa, com todas as horas das estórias, com todas as brincadeiras no campo. A morte é ridícula. Acreditem no que eu vos digo.

Um dia, ia eu a caminho do trabalho, em Lisboa, e atirou-se um homem do elevador de Santa Justa. Acredito que ele quisesse morrer. Acredito que haja muita gente que queira e estão no seu pleno direito de o querer. Acredito ainda que haja muita gente que não aguente passar por aquilo que eu e outras pessoas estamos a passar. Acredito que prefiram entregar-se a ter que aguentar-se conforme podem... Mas de cada vez que um deles o faz, perdemos todos. Perdemos força. Perdemos esperança. Perdemos um amigo.

Eu sei que não escolheste morrer, mas também sei que te custava muito viver. Só soube hoje que não estavas mais entre nós Irina. Não prometo cumprir com todos os conselhos que me deste: o de não ter filhos e o de não casar. Disseste-me que não valia a pena. Que só ia sofrer mais se o fizesse. E quanto à pergunta que me fizeste um dia, "porque é que Deus nos escolheu para sofrer?", na altura eu não te soube responder, ou melhor eu sabia responder-te, mas também sabia que não irias acreditar em mim. 

Espero que tenhas tido "tempo", mais do que suficiente, para teres dito tudo o que tinhas guardado no peito. E espero que tenhas ido para esse lugar para onde eu acredito que todas as pessoas vão. E espero ainda que tenhas recebido um abraço como só a minha avó os sabia dar. Descansa em paz.

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Finalmente, acordei p'ra vida

sábado, junho 11, 2016

Quando eu decidi expor que tinha um cancro fi-lo com um propósito que me parecia bastante nobre: lembrar as pessoas de que as pessoas com cancro continuavam a ser pessoas. Achava, e continuo a achar, que o cancro deveria ser desmistificado. E quem é que se esqueceu de fazer isso? Eu. Tenho de admiti-lo (embora me custe). Por vezes as forças das minhas palavras são mais capazes do que eu. Acontece a quem escreve. E acontece a quem vive. O medo superou-me na maior parte das vezes...

A primeira amiga que me foi visitar ao hospital quando cá cheguei trata-se de uma pessoa especial. Mesmo que não fosse minha amiga seria especial na mesma. É um ser humano com uma luz própria sem igual. Ofereceu-me duas coisas: uma revista de viagens e um caderno em branco. O objectivo era eu planear o próximo destino de férias (e abstrair-me da verdadeira viagem que eu estava prestes a começar). Querem saber qual foi a primeira coisa que pensei em escrever quando peguei no caderno para a mão? Senti-me bastante inclinada, e muito, muito tentada, a deixar escrito como é que queria que fosse o meu funeral. 

Eu sei. É incoerente... principalmente porque eu nunca pensei que ia morrer. Acho que foi o meu lado obsessivo-compulsivo de querer ter sempre tudo sob controlo que me fez quase cair em tentação. Desculpa amiga. Mil desculpas pela minha falha. Passados uns dias comecei a escrever as primeiras coisas, a maior parte delas deram origem às estórias que vos tenho contado aqui. 

Hoje, em vez de me lembrar dos passes incertos que tenho dado em direcção ao futuro, decidi recordar-me das coisas que sempre me caracterizaram no passado, umas melhor que outras... e foi bom demais. E era com esta força e com este ânimo que eu gostaria de enfrentar os últimos tratamentos que me esperam. Eu que desde o inicio sempre quis evitar clichés e outros tipos de sabedoria popular, sei agora que o medo não é um sinal de fraqueza. Não é. O medo é sinal de que nos preparamos para fazer algo para o qual necessitamos de ter muita coragem. E é isso que eu quero daqui p'ra frente: coragem.

#vamos matar o bicho

Desculpem lá rapazes, mas...

domingo, junho 05, 2016

... "isto" é mais complicado para nós (mulheres). Não estou a falar do cancro. O cancro é complicado para qualquer um. Estou a falar de um dos 7 pecados capitais: a vaidade. Estou a falar de quando me olho ao espelho, (principalmente quando vou às compras), e não gosto do que vejo. Os meus pais queixam-se por eu passar muito tempo "em casa" quando estou a fazer os tratamentos em ambulatório, mas na verdade, não me apetece sair. Na maioria das vezes, não me apetece sequer saber do mundo lá fora... e nem toda a gente compreende isso, embora eu ache que esse sentimento de recolhimento é partilhado por ambos os géneros, homens e mulheres. Até termos a certeza de que estamos bem, pôr um pé fora de casa vai ser um desafio daqueles...

