Aos meus filhos

terça-feira, junho 28, 2016

Quando estava a escrever o post de ontem, entre as muitas coisas que (ainda) quero fazer coloquei a frase: "ter uma criança" e a seguir apaguei-a. Apaguei-a por várias razões. Primeiro, porque não sei efectivamente se quero mesmo ter uma criança. Segundo, porque se quiser, não sei se consigo... pelo menos pela via biológica (as mulheres que se submetem a tratamentos de quimioterapia como eu correm o risco de ficarem inférteis).  

Já escrevi muito sobre isto, e já fui, da mesma forma, muito criticada pelo mesmo. Eu nunca senti o meu relógio biológico, (continuo sem senti-lo), mas quando a vida nos coloca perante determinadas situações, como esta, a de não poder vir a ter filhos, não há como não pensar justamente nisso. Eu acho que nunca senti o meu relógio biológico "soar" porque também nunca desejei que "os meus filhos" crescessem em Lisboa. É essa a verdade mais sincera. Eu sempre desejei que "os meus filhos" tivessem uma infância como eu tive... E que fossem poupados ao desassossego das grandes cidades.

A minha infância foi passada na Casa da Ribeira, essa grande freguesia pr'a lá do sol posto onde fui tão feliz. A felicidade naquela altura era uma coisa muito fácil de se conseguir. Vestia-me de princesa sete dias por semana... Uma princesa que andava de burro e que tinha, obrigatoriamente, de apanhar erva d´água, junto à ribeira, para alimentar as galinhas. Uma princesa que comia pão caseiro, acabado de coser num forno de lenha, e que se entretinha com cozinhados de terra e água. Uma princesa que passava o tempo a andar de baloiço, a caçar borboletas, a fugir das abelhas e a namorar os animais que faziam parte do dia a dia da casa da avó.

Era isto que eu queria, e talvez ainda queira, para "os meus filhos". Queria que fossem felizes e fazer deles crianças felizes nunca passou por uma ida ao McDonald's. Desculpem. A ideia de felicidade que eu sempre tive para "os meus filhos" passava, e talvez passe, por vê-los correr nos cerrados, sujos de merda de vaca. Regressar à Terceira trouxe-me de volta a paz das coisas simples. E quem sabe se esse não foi o primeiro passo que eu dei para permitir-me sentir o meu relógio biológico? Se algum dia me virem com uma criança pela mão, suja, (e cheia de merda de vaca) não me critiquem. Estamos simplesmente a aprender a ser felizes.

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4 comments

  1. Cada mulher tem o direito de querer ter ou não filhos. Eu nunca senti esse desejo, não tive filhos e não me arrependo. No entanto concordo contigo , as crianças devem crescer livre e sujar se é correr e tudo o que a faça feliz.
    Beijinho Cátia

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    1. Dou-lhe os parabéns Nina por ter partilhado essa ideia.
      Durante algum tempo escrevi sobre o facto de talvez não querer ter filhos e o que percebi foi que a nossa sociedade ainda não está preparada para ouvir uma mulher dizer isso. Ainda nos falta evoluir tanto... Beijinhos :)

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  2. Uma infância linda e invejável, CC.
    E parabéns por desejar ter filhos que possam ter uma infância como a sua.
    A CC conhece-me, sabe a minha idade.
    Aos 28 anos desejei ter um filho porque estava apaixonada. Mas ele sabia que jamais lhe faria um filho só porque eu queria.
    Um ano depois, outros desejos mais alto falaram. E cumpri-os.
    E desisti dele.
    Não me arrependi dos passos que dei.
    Hoje, não me arrependo.
    Há imensas maneiras de sermos felizes.
    Beijinho

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    1. Fui de facto muito feliz Maria e não consigo imaginar ter filhos se não lhes puder dar aquilo que recebi, e quando falo nisso, não falo em bens materiais, obviamente. Como disse no post, não sei se quero ter filhos, e se quiser, não sei se consigo. Um dia de cada vez. E sim, concordo consigo a 100%, há imensas formas de se ser feliz e isso não está intimamente ligado ao facto de querermos ou não querermos ser mães. Beiijnho

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