Às vezes esqueço-me das coisas que escrevo

sexta-feira, junho 24, 2016

Mas não devia! Não tenho por hábito ir ler o que é muito antigo, mas devia! (já estou como a outra, essa grande senhora que disse: "você sabe que eu sei que você sabe que eu sei"). Passo a citar-me a mim própria: "Coisas que me levam a escrever: a paixão pela escrita sem dúvida. Foi um feliz reencontro ter criado este blogue. Recordou-me porque é que um dia eu quis escrever a vida inteira". E basicamente é isto. Ou melhor, tentar não me esquecer disto. Para mim, um dos maiores efeitos secundários da quimioterapia é a pré-amnésia, embora os médicos afirmem que isso é um sentimento psicológico. E até deve ser... Uma pessoa doente acredita muito facilmente na inutilidade em que se transforma (mas não devia!).

E portanto, cheguei à conclusão, (se calhar um bocadinho tardia), de que é super importante mantermo-nos ocupados durante todo o processo de tratamento, de preferência a fazer aquilo de que se gosta muito (até parece que descobri a pólvora, mas sabem, às vezes, estas coisas não são lá muito evidentes para quem tem a cabeça cheia de minhoca). Como em tudo na vida, uma pessoa precisa bater no fundo para vir ao de cima. O que não podemos de forma alguma é ancorar lá por baixo... Em teoria faltam-me 3 tratamentos de quimioterapia para terminar o protocolo inicial definido pelos médicos, mas nesta fase final os meus glóbulos brancos estão "deveras" preguiçosos. Os 3 tratamentos que faltam parecem 100. A minha psicóloga mandou-me trabalhar. Disse que essa era uma das formas mais eficazes de ocupar a cabeça (e não pensar em tolices). Respondi-lhe "mas eu estou doente", ao que ela ripostou: "isso é apenas uma desculpa".

É verdade. É uma desculpa. É uma desculpa para não fazer aquilo de que eu gosto muito. Porque é que nós temos tanto medo de experimentar aquilo de que se gosta? Só encontro uma resposta possível: não o fazemos porque temos um medo terrível de sofrer (embora a sofrer já esteja eu). É mais ou menos a mesma coisa que se passa com as paixões... Não nos entregamos nem as vivemos como deveria ser porque a primeira coisa em que pensamos é "caraças, vou meter-me numa grande alhada outra vez". Não é assim camaradas?! Quando se descobre que se tem uma doença que nos coloca frente a frente com a morte, temos tendência a petrificar e a deixar tudo em stand-by, mas a verdade é que a vida continua. E enquanto há vida, há esperança. Não nos podemos esquecer da nossa essência. Ela está lá, mesmo que não a vejamos. Graças a Deus tenho pessoas que me lembram disso todos os dias: "és mais do que o cancro". E era isso que eu queria dizer hoje, em especial aos que estão a passar pelo mesmo. Somos mais fortes do aquilo que nos quer matar (por mais que nos custe a acreditar).

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4 comments

  1. Força Cátia.... Tu és mais forte que este bicho... Tens que lhe mostrar que quem manda és tu e que ele tem que se ir embora e deixar-te viver a tua vida como sempre sonhas-te. Tu és uma guerreira e vais vencer esta batalha...Beijinhos da tua terra, Ilha.
    Ass. Cátia Arruda

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    1. Espero que sim Cátia! Obrigada pela mensagem! Beijinho grande :)

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  2. Claro que é mais que um cancro.
    Vê-se pelas belas palavras que escreve sempre reconfortantes para quem a lê. Dá-nos imensa coragem, CC.
    Falta pouco.
    Beijinho

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    1. É tão bom saber que as minhas palavras encorajam alguém!
      Beijinhos Maria! :)

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