Desculpem lá rapazes, mas...

domingo, junho 05, 2016

... "isto" é mais complicado para nós (mulheres). Não estou a falar do cancro. O cancro é complicado para qualquer um. Estou a falar de um dos 7 pecados capitais: a vaidade. Estou a falar de quando me olho ao espelho, (principalmente quando vou às compras), e não gosto do que vejo. Os meus pais queixam-se por eu passar muito tempo "em casa" quando estou a fazer os tratamentos em ambulatório, mas na verdade, não me apetece sair. Na maioria das vezes, não me apetece sequer saber do mundo lá fora... e nem toda a gente compreende isso, embora eu ache que esse sentimento de recolhimento é partilhado por ambos os géneros, homens e mulheres. Até termos a certeza de que estamos bem, pôr um pé fora de casa vai ser um desafio daqueles...

Depois há todo um mise-en-scène difícil de interiorizar. Pelo menos para nós, senhoras. Desde que comecei o tratamento que as transformações físicas que sofri foram enormes. Fiquei sem cabelo, sem sobrancelhas e sem pestanas (e sem o resto também). Ganhei mais manchas de pigmentação na pele e tenho duas barrigas bem salientes que no caso de eu ir à praia, funcionarão extremamente bem como bóia de salvação. Baptizei-as de "two-pack", ou seja, uma versão dilatada (e distendida) do six-pack. Para ajudar o estilo que já não estava muito bom, tenho de usar obrigatoriamente meias de compressão... tcham tcham tcham: brancas! E claro, quando saio de casa, não posso sair sem máscara de protecção. Portanto ando por aí disfarçada de turista japonesa obesa. Ps. falta-me o selfie-stick!

Só me sinto confortável de pijama. É triste, mas é verdade. E há meses que não me maquilho. Podia ter paciência para ultrapassar isto tudo usando pestanas falsas, cabeleira, quiçá até uma cinta modeladora como aquelas das irmãs Kardashian, mas não, não quero parecer um travesti. Quero parecer eu... apesar de eu não parecer como queria, de facto, parecer. Ir às compras deixou de ser divertido. Sempre que eu visto qualquer coisa, mesmo que seja uma "tenda" que dê para albergar duas famílias de refugiados, (desculpem a piada seca), a minha mãe diz que me fica óptimo. E eu fico levada da breca! Eu sei que é tudo para me fazer sentir bem, mas o óbvio é o óbvio e eu prefiro que me digam a verdade, mesmo que a verdade doa um bocadinho.

Outro dia, na consulta, a doutora para me auscultar quase que precisou de um escopo para conseguir afastar o soutien do meu corpo de tão apertado que estava... Sinto-me um verdadeiro peixe-balão. Nunca me deu nenhum ataque de choro por causa destas vicissitudes, e cortar o cabelo até foi um episódio sem grandes dramas, mas tenho de vos contar estas coisas para me sentir um bocadinho melhor. Toda a gente me diz "pensas nisso depois", mas caramba, custa. Custa ligeiramente, não tanto como uma picada, mas custa na mesma.

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1 comments

  1. Na verdade, todas as mulheres e homens pensam da mesma forma, e dificilmente se aceitam. É compreensível.
    Mas vista o que vestir, vai chegar o dia que o corpo e a mente vão pedir ar fresco, sol, maquilhagem.
    Nessa altura a CC nem se vai importar com mais nada.
    Beijinho

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