E se fosse já amanhã?

terça-feira, junho 14, 2016

Sim. E se fosse já amanhã? O dia. O tal dia. Aquele dia em que evitamos todos pensar. Vocês teriam dito tudo o que guardam no peito? Será que teriam feito metade daquilo que a vossa alma vos suspira ao ouvido? Será que vocês teriam amado, sem contas poupança? 

Eu nunca achei a morte feia. Terrorífica. Indizível sob pena de atrair. Não sei se o facto do negócio de família ser uma agência funerária teve alguma influência nisso. Eu sempre achei a morte estúpida. Ridícula. Demasiado simplista para causar estragos tão grandes. O que é a morte? Não é mais do que uma ausência constante. Não é mais do que isso. E como é que isso nos pode fazer tão mal?

Eu sempre brinquei com o facto de ter mais medo dos vivos do que dos mortos. Nunca me fez confusão aproximar-me deles, tocar-lhes, beijar-lhes, ajustar-lhes a gravata, o casaco ou o vestido. A morte mais difícil de aceitar foi a da minha avó materna. Não foi difícil no dia, em si. Tornou-se difícil ao longo dos anos. E é ridículo, continuo a dizer que é ridículo. Um dia a pessoa está ali e no outro já não está. E não voltará a estar. E é esse não voltar que encerra todas as possibilidades... Que acaba com todos os abraços, com todos os beijos na testa, com todas as horas das estórias, com todas as brincadeiras no campo. A morte é ridícula. Acreditem no que eu vos digo.

Um dia, ia eu a caminho do trabalho, em Lisboa, e atirou-se um homem do elevador de Santa Justa. Acredito que ele quisesse morrer. Acredito que haja muita gente que queira e estão no seu pleno direito de o querer. Acredito ainda que haja muita gente que não aguente passar por aquilo que eu e outras pessoas estamos a passar. Acredito que prefiram entregar-se a ter que aguentar-se conforme podem... Mas de cada vez que um deles o faz, perdemos todos. Perdemos força. Perdemos esperança. Perdemos um amigo.

Eu sei que não escolheste morrer, mas também sei que te custava muito viver. Só soube hoje que não estavas mais entre nós Irina. Não prometo cumprir com todos os conselhos que me deste: o de não ter filhos e o de não casar. Disseste-me que não valia a pena. Que só ia sofrer mais se o fizesse. E quanto à pergunta que me fizeste um dia, "porque é que Deus nos escolheu para sofrer?", na altura eu não te soube responder, ou melhor eu sabia responder-te, mas também sabia que não irias acreditar em mim. 

Espero que tenhas tido "tempo", mais do que suficiente, para teres dito tudo o que tinhas guardado no peito. E espero que tenhas ido para esse lugar para onde eu acredito que todas as pessoas vão. E espero ainda que tenhas recebido um abraço como só a minha avó os sabia dar. Descansa em paz.

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4 comments

  1. Nunca li na minha vida um texto tão bonito. Obrigada Pimpas...vou guarda-lo para sempre nos meus tesouros. Laviuu daqui até à Lua.

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    1. Obrigada Patrícia. Custou-me muito escrevê-lo. Da mesma forma que tu vais guardá-lo para sempre nos teus tesouros, eu guardá-lo-ei para sempre no meu coração. Laviuu daqui até à Lua.

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  2. Não conheci a pessoa que falas, que descanse em PAZ também são os meus desejos.
    Comovente este texto, nem todos podem escolher quando morrem, nem todos conseguem aguentar o sofrimento, também não critico que se mata, às vezes critica-se mas cada um sabe de si e acredito que quem o faça esteja num desespero total.
    Beijinho Cátia

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    1. Aprendemos muito nos quartos de hospital Nina, aprendemos muito com os outros e acabamos por nos tornar próximos mesmo sem querer porque enfrentamos a mesma luta. A Irina foi a primeira colega de quarto que tive, e de todas as vezes que voltei ao hospital, quis o destino que sempre quarto, da última vez, levaram-na para os cuidados intensivos e não a vi a mais. É duro, é demasiado duro. Mas só me resta pensar que está num sítio bem melhor. Beijinhos e obrigada :)

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