Do 38 ao 44

quarta-feira, junho 29, 2016


Para além do jornalismo e da comunicação, a moda sempre foi uma das minhas grandes paixões, foi por isso, e não só, que a dada altura da minha vida me pus a vender cuecas e soutiens. Esta experiência que durou mais do que o devido, (3 anos), ensinou-me imensas coisas... Trabalhar com público, particularmente com mulheres, é a melhor escola da vida. Se tivesse ficado em Espanha, (vivi lá entre 2007 e 2009), acredito que tinha conseguido juntar ambas as coisas, tornando-me efectivamente uma jornalista de moda, como eu queria. Em Portugal, a moda, está pelas ruas da amargura, sempre esteve. 

A loja onde trabalhei era muito procurada por mulheres que não encaixavam exactamente nas medidas padrão 86-60-86. Eu também nunca encaixei, (ah, bendita genética!), e isso nunca foi um grande problema para mim. Nunca deixei de poder fazer aquilo que sempre quis só por ter uns quilos a mais... E os mundos profissionais por onde me movi sempre valorizaram em demasia a imagem. Modéstia à parte, acho que consegui impor o meu talento, (e o meu conteúdo), como assinatura da minha personalidade. E juntamente com eles, entraram em cena as minhas curvas também. Embora às vezes me pergunte: porque é que as mulheres com curvas, e com quilos a mais, só têm papeis secundários nas telenovelas portuguesas? É uma constatação. Muito óbvia.

Durante esta experiência ouvi centenas de mulheres perfeitas queixarem-se sobre o seu corpo e por causa disso aprendi a relativizar as pequenas imperfeições que me incomodavam. Com o cancro esqueci-me um bocadinho disso. Pediram-me para não emagrecer, (o nutricionista do hospital), e eu tenho tido muito êxito na concretização desse objectivo. É uma mudança brusca, num curto espaço de tempo. É difícil assimilar, mas é perfeitamente passível de aceitar. Eu, que sempre defendi as curvas femininas, achei que me estava a comportar como os hipócritas se comportam. Estava a bater de frente com o que sempre perpetuei nos meus textos. Somos sempre muito mais bem sucedidos na teoria do que na prática, não é verdade?

Então perguntei-me a mim própria: será que não és capaz de amar o corpo que tens agora? E se for o corpo com o qual terás de viver daqui p'ra frente, o que é que vais fazer? Não é só um corpo com uns quilos a mais. É um corpo cheio de marcas. Cicatrizes. Manchas. Embora continue a ser o meu corpo. E se calhar, é isso que me define e me torna especial. Os quilos a mais. As marcas. As cicatrizes. As manchas. Eu não posso ser a primeira a atirar pedras. Eu não posso tornar-me numa daquelas mulheres que iam à loja. "Jamé", como dizia o outro. Eu não sou assim. Eu nunca fui assim.

E já que falámos em moda, em lojas, em cuecas e soutiens... Há todo uma indústria que vive à custa da(s) insegurança(s) feminina(s). É soluções milagrosas para emagrecer. É cintas modeladoras para esconder os pneus. É comida calórica que não engorda. É máquinas que prometem fazer desaparecer a celulite numa sessão. Será que essas pessoas se preocupam verdadeiramente com as mulheres? Pensem nisso.

Deixe um comentário

0 comments