Carta a uma jovem médica

sexta-feira, junho 03, 2016

Este mundo em que vivemos tem coisas fascinantes. Tem. Quando estive na unidade de cuidados intensivos do Hospital de São José fui tratada por duas médicas. Quis o destino, (ou o universo), que uma delas fosse a futura mulher do médico que me acompanhou até Lisboa, e a outra, um pequeno diabinho terceirense que conheço desde que nasceu. Notava-se-lhes no rosto a juventude, o inicio, e acima de tudo a atitude. Sem querer parecer demasiado mística, há círculos que se vão fechando e coisas que acontecem porque têm uma razão muito forte para acontecer....

Acho que era isto mais ou menos que uma médica, novata, me tentava dizer noutro dia, apesar de não ter escolhido as melhores palavras para o expressar. Os médicos, por norma, os mais velhos, não se envolvem demasiado com os pacientes. Limitam-se a frases curtas e olhares analíticos. E nós, que caímos na condição de pacientes às vezes, (quase todas as vezes), queremos mais deles. Não é preciso que nos façam sentir super-heróis, mas se nos puderem fazer sentir normais... isso já é um alívio enorme.

Esta médica, novata, de que vos falo, tem algumas particularidades em comum comigo. E talvez seja por isso que depois de termos encontrado algumas semelhanças entre nós, ela se tenha tornado mais amiga do que doutora, apesar de eu lhe fazer um relatório clínico todos os dias de como é que estou... Senti-lhe a frustração quando me tentou ajudar com mensagens positivas e mandei-a enfiá-las num sítio que eu cá sei. Não estava nos meus melhores dias. Não estava no melhor de mim. Justificou-se, ingenuamente, com o facto de não ter muito jeito para pessoas. E de repente, vi-me nela. Também eu, durante muito tempo pensei que não tinha jeito para pessoas, aliás, ainda hoje, me debato um bocadinho com isso. Não vos disse que tínhamos muito em comum? É verdade.

Quando eu cheguei ao Hospital de Santo António dos Capuchos tive de assinar um termo de responsabilidade, basicamente um papel onde damos autorização aos senhores doutores para fazerem connosco o que acharem melhor. Entreguei-me nas mãos deles, eu que sempre fui uma mulher desconfiadíssima. E conto com eles até hoje. Nem sempre me dizem aquilo que quero ouvir, nem sempre me dão o tempo de antena de que eu preciso para me sentir confiante, nem sempre me passam a mão pela careca como eu gostava que passassem. Mas eu sei e sinto que estou bem entregue... mesmo que em determinados dias as coisas não sejam como ambos queremos.

Foi por isso que achei importante escrever este texto para a minha amiga médica novata, única e exclusivamente para lhe dizer que quando nós não desistimos de uma pessoa isso significa que nos importamos muito com ela, mesmo que os discursos não sejam tão eloquentes quanto se quer, mesmo que se pense que não se tem muito jeito para pessoas. Ainda não temos foto juntas, mas garanto-vos que depois de eu sair desta, acho que tenho companheira para uma volta ao mundo. Obrigada CC (eu disse que tínhamos muito em comum!)

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