Depois há todo um mise-en-scène difícil de interiorizar. Pelo menos para nós, senhoras. Desde que comecei o tratamento que as transformações físicas que sofri foram enormes. Fiquei sem cabelo, sem sobrancelhas e sem pestanas (e sem o resto também). Ganhei mais manchas de pigmentação na pele e tenho duas barrigas bem salientes que no caso de eu ir à praia, funcionarão extremamente bem como bóia de salvação. Baptizei-as de "two-pack", ou seja, uma versão dilatada (e distendida) do six-pack. Para ajudar o estilo que já não estava muito bom, tenho de usar obrigatoriamente meias de compressão... tcham tcham tcham: brancas! E claro, quando saio de casa, não posso sair sem máscara de protecção. Portanto ando por aí disfarçada de turista japonesa obesa. Ps. falta-me o selfie-stick!

Só me sinto confortável de pijama. É triste, mas é verdade. E há meses que não me maquilho. Podia ter paciência para ultrapassar isto tudo usando pestanas falsas, cabeleira, quiçá até uma cinta modeladora como aquelas das irmãs Kardashian, mas não, não quero parecer um travesti. Quero parecer eu... apesar de eu não parecer como queria, de facto, parecer. Ir às compras deixou de ser divertido. Sempre que eu visto qualquer coisa, mesmo que seja uma "tenda" que dê para albergar duas famílias de refugiados, (desculpem a piada seca), a minha mãe diz que me fica óptimo. E eu fico levada da breca! Eu sei que é tudo para me fazer sentir bem, mas o óbvio é o óbvio e eu prefiro que me digam a verdade, mesmo que a verdade doa um bocadinho.

Outro dia, na consulta, a doutora para me auscultar quase que precisou de um escopo para conseguir afastar o soutien do meu corpo de tão apertado que estava... Sinto-me um verdadeiro peixe-balão. Nunca me deu nenhum ataque de choro por causa destas vicissitudes, e cortar o cabelo até foi um episódio sem grandes dramas, mas tenho de vos contar estas coisas para me sentir um bocadinho melhor. Toda a gente me diz "pensas nisso depois", mas caramba, custa. Custa ligeiramente, não tanto como uma picada, mas custa na mesma.

#vamos matar o bicho

Carta a uma jovem médica

sexta-feira, junho 03, 2016

Este mundo em que vivemos tem coisas fascinantes. Tem. Quando estive na unidade de cuidados intensivos do Hospital de São José fui tratada por duas médicas. Quis o destino, (ou o universo), que uma delas fosse a futura mulher do médico que me acompanhou até Lisboa, e a outra, um pequeno diabinho terceirense que conheço desde que nasceu. Notava-se-lhes no rosto a juventude, o inicio, e acima de tudo a atitude. Sem querer parecer demasiado mística, há círculos que se vão fechando e coisas que acontecem porque têm uma razão muito forte para acontecer....

Acho que era isto mais ou menos que uma médica, novata, me tentava dizer noutro dia, apesar de não ter escolhido as melhores palavras para o expressar. Os médicos, por norma, os mais velhos, não se envolvem demasiado com os pacientes. Limitam-se a frases curtas e olhares analíticos. E nós, que caímos na condição de pacientes às vezes, (quase todas as vezes), queremos mais deles. Não é preciso que nos façam sentir super-heróis, mas se nos puderem fazer sentir normais... isso já é um alívio enorme.

Esta médica, novata, de que vos falo, tem algumas particularidades em comum comigo. E talvez seja por isso que depois de termos encontrado algumas semelhanças entre nós, ela se tenha tornado mais amiga do que doutora, apesar de eu lhe fazer um relatório clínico todos os dias de como é que estou... Senti-lhe a frustração quando me tentou ajudar com mensagens positivas e mandei-a enfiá-las num sítio que eu cá sei. Não estava nos meus melhores dias. Não estava no melhor de mim. Justificou-se, ingenuamente, com o facto de não ter muito jeito para pessoas. E de repente, vi-me nela. Também eu, durante muito tempo pensei que não tinha jeito para pessoas, aliás, ainda hoje, me debato um bocadinho com isso. Não vos disse que tínhamos muito em comum? É verdade.

Quando eu cheguei ao Hospital de Santo António dos Capuchos tive de assinar um termo de responsabilidade, basicamente um papel onde damos autorização aos senhores doutores para fazerem connosco o que acharem melhor. Entreguei-me nas mãos deles, eu que sempre fui uma mulher desconfiadíssima. E conto com eles até hoje. Nem sempre me dizem aquilo que quero ouvir, nem sempre me dão o tempo de antena de que eu preciso para me sentir confiante, nem sempre me passam a mão pela careca como eu gostava que passassem. Mas eu sei e sinto que estou bem entregue... mesmo que em determinados dias as coisas não sejam como ambos queremos.

Foi por isso que achei importante escrever este texto para a minha amiga médica novata, única e exclusivamente para lhe dizer que quando nós não desistimos de uma pessoa isso significa que nos importamos muito com ela, mesmo que os discursos não sejam tão eloquentes quanto se quer, mesmo que se pense que não se tem muito jeito para pessoas. Ainda não temos foto juntas, mas garanto-vos que depois de eu sair desta, acho que tenho companheira para uma volta ao mundo. Obrigada CC (eu disse que tínhamos muito em comum!)